Confesso que, se estivéssemos diante de um diálogo com o catolicismo, o debate seria mais profundo, uma vez que, dentro da tradição católica, a proibição está centrada na reflexão ética e possui raízes históricas profundamente arraigadas na construção da identidade do cristianismo como cultura judaico-cristã. A postura evangélica, entretanto, passa longe de compreender a própria formação, e o debate imediatamente se estabelece com base na literalidade das Escrituras.
Em outras palavras, basta uma compreensão exegética para elucidar o problema hermenêutico imediato, porque essa é, precisamente, a postura assumida pelo cristianismo pós-Reforma.
A isso se somava uma desigualdade social acintosa: de um lado, a riqueza exorbitante de uma minoria; de outro, a miséria escandalosa da maioria. Nessa época, surgiu uma expressão que dizia: “Viver à moda de Corinto”, significando viver na orgia e no luxo.
Entre os anos 50 e 52 da era cristã, Paulo viveu nessa cidade durante dezoito meses, conforme Atos 18,1-18, e fundou uma comunidade formada por pessoas provenientes das camadas mais modestas daquela sociedade: a comunidade cristã de Corinto.
A Primeira Carta aos Coríntios foi escrita aproximadamente no ano 56 da era cristã, em Éfeso. O motivo de sua redação era o fato de a comunidade estar reproduzindo, em seu ambiente cristão, os comportamentos da vida social da cidade.
Surgiram, assim, as divisões: grupos sectários promoviam disputas, politicagens e contendas. A carta foi escrita, portanto, com alguns objetivos muito específicos.
O primeiro deles era restabelecer a unidade da Igreja, elegendo um único líder: Cristo, que não está dividido.
O segundo consistia em advertir contra os escândalos de incesto, os julgamentos em tribunais pagãos e a luxúria. Paulo elabora, dessa forma, uma teologia do corpo, que é templo do Espírito Santo, conforme os capítulos 5 e 6 da Primeira Carta aos Coríntios.
O terceiro objetivo era responder às várias perguntas feitas pelos próprios membros da comunidade, orientando-os sobre matrimônio, celibato, divórcio, virgindade, comportamento dos nubentes e novo casamento das viúvas, além de tratar do culto aos ídolos, como se vê em 1 Coríntios 7.
Em seguida, Paulo fala da liberdade cristã e do respeito aos outros, colocando esse respeito como fundamento da própria liberdade, conforme os capítulos 8 a 10.
O quarto objetivo era estabelecer uma compreensão da ordem no culto. Paulo apresenta o fundamento do uso do véu pelas mulheres, protesta contra as diferenças de classe social e escreve o poema sobre o verdadeiro fundamento que sustenta todos os demais, inclusive a fé e a esperança: o amor. Em outras palavras, todos os dons somente possuem verdadeiro significado quando, em amor, são colocados a serviço uns dos outros, conforme 1 Coríntios 11 a 14.
O quinto objetivo era falar da ressurreição, ápice da fé cristã: a vida superando a morte, conforme 1 Coríntios 15.
O primeiro passo, portanto, era compreender a carta, suas motivações, seu panorama e sua importância cultural na formação de uma identidade cristã dentro da Igreja nascente. Agora, é necessário contextualizar a passagem sugerida no interior da própria carta, para que se alcance uma compreensão mais exata da mensagem do autor.
A perícope que nos foi sugerida encontra-se no segundo grande bloco temático da carta. Esse bloco contém o desenvolvimento da chamada teologia do corpo, que se opõe à imoralidade.
Há, portanto, uma defesa direta, clara e objetiva da liberdade:
O cristão deve saber discernir aquilo que conduz ao crescimento humano, à dignidade da pessoa e ao seu desenvolvimento saudável. Cristo nos libertou, e essa liberdade deve ser vivenciada. Não deve ser perdida, nem transformada novamente em escravidão, ainda que seja uma escravidão à própria pessoa, aos seus desejos ou ao seu corpo.
O corpo é templo do Espírito, e, onde está o Espírito, há liberdade.
A perícope do capítulo 6, versículos 9 a 11, faz, portanto, a transição entre o tema anterior — o julgamento em tribunais pagãos — e o tema do corpo. Tudo isso compõe uma única estrutura de condenação da injustiça, cujos pecados são apresentados como semelhantes aos da prostituição e da imoralidade.
Nesse momento, Paulo faz uso de dois termos gregos para estabelecer a transição e a comparação entre a injustiça e a imoralidade ligada à prostituição: malakoi e arsenokoitai.
Teologicamente, não existe consenso sobre o significado exato desses termos. Entretanto, o teólogo biblicista Robin Scroggs relaciona-os à prostituição masculina. Segundo essa interpretação, malakoi seria o jovem efeminado que se oferece para manter relações com um homem adulto, prática comum na Grécia antiga. Os arsenokoitai, por sua vez, seriam os homens que pagavam para manter relações com esses jovens.
O teólogo sustenta sua tese com base na referência à porneia, isto é, à prostituição ou à imoralidade que perpassa o bloco completo da perícope.
Contudo, o termo malakoi não está limitado a uma interpretação única e imediatista, nem pode ser compreendido a partir de uma postura restrita e simplória, como se os jovens aos quais o biblicista se refere fossem exclusivamente garotos de programa homossexuais.
A compreensão deve ser feita in totum, sem os preconceitos oriundos da época vitoriana.
O termo malakoi também aparece nos Evangelhos de Mateus e Lucas. Vejamos os textos:
“O que vocês foram ver? Um homem vestido com roupas finas (malakoi)? Mas aqueles que vestem roupas finas (malakoi) moram em palácios de reis” (Mt 11,8).
“Mas o que saístes a ver? Um homem trajado de vestidos delicados (malakoi)? Eis que os que andam com preciosos vestidos e em delícias estão nos palácios reais” (Lc 7,25).
Malakos, no singular, e malakoi, no plural, significam delicado, mole ou suave. O termo está relacionado à nobreza, aos palácios dos reis e, na época romana, à vida farta e luxuriosa dos palácios. Também era utilizado para se referir aos jovens dos cultos de Afrodite nos templos, em razão de sua beleza e suavidade.
Como Paulo combatia uma ideia que havia penetrado na comunidade de Corinto, infiltrando-se no modus vivendi daquelas pessoas, o uso do termo malakoi aponta para a prostituição ou para o sexo praticado em função da ganância e da busca por uma vida de regalias.
Em outras palavras, refere-se àqueles que se prostituem nos palácios para obter dinheiro, privilégios e regalias reais. Também pode dizer respeito àqueles que se casam por dinheiro ou que namoram por causa de uma casa luxuosa, de um carro novo ou do prestígio da família do pretendente.
O termo utilizado por Paulo para especificar aqueles que vivem “à moda de Corinto”, isto é, na orgia e no luxo, é malakoi.
O termo arsenokoitai também foi empregado no texto e se refere ao macho ligado ao sexo praticado em ritos pagãos, nos quais havia o culto ao sexo dentro dos templos greco-romanos. Eram ritos de iniciação sexual.
Nosso texto estabelece, portanto, uma comparação entre o pecado da idolatria e o pecado da porneia. Em outras palavras, a idolatria gerada pela injustiça é prostituição aos olhos de Deus: destrói o corpo, produz a imoralidade e escraviza a alma.
Dados os devidos esclarecimentos, o texto não trata da homossexualidade tal como hoje a compreendemos.
Há também um erro crasso de tradução das Escrituras ao se traduzir malakoi por “efeminados”, como se o termo se referisse simplesmente a um menino com gestos ou características femininas. Uma tradução mais adequada deveria relacionar malakoi à luxúria e arsenokoitai ao trabalhador ou explorador do sexo, preservando a verdadeira lógica da estrutura argumentativa de Paulo.
Ao traduzir esses termos por “efeminados” e “sodomitas”, inseriram-nos em uma lógica estrutural alheia ao próprio contexto da passagem.
Paulo está falando da injustiça que é imoral, idólatra, depravada, adúltera e luxuriosa; de uma injustiça encontrada dentro dos templos e entre beberrões, ladrões, avarentos e pessoas que se caluniam mutuamente, vivendo “à moda de Corinto”.
Se os homossexuais viverem uma vida luxuriosa, esse texto também se aplicará a eles. Contudo, os efeminados não serão excluídos do Reino de Deus simplesmente por serem efeminados, porque, nesse texto, o termo grego é malakoi e se refere à delicadeza associada a uma vida desregrada e luxuriosa.
Portanto, pegue o texto, leia integralmente os capítulos 5 a 7 e observe se a transição presente em 1 Coríntios 6,9-11 não se torna mais coerente quando compreendida dentro da lógica do contexto e traduzida de maneira adequada, e não segundo o caráter preconceituoso oriundo do vitorianismo, que retirou do texto a sua verdadeira lógica.



Nossa,
ResponderExcluirmuito bom esse estudo, parabéns pelo conteúdo esclarecedor. Muito me ajudou, mesmo!
Agradeço a Deus por vcs e esse blog abençoado
Obrigado por postarem este esclarecimento. Infelizmente o qua mais existe são pastores homofóbicos e fiéis que seguem a mesma linha cegamente. Tomara Deus que chegue um dia, onde as pessoas abrirão seus olhos para a luz, e todos venhamos amar à Deus acima de tudo e ao próximo como a nós mesmos, respeitando a diversidade deste mundo.
ResponderExcluirgostaria q vc comentasse esse assunto sobre a óptica católica , achei interessante o seu comentário inicial sobre a questão da ética cristã , obrigida e aguardo sua resposta ...
ResponderExcluirPode ser quer a passagem esteja explicada de forma correta mas não descartas outras que mostra que é pecado a prática homossexual ou homoafetivo se preferir.
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