Seria um clichê despudorado, um chove não
molha daqueles que toda a comunidade está cansada de dizer e repetir, como se
fosse um mantra, para nunca esquecerem: ser fora do meio é um horror!
Isso seria verdade caso a sentença em si não estivesse plena de sofismas
conceituais, elegendo-a na categoria de um rótulo minimalista, que não serve
para nada, produzindo a solução mágica, contudo não atacando o problema de fato.
A nossa militância, ou melhor, a nossa
comunidade não difere muito do pensamento religioso e seu modus operandi: o tempo todo está à procura dos inimigos externos.
A religião não sobreviveria sem eles, afinal, dão forma, sabor, é aquele
tempero que condiciona o ideal, é o paradigma que aponta contra o que e quem se
lutar. Não bastasse o preconceito, passamos eleger inimigos secundários,
começamos em nome de uma diversidade infinita diluir-nos em siglas, acrônimos,
como se um preconceito comum a todos fosse específico de um grupo dentro da
comunidade e não de outros.
Dessa forma, passamos a fazer a
militância do substantivo sufixado: alguma coisa + fobia. Diluídos nesse autismo conceitual de tribos
sectárias (todos contra todos), não estamos conseguindo nos enxergar, olhar
para nós mesmos e dizer que, às vezes, temos sido ridículos.
Fui, junto com tantos outros, defensor de
que homossexuais tivessem o direito de constituir família reconhecido e aceito
no campo jurídico brasileiro, isso aconteceu em 05 de maio de 2011, data
histórica para nossa comunidade, mas o que se viu de lá até hoje é desanimador.
Teríamos que entender que a família
moderna está para muito além do conceito de família nuclear, mas isso não foi nem é refletido dentro de nossa comunidade,
que se alegra em reproduzir o modelo família heterossexual feliz: imitam as cerimônias
religiosas; as juras de fidelidade e amor eternos; os ritos são exatamente os
mesmos. Desta feita, não conseguem se reinventar
fora do modelo heteronormativo e sem autocrítica disparam contra: cis, ativos, brancos,
homens dentro do padrão, etc... contra os inimigos que elegeram para um grupo
específico da sigla, como se todos nós não estivéssemos exatamente no mesmo
barco e como se também não elegessem o “padrão” para si mesmos.
Agora pouco, lia sobre a nova moda de clareamento anal e
chamou-me a atenção um comentário dizendo que a culpa disso é do ativo,
padrãozinho, fora do meio que tem que ter sua necessidade satisfeita. Obvio que
minha mente foi longe, afinal, primeiro, quem é que examina, EXCLUSIVAMENTE, a cor do ânus de alguém antes de penetrar?: “Ah
não meu caro! Seu ânus não é da cor que me dá tesão”, ou “Ei, estou a fim de
penetrar em você, deixe-me ver se o seu ânus tem a cor padrão para minha pulsão
sexual específica”. Segundo, como pode ser culpa desse ou daquele, antes de ser
da pessoa que se submete ao clareamento?
A questão é que para tudo temos que
apontar a culpa de alguém eleito para ser esse inimigo externo secundário, que
vem tornando a nossa causa líquida, diluída e sem senso. Fui pesquisar o que é ser fora do meio e,
pasmo, descobri que é aquela pessoa que não gosta de frequentar boates, saunas,
bares ou qualquer coisa do meio homossexual. Estritamente por isso essas
pessoas são alvos das críticas da comunidade, mas a grande pergunta que se
deveria fazer é: tais pessoas que não
gostam de frequentar os ambientes são preconceituosas por isso, ou por
difundirem comportamento heteronormativo contra a comunidade?
Talvez, não é regra, mas a pessoa não
gosta dos programas que o universo LGBT oferece, mas não necessariamente esteja
enquadrando um padrão heteronormativo, apenas não se diverte nele. Os transgêneros, por exemplo, muitos não
gostam, não aceitam que se diga que, no passado, eles tinham outro sexo
diferente do que possuem depois de operados, alguns até afirmam: “eu sou mulher”,
ou invés de afirmarem: “eu sou homossexual”.
Isso
para mim, essa atitude, sim, é preconceito contra a homossexualidade e se não
bastasse, hoje, fica a acusação de uns contra outros, minando o entendimento
que nossa luta é contra a homofobia que se dá em desmerecimento de gays,
lésbicas, travestis, transexuais, enfim, de todos que se atraem por pessoas do
mesmo sexo biológico.
E o que temos feito sem nos darmos conta
é: estamos reproduzindo a heteronormatividade no meio da homossexualidade sem
nos descobrir, estamos nos atacando, todos contra todos, em nome do não cultivar
preconceitos, mas nos odiando
mutuamente. Nosso papel não é fácil, pois temos que inventar um jeito de ser
homossexuais, sem a imposição social, mas nosso jeito próprio e comum de ser.
Enquanto importarmos o ódio social, que nos é jogado todos os dias, contra os
acrônimos e os rótulos minimalistas não estaremos sendo nós mesmos, apenas
reproduzindo tacitamente (e cegamente) o comportamento social que nos acusam e
nos condicionam na marginalidade como párias e escórias da sociedade ideal.
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