quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Por que voto em Lula?




Poderia apontar todos os feitos do governo, poderia elencar todos os benefícios que tive durante o governo Lula, poderia falar das questões internacionais e do respeito que, a meu ver, outras nações demonstram pelo governo do presidente Lula, mas, ainda assim, não estaria sendo inteiramente honesto.

Voto em Lula porque ele é, entre os candidatos, aquele que representa de maneira mais próxima aquilo que sou: uma pessoa que tem necessidades. Uma pessoa que, sozinha, não conseguiria chegar aonde cheguei. Uma pessoa que necessita de políticas públicas e sociais para manter o mínimo de dignidade possível e que, no governo Lula, viu essa mínima dignidade elevar-se à máxima dignidade que um desigual pode alcançar: sentar-se à mesa dos ditos iguais e falar com eles em igualdade e respeito de voz.

Voto em Lula pela liberdade, pela humanidade e por valores que, para mim, se tornaram caros.

A vida humana não pode ser uma mera questão de conveniência: enquanto respeito a vida da minha prole, a do outro que se exploda! Vivemos muito disso no governo Bolsonaro, e aquilo foi doído demais, sofrido demais. Pena que o povo se esqueça tão depressa...

Eu não me esqueci.

Não me esqueci de que política não é apenas a cotação do dólar, o desempenho da Bolsa ou os números frios de uma planilha. Tudo isso tem sua importância, evidentemente. Mas, antes dos números, existem pessoas. Antes das estatísticas, há gente com nome, rosto, história, fome, medo, esperança e sonhos.

Talvez seja exatamente aí que esteja a razão mais profunda do meu voto.

Eu sei de onde vim.

Sei o quanto custa para alguém que não nasceu cercado de privilégios conquistar determinados espaços. Sei que o discurso de que “basta se esforçar” é muito bonito quando pronunciado por quem começou a corrida alguns quilômetros à frente. Para quem começa atrás, contudo, esforço nem sempre é suficiente. Às vezes, é necessário que alguém retire as pedras do caminho. Outras vezes, é necessário que o Estado construa o próprio caminho.

E não vejo nisso vergonha alguma.

Ao contrário.

Tenho dificuldade de compreender essa espécie de orgulho contemporâneo em afirmar que ninguém precisa de ninguém. Precisamos, sim. O bebê precisa da mãe; o aluno precisa do professor; o doente precisa do médico; o cidadão precisa de instituições; e uma sociedade minimamente civilizada precisa compreender que os mais fortes não existem para esmagar os mais fracos.

Civilização, para mim, começa exatamente quando deixamos de perguntar: “O que eu ganho com isso?” e passamos a perguntar: “Como podemos viver todos um pouco melhor?”

É por isso que determinadas políticas públicas me dizem tanto.

Não porque eu deseje viver eternamente dependente do Estado, como repetem certos discursos fáceis, mas porque sei que há uma diferença brutal entre dependência e oportunidade. Uma bolsa de estudos pode ser oportunidade. Uma universidade pública pode ser oportunidade. Um programa habitacional pode ser oportunidade. Uma política de inclusão pode ser oportunidade. Um prato de comida, para quem está com fome, não é ideologia: é comida.

E talvez quem nunca tenha precisado dessas coisas tenha o luxo de tratá-las como abstrações.

Eu não tenho.

Minha história não me permite esse luxo.

Quando voto, portanto, não abandono aquilo que sou para vestir uma fantasia ideológica. Faço justamente o contrário: levo comigo para a urna tudo aquilo que vivi.

Levo o menino que fui.

Levo o homem que me tornei.

Levo o professor que conhece diariamente realidades muito diferentes da sua.

Levo o advogado que aprendeu que direitos escritos no papel pouco significam quando não existem instrumentos capazes de torná-los concretos.

Levo minha fé, inclusive — uma fé que me ensinou que não posso perguntar apenas quem é meu próximo, mas preciso estar disposto a tornar-me próximo daquele que caiu à margem do caminho.

E levo também minhas contradições, porque não transformei Lula em santo.

Não preciso disso.

Não acredito em políticos imaculados, salvadores da pátria ou homens providenciais. Já tivemos messianismo político demais neste país. Meu voto não é um ato religioso; é uma escolha humana, imperfeita, circunstancial e consciente.

Posso discordar de Lula.

Posso criticá-lo.

Posso considerar determinadas escolhas equivocadas.

Posso cobrar.

Aliás, devo cobrar.

O voto democrático não exige submissão intelectual. Ao contrário: quem vota em alguém não lhe entrega a própria consciência juntamente com o título eleitoral.

Mas existe uma linha que, para mim, separa projetos políticos.

É a maneira como enxergam o outro.

Especialmente aquele outro que não tem dinheiro, sobrenome importante, influência ou qualquer possibilidade de devolver o favor recebido.

É muito fácil defender a dignidade de quem se parece conosco.

Difícil é reconhecer dignidade naquele cuja existência nos incomoda.

Difícil é compreender que direitos humanos precisam valer para quem amamos e para quem jamais convidaríamos para jantar em nossa casa.

Difícil é compreender que liberdade não pode significar apenas a liberdade de sermos nós mesmos, mas também a liberdade de permitir que o outro seja aquilo que escolheu ser.

Foi por isso que algumas experiências políticas recentes me feriram tão profundamente.

Não foi apenas uma questão partidária.

Foi humana.

Eu vi tornar-se aceitável uma linguagem que tratava sofrimento como fraqueza, solidariedade como ingenuidade e diferença como ameaça. Vi pessoas aprenderem a rir da dor alheia e chamarem isso de coragem. Vi a crueldade apresentar-se socialmente como sinceridade.

E talvez seja este o ponto em que minha escolha se torna irremediavelmente pessoal:

eu não quero me acostumar com a crueldade.

Não quero chegar ao dia em que a fome de alguém deixe de me incomodar porque minha geladeira está cheia.

Não quero considerar normal que um jovem abandone seus estudos porque precisa trabalhar para ajudar a família.

Não quero achar aceitável que alguém tenha sua dignidade diminuída por causa da pobreza, da cor, do lugar onde nasceu, de quem ama ou da forma como decidiu construir sua própria existência.

Não quero uma sociedade em que alguns possam viver plenamente enquanto outros apenas sobrevivem.

Se isso me torna idealista, que seja.

Já ultrapassei a idade de ter vergonha dos valores nos quais acredito.

Por isso voto em Lula.

Não porque espere dele a construção de um paraíso.

Não porque imagine que um presidente possa resolver sozinho os problemas históricos de um país profundamente desigual.

Não porque considere seu governo isento de erros.

Voto porque, diante das escolhas que se apresentam, reconheço em seu projeto político valores que dialogam com a minha própria trajetória: inclusão, políticas sociais, presença do Estado onde o indivíduo sozinho não consegue chegar e a ideia — talvez antiquada para alguns — de que governar também significa cuidar.

E há uma palavra que, depois de tudo, se tornou essencial para mim:

humanidade.

Quero poder olhar para meu voto e reconhecer nele alguma coisa daquilo que desejo ser como pessoa.

Alguém que não sobe a escada e depois a retira para impedir que outros também subam.

Alguém que sabe que chegou até aqui pelo próprio esforço, certamente, mas também porque houve mãos, instituições, políticas e oportunidades que tornaram esse esforço possível.

Não sou um homem que se fez sozinho.

Ninguém é.

Talvez seja justamente por reconhecer isso que eu saiba exatamente por que voto em Lula.

Não é culto.

Não é cegueira.

Não é gratidão servil.

É memória.

É consciência de classe.

É experiência.

É escolha.

E, acima de tudo, é a recusa em aceitar como projeto de sociedade a ideia de que cada um deve salvar apenas a si mesmo.


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