domingo, 6 de setembro de 2026

André Mendonça no circuito conservador dos EUA: estudo revela conexões com rede político-religiosa

Estudo identifica participação do ministro do STF em ambientes ligados ao Acton Institute e investiga a circulação de lideranças brasileiras em redes internacionais de formação política, jurídica e religiosa.

Texto originalmente publicado pelo ICL Notícias

Acton Institute, direita americana e a internacionalização de redes político-religiosas: a conexão com André Mendonça e Deltan Dallagnol

Por Luciana Bauer, Gisele Agnelli e Pedro da Costa Junior

 

“Estivemos recente tratando de segurança pública com o embaixador dos Estados Unidos …”

André Mendonça AGU em 2020 palestra da Acton minuto 7

A compreensão das novas direitas contemporâneas exige deslocar o olhar das estruturas partidárias tradicionais para uma arquitetura mais ampla de produção e circulação de ideias. Think tanks, universidades, fundações privadas, organizações religiosas, associações jurídicas, conferências internacionais e programas de formação de lideranças passaram a constituir espaços importantes de socialização intelectual e construção de redes.

Na obra Os demônios descem do Norte, de Délcio Monteiro de Lima, publicada originalmente em 1987, o autor investiga a expansão de movimentos religiosos de origem estado-unidense na América Latina e sustenta que, para além de sua dimensão propriamente espiritual, determinadas organizações religiosas passaram a operar em um ambiente marcado por interesses econômicos, políticos e geopolíticos. A obra dedica especial atenção à influência norte-americana sobre o protestantismo brasileiro, à utilização do discurso religioso no contexto da Guerra Fria e à aproximação entre determinadas forças religiosas, interesses econômicos e movimentos anticomunistas (LIMA, 1987). Catálogos bibliográficos confirmam que a obra tem como temas centrais a influência americana, religião, política, fundamentalismo e a atuação de organizações religiosas estadunidenses na América Latina. Nessa perspectiva histórica, pode-se formular uma hipótese para a análise contemporânea: se durante a Guerra Fria determinados segmentos religiosos foram incorporados a disputas geopolíticas anticomunistas, o século XXI apresenta novas formas de circulação transnacional de valores, instituições e discursos religiosos, que podem ser examinadas à luz do conceito de guerra híbrida. Não se trata de afirmar que as igrejas norte-americanas ou organizações religiosas atuem necessariamente como instrumentos de uma estratégia estatal dos Estados Unidos, conclusão que exigiria prova documental específica, mas de investigar de que maneira redes religiosas, think tanks, organizações jurídicas e instituições de formação política podem funcionar como vetores não estatais de influência, produzindo convergências ideológicas e culturais entre os Estados Unidos e grupos políticos brasileiros. É nesse ponto que a trajetória histórica descrita por Lima pode ser colocada em diálogo com organizações contemporâneas como o Acton Institute: enquanto Os demônios descem do Norte analisava a expansão religiosa norte-americana no contexto da Guerra Fria, a investigação atual pergunta se determinadas redes cristãs e liberal-conservadoras passaram a constituir, no pós-Guerra Fria, novos canais de circulação de ideias sobre mercado, liberdade, Estado, religião e – principalmente- influencia e poder político. A hipótese, portanto, não é de continuidade automática entre os dois períodos, mas de transformação dos mecanismos de influência, que passaram da disputa anticomunista para formas mais complexas de disputa cultural, jurídica e política num contexto da Doutrina Donroe.

É nesse universo que se encontra o Acton Institute for the Study of Religion and Liberty, organização norte-americana sediada em Grand Rapids, Michigan, fundada em 1990 pelo padre Robert A. Sirico e dedicada à relação entre religião, liberdade econômica e ordem social. O instituto apresenta como uma de suas preocupações centrais a defesa moral da economia de mercado, da liberdade individual, da propriedade privada e da responsabilidade pessoal. Sua atuação, portanto, situa-se em uma zona peculiar: não se trata de um partido político, mas de uma instituição de produção intelectual que procura disputar os fundamentos morais e religiosos da organização econômica e social.

Essa característica torna o Acton especialmente relevante para o estudo das novas direitas. O instituto não apenas recebe economistas ou pesquisadores liberais; seus eventos reúnem religiosos, juristas, políticos, jornalistas e agentes públicos provenientes de diferentes países e tradições religiosas. A própria Acton University é apresentada como espaço destinado à exploração dos fundamentos intelectuais de uma sociedade livre e reúne centenas de participantes internacionais.

A questão que se coloca, portanto, não é simplesmente saber se o Acton “é de direita” ou “é de extrema direita”. A pergunta cientificamente mais adequada é qual posição o Acton ocupa dentro do ecossistema intelectual conservador norte-americano e de que maneira esse ecossistema se conecta com atores políticos e jurídicos estrangeiros.

Essa pergunta ganha especial importância no caso brasileiro porque dois personagens de grande relevância na história recente do direito e da política brasileira aparecem vinculados ao circuito institucional do Acton: Deltan Dallagnol e André Mendonça.

A primeira conexão já foi objeto de investigação da autora em artigo publicado no Instituto Conhecimento Liberta (ICL), intitulado Think tank cristão-liberal conecta a formação de lideranças da direita nos EUA e no Brasil. Naquele estudo, foi analisada a participação de Dallagnol na Acton University de 2019 e sua inserção em uma rede internacional de pensamento político, religioso e econômico. O presente artigo aprofunda aquela investigação, acrescentando a participação de André Mendonça no Poverty Cure Summit de 2020.

O Acton e o campo conservador norte-americano

O posicionamento ideológico da Acton precisa ser compreendido a partir de sua própria produção intelectual. O instituto não esconde sua preocupação com o futuro do conservadorismo americano e, em diferentes publicações, discute abertamente as transformações ocorridas na direita dos Estados Unidos.

Um exemplo particularmente relevante é o artigo publicado pelo Acton em 2023, intitulado Is the New Right Fascist?, de James M. Patterson. O próprio título revela que o instituto participa diretamente do debate sobre a chamada New Right. Patterson descreve a transformação da direita norte-americana a partir da emergência da Alt-Right na década de 2010 e contrapõe o conservadorismo tradicional a correntes que passaram a defender protecionismo econômico, não intervenção externa e utilização mais agressiva do poder estatal.

A descrição feita pelo autor é particularmente significativa porque identifica o conservadorismo tradicional americano a quatro princípios: mercados livres, antitotalitarismo, valores religiosos e governo limitado. Em seguida, o texto sustenta que setores da chamada New Right passaram a defender princípios diferentes, incluindo nacionalismo econômico e maior utilização do poder estatal. O artigo do Acton menciona expressamente figuras associadas à nova direita, entre elas Patrick Deneen, Adrian Vermeule, Gladden Pappin, Oren Cass, Julius Krein, Michael Anton e John Eastman. O texto também discute a aproximação de algumas dessas correntes com ideias nacionalistas, integralistas e antiliberais. Contudo, o próprio Acton estabelece uma ressalva importante: Patterson conclui que a New Right não é, propriamente, fascista, embora considere preocupantes determinadas aproximações intelectuais e políticas.

O artigo afirma que a nova direita compartilha alguns elementos com tradições fascistas, especialmente determinadas concepções de declínio nacional, vitimização e unidade política, mas ressalta que isso não permite transformar automaticamente todos os seus integrantes em fascistas.Essa posição é relevante metodologicamente. Em vez de classificar o Acton de maneira indiscriminada como “extrema direita”, é mais rigoroso situá-lo no ecossistema conservador cristão-liberal norte-americano, com interlocução documentada com setores da direita tradicional e com o debate contemporâneo sobre a New Right. Essa diferenciação permite compreender melhor a importância de sua atuação internacional.

Religião, economia e formação de elites

A peculiaridade do Acton está na combinação de duas dimensões que frequentemente aparecem separadas na literatura política: religião e economia. O instituto sustenta que a defesa do mercado não deve ser apenas econômica, mas moral. A liberdade econômica é apresentada como compatível com uma concepção cristã de dignidade humana, responsabilidade individual, propriedade e subsidiariedade. A pobreza, nesse modelo, não é analisada exclusivamente como resultado de desigualdade estrutural ou de políticas públicas, mas também a partir da capacidade de indivíduos e comunidades de criarem instituições econômicas e sociais autônomas.

O Poverty Cure Summit representa talvez o exemplo mais claro dessa metodologia. O evento reúne especialistas para discutir pobreza e desenvolvimento a partir de uma perspectiva que articula liberdade econômica, sociedade civil e tradição religiosa. É nesse contexto que aparece André Mendonça.

A participação de André Mendonça possui uma característica documental particularmente importante: ela pode ser comprovada diretamente pelo acervo do próprio Acton Institute. O Acton On-Demand mantém uma página dedicada a “Rev. Dr. Andre Mendonca” e disponibiliza a palestra intitulada “How Society Can Partner with the State to Promote Justice”. A palestra está vinculada ao Poverty Cure Summit 2020. O título escolhido pelo Acton é significativo: How Society Can Partner with the State to Promote Justice. A formulação revela uma concepção na qual sociedade e Estado são apresentados como atores distintos que podem cooperar na promoção da justiça, em vez de uma concepção na qual o Estado aparece necessariamente como principal agente de transformação social.

A palestra foi realizada em um momento particularmente relevante da trajetória de Mendonça. Ele ocupava então o cargo de Advogado Geral da Uniao do Brasil do governo Bolsonaro. Assim, a participação não ocorreu simplesmente como atividade acadêmica de um professor ou religioso brasileiro, mas como intervenção de um membro do primeiro escalão do governo brasileiro em um evento internacional promovido por uma organização norte-americana que atua na intersecção entre religião, economia e política. E a palestra não se circunscreveu a pobreza, mas o link dela com a corrupção. Um tema sensível para o alcance das leis extraterritoriais anticorrupção dos próprios EUA. No minuto seis de sua palestra na acton o ministro cita o problema da corrupção e que o combate deve ser irrestrito à mesma. Vamos lembrar o desmonte da indústria nacional pesada de engenharia pela lava jato por discursos parecidos. Quando o combate irrestrito da corrupção (sem o respeito as garantias e liberdades que a Lava a jato operou,  atrasou o Brasil em décadas.

Esse dado merece atenção porque o Acton não funciona apenas como um fórum de conferências acadêmicas. O próprio instituto descreve suas iniciativas como instrumentos de formação internacional. Em 2019, por exemplo, o Acton informou que sua universidade reunia mais de mil participantes provenientes de dezenas de países e oferecia mais de 110 cursos ministrados por especialistas.

A participação de Mendonça deve, portanto, ser compreendida dentro desse ambiente de circulação internacional de ideias de direita e de direita intervencionista transnacional. Aqui lembramos que a Acton tem como sua maior financiadora a Atlas Network.

Atlas Network, MBL e a disputa hegemônica no Brasil na guerra hibrida dos EUA

A investigação torna-se ainda mais ampla quando se considera a relação histórica entre Acton Institute e Atlas Network. Alejandro A. Chafuen, atualmente Distinguished Executive Fellow do Acton Institute, foi presidente e CEO da Atlas Network entre 1991 e 2018. O próprio Acton registra essa trajetória. Mais importante: o Acton informou, quando Chafuen ingressou formalmente na organização, que ele havia sido um dos membros fundadores do conselho e um dos primeiros apoiadores do instituto desde sua criação. Portanto, a conexão não se limita à existência de organizações ideologicamente próximas. Existe uma ponte humana e institucional concreta: Atlas Network → Alejandro Chafuen → Acton Institute. O próprio Acton informa ainda que Chafuen atuou durante décadas na promoção internacional de think tanks de livre mercado e que passou posteriormente a conduzir a expansão internacional do Acton.

Essa informação é relevante para compreender o caráter transnacional da rede.

A Atlas Network, criada em 1981 por Antony Fisher, constitui uma rede internacional de think tanks voltados à promoção de ideias associadas ao livre mercado, à propriedade privada, à liberdade individual, ao empreendedorismo e à limitação do poder estatal. A literatura produzida pela professora Camila Feix Vidal, em colaboração com Jahde Lopez e Luan Brum, oferece uma das análises acadêmicas mais sistemáticas sobre a presença dessa rede no Brasil. Em pesquisa sobre o Fórum da Liberdade, Vidal, Lopez e Brum demonstram que o evento, organizado pelo Instituto de Estudos Empresariais, parceiro da Atlas Network, funcionou como espaço de circulação de ideias neoliberais e de aproximação entre empresários, políticos e organizações vinculadas à rede transnacional. Os autores concluem que o Fórum contribuiu para a construção de plataformas políticas e para a difusão de uma agenda neoliberal de matriz norte-americana, inclusive por meio da presença de representantes estrangeiros e do apoio financeiro de empresários (VIDAL; LOPEZ; BRUM, 2020).

Em pesquisa posterior, Vidal e Lopez aprofundaram a investigação sobre a Atlas e seus institutos parceiros no Brasil, descrevendo a organização como uma espécie de “organização guarda-chuva” destinada a orientar e facilitar a criação e manutenção de institutos neoliberais parceiros em diferentes países. A pesquisa examinou dados financeiros da Atlas, seus repasses internacionais, a rede de institutos brasileiros e a trajetória de seus dirigentes, identificando conexões entre organizações parceiras e integrantes do governo Jair Bolsonaro (VIDAL; LOPEZ, 2022). Particularmente relevante para a análise do processo político brasileiro é a afirmação, registrada no estudo, de que a crise política de 2016 criou uma oportunidade para atores já treinados e inseridos nessa rede pressionarem por determinadas políticas.

O trabalho cita declaração atribuída a Alejandro Chafuen, então presidente da Atlas, segundo a qual “surgiu uma abertura – uma crise – e uma demanda por mudanças, e nós tínhamos pessoas treinadas para pressionar por certas políticas” (CHAFUEN apud VIDAL; LOPEZ, 2022, p. 28). No mesmo campo de investigação, estudos derivados dessa agenda acadêmica identificam o Movimento Brasil Livre (MBL) como parceiro da Atlas Network e discutem sua atuação no processo de mobilização que culminou no impeachment de Dilma Rousseff em 2016. A relevância dessa constatação não está em estabelecer, sem documentação adicional, que a Atlas tenha simplesmente “financiado o golpe de 2016”, mas em demonstrar empiricamente a existência de relações transnacionais entre organizações de pensamento econômico, formação de lideranças, financiamento institucional, circulação de ideias e mobilização política.

A própria pesquisa de Vidal e Lopez busca compreender a Atlas como instrumento de manutenção de uma determinada forma de hegemonia intelectual e de institucionalização do projeto neoliberal no Brasil (VIDAL; LOPEZ, 2022). Essa abordagem permite recolocar o impeachment de 2016 em uma perspectiva mais ampla: além da disputa parlamentar e das mobilizações sociais internas, é possível investigar a existência de uma infraestrutura internacional de produção e difusão de ideias que contribuiu para formar atores, linguagens políticas e propostas econômicas posteriormente incorporadas ao debate público brasileiro.

Nesse sentido, o MBL, os institutos liberais brasileiros, a Atlas Network e organizações internacionais correlatas podem ser estudados não como elementos isolados, mas como nós de uma rede transnacional de disputa pela hegemonia no campo das ideias e das políticas públicas. Tal perspectiva é particularmente relevante quando colocada em diálogo com a atuação do Acton Institute, pois permite investigar uma possível convergência entre redes de liberdade econômica, organizações religiosas e conservadoras e formação de lideranças políticas e jurídicas brasileiras.

É nessa infraestrutura intelectual que se deve analisar a presença de brasileiros como Dallagnol e Mendonça.

Mendonça como agente da Guerra Hibrida?

Do ponto de vista científico, talvez seja mais adequado falar em rede transnacional de circulação intelectual do que em uma estrutura centralizada. Think tanks não precisam compartilhar integralmente todas as posições políticas para estabelecer relações de cooperação. Pessoas podem participar de eventos, receber prêmios, ministrar cursos ou publicar artigos sem aderir integralmente à agenda de uma organização. Por isso, a presença de Mendonça no Acton não permite concluir automaticamente que ele seja integrante da extrema direita americana, tampouco que tenha aderido a todas as posições da chamada New Right.

O que pode ser demonstrado é diferente e mais interessante: um ministro da Justiça do Brasil participou de uma conferência internacional organizada por uma instituição situada no campo conservador cristão-liberal americano; anteriormente, um procurador que se tornaria posteriormente liderança política da direita brasileira havia sido escolhido pelo mesmo instituto como palestrante principal de sua universidade internacional.

A coincidência institucional torna-se especialmente relevante quando considerada conjuntamente com a ponte Acton–Atlas e com os demais atores brasileiros que circularam por esse ambiente. E com redes hoje diante da quebra de institucionalidade e graves ilegalidades que relatórios apócrifos da Policia federal imputam a Mendonca na condução dos dois maiores casos de repercussão de corrupção na sociedade brasileira: Master e INSS.

A Policia Federal por meio de relatórios de inteligência que vazaram (porque tudo vaza em um ambiente de instituições conflagradas) coloca que Mendonça coloca em risco provas de ambas as operações, faz uma atuação suspeita de parcialidade e também perseguição de agentes e ainda age como juiz que conduz integralmente a produção de provas e delações, quebrando o principio acusatório, base do estado de direito processual.

Considerações finais

A análise documental realizada permite formular uma hipótese científica mais precisa sobre o papel do Acton Institute.

O instituto não deve ser simplesmente reduzido à categoria de organização de extrema direita. Sua própria produção intelectual distingue o conservadorismo tradicional da New Right e discute criticamente a possibilidade de aproximações desta última com o fascismo.

Entretanto, o Acton ocupa inequivocamente um espaço importante do ecossistema conservador cristão-liberal norte-americano e brasileiro e esta interface sem qualquer filtro de soberania é assustador para a saúde das instituições brasileiras. Não podemos ter a normalização de que políticos e ministros de nossa República sejam doutrinados numa atuação que combina religião, liberdade econômica, propriedade, responsabilidade individual, sociedade civil e crítica à expansão do poder estatal, principalmente quando o Brasil é o alvo de Donald Trump Jr.

Nesse contexto, a participação de Deltan Dallagnol em 2019 e de André Mendonça em 2020 assume significado que ultrapassa a mera participação episódica em conferências estrangeiras. Ela revela o filme do golpismo que se infiltra nas instituição e quebra a cadeia constitucional que deve reger todo agente público. É nessa perspectiva que a participação de André Mendonça no Acton adquire relevância para o estudo do Supremo Tribunal Federal e da formação das elites jurídicas brasileiras. O fato documental não determina a posição política de Mendonça, mas constitui elemento objetivo para compreender os ambientes intelectuais e institucionais nos quais determinadas lideranças brasileiras circularam antes e durante sua ascensão aos mais altos cargos do Estado.

Principalmente quando Mendonça esta semana se torna o autor do maior ataque institucional ao Supremo Tribunal Federal ao olvidar as regras da Constituição de jurou cumprir fielmente. E conforme o vídeo que ele mesmo veiculou na sequência, fez tudo isso em nome de Deus.

 

Referências

ACTON INSTITUTE. 2019 Acton University plenary speakers announced. Acton Notes, 2019. Disponível em: https://www.acton.org/acton-notes/volume-29-number-2/2019-acton-university-plenary-speakers-announced. Acesso em: 5 set. 2026.

ACTON INSTITUTE. Evenings at Acton University 2019. Grand Rapids, 2019. Disponível em: https://www.acton.org/event/2019/05/09/evenings-acton-university-2019. Acesso em: 5 set. 2026.

ACTON INSTITUTE. How Society Can Partner with the State to Promote Justice. Acton On-Demand. Disponível em: https://ondemand.acton.org/how-society-can-partner-with-the-state-to-promote-justice/. Acesso em: 5 set. 2026.

ACTON INSTITUTE. Is the New Right Fascist? Religion & Liberty, 7 ago. 2023. Disponível em: https://www.acton.org/religion-liberty/volume-33-number-3/new-right-fascist. Acesso em: 5 set. 2026.

ACTON INSTITUTE. Alex Chafuen joins Acton Institute to lead international outreach. 6 dez. 2017. Disponível em: https://www.acton.org/press/release/2017/alex-chafuen-joins-acton-institute-lead-international-outreach-0. Acesso em: 5 set. 2026.

ACTON INSTITUTE. Alejandro A. Chafuen, Ph.D. Disponível em: https://www.acton.org/about/staff/alejandro-chafuen. Acesso em: 5 set. 2026.

BAUER, Luciana. Think tank cristão-liberal conecta formação de lideranças da direita nos EUA e no Brasil. Instituto Conhecimento Liberta — ICL Notícias, 20 ago. 2026. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/think-tank-cristao-liberal-conecta-formacao-de-liderancas-da-direita-nos-eua-e-no-brasil/. Acesso em: 5 set. 2026.

LOPES JR., Aury. Direito processual penal. São Paulo: SaraivaJur, 2024.

LIMA, Délcio Monteiro de. Os demônios descem do Norte. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1987.

 

*Luciana Bauer é jurista, pesquisadora e escritora. Doutora em Ciência Jurídica pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali), em dupla titulação com a Widener University Delaware Law School (EUA), e pós-doutora em Direito pela Univali, em dupla titulação com a Pace University (EUA). É mestre em Ciência Jurídica pela Univali e LL.M. pela Widener University, além de graduada em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atuou por mais de duas décadas como juíza federal no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4). Dedica-se atualmente à pesquisa em Direito Constitucional, Direitos Humanos, democracia, Direito Climático, justiça climática e direitos intergeracionais. É autora de A Democracia Indiferente, A Norma Climática e Brazil and Climate Justice, fundadora do coletivo JusClima e sócia fundadora da Agnelli&Bauer.

*Gisele Agnelli é cientista política, socióloga, escritora e analista de assuntos públicos, formada pela PUC-SP, com pós-graduação pela ESPM e certificação profissional pela UC Berkeley. Com mais de 13 anos de experiência em pesquisa de mercado e estratégia, dedica-se à análise política comparada entre Brasil e Estados Unidos, com foco em democracia, relações institucionais e ambiente de negócios. É fundadora do movimento #VoteNelas, autora de Autocracia Made in USA, sócia fundadora da Agnelli&Bauer.

*Pedro da Costa Junior é cientista político, pesquisador e analista de relações internacionais. É doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP), com trajetória dedicada ao estudo da geopolítica, das relações internacionais, das transformações do sistema internacional e das disputas contemporâneas de poder. É autor de O poder americano no sistema mundial moderno: colapso ou mito do colapso? e desenvolve pesquisas sobre ordem internacional, BRICS, soberania e os impactos das transformações geopolíticas sobre o Brasil.

terça-feira, 21 de abril de 2026

MILAGRES NÃO SALVAM

 



É surpreendente nos depararmos com algo improvável, que foge às explicações físicas. Mais surpreendente ainda é quando esse algo nos afeta diretamente, muda nossa vida, nossa rotina, nossas expectativas. Há, nesse tipo de acontecimento, uma espécie de ruptura do curso ordinário das coisas, como se o mundo, por um instante, cedesse àquilo que não pode ser previsto nem controlado. E, no entanto, mesmo esse rompimento não garante transformação; ele apenas interrompe — não refaz.

Os evangelhos dizem-nos dessa improbabilidade: os milagres de Jesus... Mas, curiosamente, também nos apontam algo inquietante: milagres não operam milagre. O fato extraordinário não gera, por si só, uma reconfiguração interior, ele se impõe aos sentidos, mas não necessariamente alcança a vontade.

Por muito tempo, agi como uma pessoa que acreditava na humanidade. Era, sim, um humanista, acreditava no valor intrínseco do ser humano, na sua busca pela razão, no belo ou na beleza advindas da poesia, da literatura, das artes e, sobretudo, defendia a autonomia e o potencial de autorrealização do indivíduo que, ao meu sentir, o fim último dessa autorrealização seria a descoberta do bem ou a transformação do egoísmo em um ideal maior, coletivo, sublime. Havia, nessa visão, uma confiança silenciosa de que o homem, ao tomar consciência de si, se inclinaria naturalmente ao bem.

Em outras palavras, acreditava ser o homem fruto de seu meio e capaz de influenciá-lo, através de uma postura de vida que valoriza a dignidade, racionalidade e capacidade, modificá-lo. O mal, nesse horizonte, era sempre explicado — nunca assumido como raiz. Era circunstância, nunca estrutura. Era desvio, nunca inclinação.

Era jovenzinho quando me vi frente a essas questões, nunca julguei as ações humanas fora do contexto em que foram empregadas. A pobreza, a solidão, o isolamento, a incapacidade de muitos em agir em favor do belo, da música, da comunhão, da coletividade eram vistas, por mim, como fruto do empobrecimento da alma, e o remédio não se daria fora da cultura, da educação, das políticas públicas, enfim, a humanidade sempre operando humanidade. Havia um otimismo metodológico: se corrigirmos as condições, corrigimos o homem. Se ampliarmos horizontes, ampliamos a ética.

Cheguei, à época, a escrever um ensaio sobre a trindade e a dança eterna do Deus triuno, nele sustentava abertamente que, para dançar (com Deus), você teria de sair de si mesmo e mergulhar no ritmo... daí faria parte da harmonia, mas havia aí um pressuposto não examinado: o de que o homem quer, de fato, sair de si. O de que ele deseja, espontaneamente, abandonar o centro que constrói para si mesmo.

Então, um dia, não tão distante desses dias atuais, descobri literalmente que milagres não salvam, o belo não transforma e a razão, por mais cheia de verdades, ela é conduzida a formas de individualidades inúmeras, transformando-a, em último, em um conceito meramente narrativo e pessoal do que seja, enfim, a verdade última. A verdade, quando passa pelo crivo do ego, deixa de ser verdade para tornar-se versão. E versões não salvam — apenas justificam. Isso não são apenas palavras, mas a constatação de que o ser humano é mau. Não apenas nas suas ações visíveis, mas na sua estrutura de vontade, na inclinação silenciosa que o conduz sempre de volta a si mesmo, mesmo quando fala em coletivo, mesmo quando invoca o bem.

Senão, vejamos: nas Escrituras há a passagem de Lucas 17, 11-19. Ela narra a história de dez leprosos que foram milagrosamente curados. Eu pergunto: “há algo mais belo do que isso?”. Dez corpos restaurados, dez destinos reescritos, dez histórias arrancadas da exclusão. Pois é, dos dez apenas um voltou em gratidão e agradeceu. A ele foi dito: “Levanta-te e vai; a tua fé te salvou”. Aqui há uma distinção brutal: todos foram alcançados pelo milagre, mas apenas um foi atravessado por ele. Os outros nove receberam o efeito, mas não acolheram o sentido. Foram beneficiados, mas não convertidos. A cura resolveu a condição deles — não a direção deles.

E a crítica que Jesus estabelece, logo após multiplicar pães e peixes à multidão faminta: "Vocês me procuram, não porque viram os sinais, mas porque comeram os pães e ficaram satisfeitos". O milagre foi reduzido a consumo. O sinal foi esvaziado de significado e reinterpretado como benefício imediato. Eles receberam o milagre da provisão, mas não compreenderam o significado espiritual. Muitos dos que comeram aquele pão o abandonaram logo depois, quando o discurso se tornou doutrinariamente exigente (João 6, 66). Permanecer enquanto há benefício é fácil; permanecer quando há exigência revela outra coisa: revela o limite da disposição humana para o que ultrapassa o próprio interesse.

Milagres não operam milagre. O problema nunca foi a ausência do extraordinário, mas a incapacidade de responder a ele. Se olharmos para o cenário cotidiano, veremos que o Brasil está fora do mapa da fome, supermercados lotados, pessoas comprando, três refeições diárias, o estudo e a oferta de cursos nunca foram tão intensos quanto são hoje... ainda assim há pessoas que amam Bolsonaro e votarão em seu filho como símbolo do desprezo a Lula. Não se trata de carência material, nem de falta de acesso, nem de ausência de informação. Trata-se de escolha e ela revela inclinação. A humanidade é má, o egoísmo das ações fala, grita, urra em detrimento da harmonia. Não levam em conta a morte que recaiu sobre nós, brasileiros, por falta de vacina — pelos caprichos de Jair Messias Bolsonaro. Um ser demente de bondade, decrépito de virtude, e, ainda assim, capaz de atrair milhões como ele. Pessoas que dizem ter fé, mas flertam o tempo todo com o torpor da morte, no qual jazem suas almas e esperanças.

Barrabás, de novo, é escolhido em detrimento de Jesus... o povo ama a morte. Não a morte como tragédia — como escolha, como identidade. Bolsonaro, Trump e tantos outros maus elementos vestem o manto da santidade, enquanto Cristo sangra na cruz. Seus milagres nada representam; a imagem do circo substitui o anúncio, substitui a convocação — “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt 11,28).

Preferem o charlatão... aquele que, sordidamente, retardou a compra da vacina Covaxin e disseminou curas sem eficácia comprovada — cloroquina... não são erros administrativos, não... são escolhas que priorizam a narrativa pessoal em detrimento da vida alheia. O incentivo à imunidade de rebanho por contágio, o descumprimento ostensivo de medidas preventivas — máscaras, por exemplo — tudo isso não aponta para ignorância... aponta para desprezo que, diferentemente do erro, não pede correção — pede audiência. Encontrou-a.

A indiferença pela dignidade humana em sua forma mais básica: a sobrevivência. Sem um único pingo de remorso, de dor, de empatia. Enquanto o milagre insiste em provar que a vida tem valor absoluto, ainda assim ele não salva quem se recusa a ser atravessado pelo seu sentido.

E é aí que a tragédia se revela inteira: diante do milagre da vida e da possibilidade de comunhão, muitos preferem o charlatão. Bolsonaro se faz senhor — não porque usurpou um trono, mas porque o trono estava vazio por dentro. O íntimo de cada um que o escolheu já havia decidido antes de qualquer discurso, antes de qualquer mentira. A mentira apenas confirmou o que a vontade já queria.

Jesus pode ter operado um milagre na sua vida infeliz e, ainda assim, você não está salvo. Porque o milagre toca o que está fora, mas a salvação exige ruptura no que está dentro. E o dentro resiste com argumentos, com afetos, com narrativas, com justificativas sofisticadas. Agostinho compreendeu isso antes de todos nós: a vontade humana não é movida pela verdade que convence, mas pela sedução que vence. Não escolhemos o bem porque o conhecemos; escolhemos aquilo que nos seduz mais. E, quando a sedução de si mesmo supera a de Deus, nenhum milagre chega ao interior — porque o interior já está ocupado. Ocupado… e saciado de si. A salvação só acontece quando o egoísmo humano é superado — e ele não se entrega facilmente, não cede ao espetáculo, não se rende ao benefício. Sem essa ruptura, não há conversão. Sem conversão, não há comunhão. Sem comunhão, não há dança.

 

sábado, 20 de julho de 2024

POR QUE AINDA NÃO PRENDERAM BOLSONARO?




Jair Messias Bolsonaro não é o Lula, não se assemelha a ele em nada nem mesmo quando o tema se volta para a privação de liberdade, assim vemos diferenças gritantes no comportamento social em relação a essas duas personagens, em que um (Lula) é levado ao cárcere com seus direitos solapados pelo cinismo de uma elite cáustica e o outro (Bolsonaro), por mais provas que se tenha dos crimes cometidos, tem-se um respeitar canônico, santo, imaculado ao processo e seus ditames.

Quando se fala em prisão, questões do direito penal, como a presunção de inocência, vêm à tona em nossa mente. Isso é assim e deve ser assim, pois, de fato, em uma sociedade democrática é o que se aprende por premissa desde tenra idade.

A presunção da inocência é um fundamento do Direito, esse princípio, inclusive, é consagrado na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, no seu artigo 5º, inciso LVII em que diz: “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. Vindo da Revolução Francesa, 1789, tomando corpo, voz e assento na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.

Foi um princípio revolucionário, inovador que visava combater os desmandos oriundos dos Estados Absolutistas e sua interpretação divina de soberania e poder, em que a vontade do rei era a vontade do próprio Deus, sendo alguém condenado respondia a essa vontade totalitária. Para o homem burguês sujeitar-se aos caprichos de uma nobreza sem capital era, além de humilhante, uma questão de humanidade. Buscou-se com esse princípio limitar os poderes de um Estado tirano, dando a oportunidade daquele que é acusado lutar por sua inocência até prová-la. Não provando, garantiria que os meios acusatórios não se limitassem à vontade de um monarca ou de seus representantes, mas recaíssem em dados objetivos (provas) até o ato final de um processo.

Uma questão, entretanto, surge naquilo em que se demonstra fundamental: para quem é o Direito? Ou melhor: a quem serve o Direito?

Vive-se em uma sociedade capitalista e burguesa, o Direito estabelecido nesta sociedade é do burguês- feito para os donos do capital, servindo a eles-, por isso há nas prisões pessoas que não passaram pelo devido processo legal, existem, neste momento, pessoas que estão presas sem o trânsito em julgado- a formação da culpabilidade-, pela cor da pele ou pela condição social, em grande maioria dos casos, pela somatória das duas condições. 

A sociedade não é justa, o Direito não faz justiça a não ser que o sujeito de direito tenha dinheiro e seja preferencialmente branco. Os dizeres de uma sociedade ideal não a faz ideal nem tampouco os dizeres de justiça tornam-na mais justa. Assim é comum nos depararmos com homens brancos e ricos que cometem crimes e têm o direito de esperar a prisão em liberdade até o trânsito em julgado das ações que correm contra eles, mas a mesma “sorte” não acompanha o homem preto, pobre, vindo das periferias que deverá encarar o ódio social daqueles que clamam por “justiça”.

Desta feita, tem-se o exemplo do presidente Lula, que ao responder ao processo da Lava a Jato, foi preso antes do trânsito em julgado de sua ação, à época, o STF até discutiu a possibilidade da alteração da interpretação da lei, alterando da terceira instância para a segunda o início da prisão, mesmo ainda cabendo recursos que poderiam trazer liberdade aos condenados. Tudo isso aconteceu por um fato: Lula não é recebido pelas elites, elas não o enxergam como um dos seus pares. Nordestino, retirante, metalúrgico… pobre! Aquele que recebeu o seu primeiro diploma quando se tornou presidente da república. Nunca foi bem-visto e, na primeira oportunidade, criminalizaram-no por algo que nunca provaram que o alegado, de fato, tinha ocorrido. Lula foi levado ao cárcere sem um processo legal transitado em julgado por ter sido sentenciado como pobre, nordestino e analfabeto, refletindo, portanto, o que é o Direito e para quem é o Direito.

Bolsonaro é caso diverso, goste ou não, ele tem curso superior em Educação Física e foi abraçado, até certo ponto, pela elite brasileira que achou puerilmente de controlá-lo. Ledo engano! Contudo, ele consegue transitar livre dos preconceitos brasileiros por ser rico e branco. Desta feita, o Direito é para ele e, quando enojados nos deparamos com a sordidez de suas ações, esbarramos no devido processo legal, na presunção de inocência, na paridade de armas e em todos os fundamentos do processo penal que é negado a milhões de cidadãos. Infelizmente, bandido tem cor, tem classe social e, pasmem, tem nome! Além do mais tem que morrer…

Assim sendo, Bolsonaro será preso, mas não por ter disseminado o não uso de máscaras na pandemia e ajudado inflar o número de vítimas pelo vírus letal, não será preso pelos casos sistemáticos de corrupção em seu governo (ainda que investigado por isso, pode-se até ser a desculpa pelo cárcere vindouro).

Sim, será preso pelos inimigos que fez na elite; pela afronta que seu governo representou aos seus pares; pela sede de poder cega e absoluta que, inclusive, visava à morte ou à prisão de seus antagonistas. O dissabor de sua truculência tem um caminho final que ele traçou, imperdoável, sem anistia, mas com as reverências do respeito ao Direito e à democracia, não será preso como um qualquer, será respeitado o devido processo legal, o trânsito em julgado e as benesses do Direito burguês para a burguesia serão dadas a ele. 


segunda-feira, 24 de junho de 2024

Mateus 25. 31-46 A MENSAGEM!



 

Há uma passagem no Evangelho de Mateus que muito me intriga, na verdade, impacta-me. Nela não há nada de especial, de sacrificial ou de ações que estejam além daquilo que me é capacitado.  Entretanto, por ser extremamente singela, é extremamente difícil, principalmente, se interpretada literalmente.

Ela é a síntese de toda a missão de Jesus, da sua proposta de Reino, de vida e por que não pensar a causa de sua morte? Afinal, tudo que ele fez está ali resumido em poucas palavras, mas de forma radical, terminante, sentencial.

O texto começa falando de glória, a glória que é dele e de mais ninguém. Fala também do que ele irá fazer, de como ele separará as ovelhas dos bodes, uma metáfora que ilustra aqueles que o serviram daqueles que estavam presentes, mas que ele simplesmente não conheceu. Aqui reside a dificuldade, quando ele disse de amar o próximo como a ti mesmo, ele não estava brincando. A mensagem de Jesus é de empatia que se traduz em ação. Não basta palavras, não adianta confessar, não há razões para dizer se não houver ação.

Hoje vejo os cristãos lutando por poder, por domínio, por prosperidade. Gritos histéricos vociferam dos púlpitos uma imagem que não pertence a Deus, uma mensagem falsa, que conduz a riqueza aos interesses centrais da vida. Ambição, ganância, luxo e poder, mas será que isso importa para Deus?

Voltando à mensagem, ele diz ao povo que esteve com fome, com sede, com frio, sem roupa, preso... e não importa qual fora a necessidade, nela ele havia sido suprido. E aos que supriram, os que a ele deram de comer, beber, aqueceram-no, vestiram-no, visitaram-no quando, no memento de mais angústia, preso, ele precisou de consolo, esses fizeram sua vontade.

A mensagem é simples, mas é fatal! Quantas vezes ignoramos um pedinte na porta de um supermercado, quantas vezes nos irritamos, porque estão ali pedindo, quantas vezes ignoramos a miséria alheia e agradecemos a Deus por não sermos nós. Tive fome, tive sede, estava com frio, nu, preso... O que importa?

Como é sedutora a imagem de um Deus triunfante, que conduz seu povo à vitória, vindo vencendo para vencer. Mas esta não é a imagem da cruz, não é sua mensagem. Se eu não me compadeço com o mais pobre que eu, mesmo tendo pouco, se eu não faço por ele aquilo que eu queria que fizessem por mim, como pedir a Deus que me dê o pão? Que supra as minhas necessidades se minhas ações são contrárias às suas palavras? “O pão nosso de cada dia nos dai hoje” ... “Porque eu tive fome e me deste de comer...”

Igrejas criam “áreas vips” para pessoas abastadas que não querem contato com outros que não sejam de sua casta. Pastores inflamam discursos políticos como se isso fosse o Reino de Deus, exploram à mídia  suas ações nefastas, enquanto a ostentação cresce o amor se esvai. A mensagem do evangelho se resume em fazer aos necessitados aquilo que eu queria que fosse feito por mim se estivesse necessitado e isso é radical, essa é a sentença que separará, no fim, os que serviram a Deus e ele os conheceu daqueles que estavam no meio, mas que nunca foram conhecidos.

“- Senhor, quando te vimos com fome ou com sede, ou estrangeiro, ou necessitado de roupas, ou enfermo, ou preso e não te ajudamos?

- Quando a um desses meus pequeninos deixaram de fazer, também a mim deixaram de fazê-lo”.

 

 


domingo, 28 de agosto de 2022

FÉ DEMAIS NÃO CHEIRA BEM: OS CAMINHOS DA DITADURA E DO BOLSONARISMO


Chocante! Eu sei... pode parecer absurdo, pode parecer a ideia de um ateu sobre religião, pode parecer uma imagem fantástica, que ninguém em sã consciência teria a audácia de relacionar, mas não é! A Bíblia evangélica, a fé protestante, muitas vezes, ao longo da história da humanidade, é usada como forma de opressão, de perseguição, de maldade àqueles que não se curvam aos ideais de seus líderes.

Ao lermos a história recente do Brasil, vemos essa imagem nítida nos relatos do teólogo Leonildo Silveira Campos que ao lembrar de seu torturador, o pastor batista Roberto Pontuschka, conta que o pastor os torturava de noite e os evangelizava de dia, entregava-os o Novo Testamento e quando questionado, seu comportamento, por um dos encarcerados, se não tinha vergonha de torturar e tentar evangelizar. Como resposta, o ministro batista afirmou, apontando para uma pistola debaixo do paletó: “Para os que desejam se converter, eu tenho a palavra de Deus. Para quem não quiser, há outras alternativas”  (Fonte: Isto E Independente).

Não à toa Max Weber (1864-1920) escreveu sua obra: A ética protestante e o espírito do capitalismo- em que ao analisar o contexto do século XVI-, descreve como a igreja protestante está diretamente vinculada ao desenvolvido do sistema econômico capitalista como dever moral. O que eu quero afirmar com isso é que: a religião protestante nasce como símbolo da troca de poder que sai das mãos do Papa e passa para as mãos dos príncipes, burguesia e das regiões por eles comandadas.

Não há graça, não há salvação, não há misericórdia, sem que se chegue ao poder. O discurso de conversão dos pecados é o discurso do “encha a minha igreja para que tenhamos poder”. O poder é o axioma que move a fé, é a única coisa que, no fundo, realmente importa. Sem embargo, os líderes religiosos desfrutam de casas luxuosas, carros luxuosos, telefones celulares luxuosos, enquanto os irmãos são convencidos de que é a vontade de Deus, porque tal prosperidade financeira traz poder: é status, dá visibilidade, dá voz.

Destarte, não se é de estranhar o alinhamento dos evangélicos com as ideologias de Bolsonaro. Bolsonaro e os evangélicos são a mesma pessoa ou, para melhor dizer, o mesmo ideal. Bolsonaro dá voz ao desejo de poder dos evangélicos, mesmo que isso os leve a idolatrar as armas, mesmo que isso os leve a adorar o diabo, desde que seja camuflado, tudo estará no seu devido lugar.

Assim, as pregações sobre amor, sobre perdão, sobre união, sobre salvação são secundárias ao projeto de poder e a ele os servem, afinal, no fim, o que importa é demonstrar a força que a igreja tem e os seus líderes disso se beneficiam. 


quarta-feira, 24 de agosto de 2022

HIV+ NÃO É O FIM




Estava na sala de aula, quando Jamil entrou. Seus olhos estavam marejados, como quem havia chorado muito, pálido, uma tristeza profunda vinha do seu ser e era algo quase palpável. Olhei para aquele rapaz, 25 anos, loirinho, pela macia e sedosa, 1,77m de altura, olhos azuis que mesclavam com o vermelho das lágrimas. Eram 18h33 minutos de uma terça-feira do mês de maio...

Ontem, dia 23 de agosto de 2022, concidentemente, terça-feira, estava eu na sala de aula, quando Tyler entrou. Chorava copiosamente e dizia que sua vida tinha acabado. Ele, um rapaz de 22 anos, negro, pele macia e sedosa, 180m de altura, olhos negros que mesclavam com o vermelho das lagrimas. Eram 09h da manhã...

O que esses dois fatos narrados têm em comum? Os dois rapazes em questão foram diagnosticados com o HIV+, os dois rapazes em questão perderam o chão debaixo dos pés, os dois rapazes procuraram seu professor como uma luz no fim do túnel pela vergonha, pelo desprezo, pela culpa, pelo PRECONCEITO.

Há muito dou aulas e trabalho com inúmeras pessoas durante o ano. São diversas pessoas, de diversos lugares diferentes, culturas e condição social diversas, mas o que choca é que ser HIV+ ainda, pasmem! É sinal de um estigma cruel imposto pela sociedade que nunca se educa, que nunca aprende, que nunca se esforça e apenas segue o baile como uma canoa desgovernada na correnteza.
Tyler

Aqueles rapazes choraram suas mágoas, expressaram suas revoltas, seus medos, incertezas, inseguranças. Tyler chegou dizer que envelheceria 15 anos em sua idade, enquanto eu via um rapazote de 22 anos, belíssimo, malhado, pronto para ter o mundo aos seus pés, mas que se convenceu, por ter lido não sei em que lugar, que pessoas com HIV+ são 15 anos mais velhas em suas biologias do que sua idade temporal. Eu sinceramente não sei de onde vem esses conceitos, mas sei o estrago que eles fazem em pessoas fragilizadas. Na ocasião, eu intervim dizendo que ele me parecia ter 22 anos e não 37 anos, que a expectativa de vida dele era exatamente a mesma do que os outros rapazes da turma dele! Foi quando ele sorriu...
Jamil

O Jamil dizia que todos os seus sonhos tinham ido para o lixo com o diagnóstico, que ele jamais chegaria a envelhecer e que só trouxe tristezas para sua família. Eu intervim, disse que sonhos geralmente costumam ir para o lixo quando não lutamos para concretizá-los, que ele não envelheceria caso morresse: atropelado (Deus o livre), baleado (Deus o livre), envenenado (Deus o livre), mas por ter tido um diagnóstico positivo para HIV não o mataria e sim traria qualidade de vida para ele, que pode viver normalmente como qualquer pessoa. Tristezas para a família, perguntei se ele era traficante ou assassino, ele me olhou curioso, deu um sorriso amarelo, disse não ser, então afirmei que tristezas todos temos, é normal, inclusive, mas que se a família sentisse tristeza, no sentido de desonra, ela precisaria de rever os conceitos, fazer terapia e parar de frequentar a igreja evangélica. 
Diogo

Em 2003, um grande amigo meu, Diogo, veio com o choro parecido, tinha sido diagnosticado com o HIV+, na ocasião, ele que se formara em jornalismo, dizia que não chegaria a velhice e que esteva condenado. Intervim, disse que não chegaria se ele não quisesse, mas que teria uma vida normal. Bem, 19 anos depois, ele está bem, namorando e desenvolvendo inúmeros projetos pessoais.
A vida normal

O importante saber é que: ser diagnosticado com HIV+ não é o fim, não é o começo (aliás, começo só do tratamento), não é nada, não vai modificar em nada a sua vida. Então tirando o impacto inicial, você vai tomar o remédio (que não vai curá-lo, mas também não vai deixar você morrer e nem transmitir), que irá te proporcionar uma vida saudável e duradoura até seus 120 anos (queira Deus!). No mais, as pessoas falam dos efeitos colaterais e eu pergunto: você já leu a bula do paracetamol? Você já viu os efeitos colaterais daquilo? Quantos deles você teve? Pois é, efeito colateral não é que você terá ao tomar, é que você pode ter, não é regra, é exceção.

Infelizmente, vivemos em meio a preconceitos, em que ser normal é ser perfeito e quem não é está excluído. Não é à toa que a humanidade nunca deixou de guerrear, ter mendigos, pessoa com depressão, suicidas e mazelas em geral. Os valores nobres da humanidade fazem o inferno aplaudir. 

Se você é HIV+, viva a vida normalmente, pois não há nada de errado com você. Errado é a hipocrisia social, o resto é vida!

domingo, 28 de março de 2021

TODA INQUISIÇÃO É BURRA




Senhor, eu clamo por vós, socorrei-me; 

quando eu grito, escutai minha voz!

Minha oração suba a vós como incenso, 

e minhas mãos, como oferta da tarde!

(Sl 140, 1-2).


Já escutamos falar de pessoas tóxicas, vez ou outra nos deparamos com situações que nos fazem mal, que nos entristecem, que nos prejudicam ou nos abalam de alguma forma. Reagir às situações de injustiça é bom, faz bem e não deixa de ser um dever. Entretanto, nem sempre aquilo que pensamos ser justo, na verdade, é. Nem sempre a causa que resolvemos militar, ainda que pareça correta, é justa. 

Essa lição, dia 27 de março, foi aprendida por uma pessoa muito especial e, lamentavelmente, de forma mesquinha, inclusive, de modo contrário ao aprendizado, na vulgaridade, na pobreza de espírito, no “intuito lacrativo”, disseminada com rancor e preconceito em nome da justiça ou de se fazer justiça, foi esquecida por alguns setores da esquerda brasileira. 

Toda a inquisição é burra, porque nela não há o caminho do meio, ela não aceita o arrependimento, aliás, debocha dele como fraqueza e com desdém. A esquerda militadora conseguiu dar voz ao ridículo, sendo mais absurda na sua falsa pretensão de querer justiça mais do que querer aparecer.

Falo do episódio envolvendo Xuxa Meneguel e seu pedido de desculpas em que reconhece de forma peremptória que errou. O fato de reconhecer o erro, pedir desculpas e dizer que não há justificativa para sua fala, porque está errada mesmo, não foi suficiente para a esquerda lacradora querer palco em cima do negócio. O desejo de visibilidade torna-nos patéticos e insensíveis… aliás, tão patéticos que lá foram eles fazer uma “carta aberta” para alguém que horas depois de dizer o absurdo que disse voltou atrás e se retratou. 

Gostaria de saber quem elegeu o dono da proposição: “Seu pedido de desculpas, eu vi. Mostra que você não entendeu nada. Não se convenceu de fato que falou uma bobagem descomunal. Você propagou uma ideia nazista. Acorde!” como senhor Deus e juiz dos sentimentos alheios quando, em público, as pessoas vêm se retratar de um erro, assumindo ter errado e não disfarçando o fato?  Gente, o autor dessa nominada: “Carta aberta a Xuxa Meneguel” é mais cruel do que Tomás de Torquemada, qual o padrão para se dizer: “...Seu pedido de desculpas, eu vi… Não se convenceu de fato que falou uma bobagem descomunal”? Ah, já sei! É o padrão Sérgio Moro de qualidade, mais um infeliz que adere ao Instituto Dallagnol de acusação e propalação de boatos, afinal, essa forma arrogante de se portar em relação às pessoas é da Lava Jato. 

Ora, Senhores, o que desejais: que a Meneguel fique nua perante o Cristo Redentor, em praça pública, receba 80 chibatadas enquanto repete o mantra: “… por minha culpa, minha tão grande culpa…” e assim saciar vossos desejos implacáveis por sangue e destruição da reputação alheia? Não sejam ridículos! 

O texto da “carta aberta” propõe uma série de situações prisionais e sociais sugerindo que Xuxa só se preocupa com veganismo e animais abandonados e sequer lembrou, falou, suscitou, a Fundação Xuxa Meneguel para crianças em situação vulnerável que em 2015, durante uma entrevista no 12º Fórum Empresarial de Comandatuba na Bahia, Xuxa declarou que gasta anualmente R$ 1,5 milhão para manter a fundação, o valor é desembolsado por ela há cerca de 22 anos, fazendo a soma chegar a R$ 33 milhões.

Quando Xuxa tomou conhecimento das questões sociais de sua fala, quando um fã a ela escreveu e disse da situação prisional no Brasil, a loira voltou atrás em seus pensamentos e de forma contumaz disse: “… Mas também fiz a mesma coisa, também julguei, também maltratei, usei palavras que não deveriam ser usadas… Quem sou eu para dizer que essas pessoas devem ficar ali ou morrer ali. Se eu faço isso, estou sendo ruim como as outras pessoas que também maltratam outras vidas. Eu errei, me julgaram certo”. 

Se essa fala não foi suficiente para aplacar a ira da fama sobre o erro alheio, o que faz dessas pessoas diferentes dos atores na Lava Jato, em Curitiba? Como podem falar de justiça, sendo que em seus corações impera a injustiça e a condenação? Porque são “Mouros” disfarçados de cristãos piedosos. Quem tem ouvido para ouvir, ouça! 

Esse episódio envolvendo a Xuxa é emblemático. Ela pediu perdão e afirmou estar errada. Desculpou-se, caso você ache que tudo bem, mas… O problema não está com ela. A pessoa tóxica é você, que não compreende nada da vida e nem de suas realidades. Se para você existe um mas em um pedido sincero de desculpas, você precisa urgentemente de um psicólogo, pois você é tóxico.

Espanta-me que entre setores da esquerda a máxima: “quando não se tem algo para dizer se diz qualquer coisa…” tenha valor e voz. Não sejamos inquisidores quando há verdade na expressão alheia. Menos é mais!