sábado, 19 de setembro de 2026

"Diga-me com quem andas e te direi quem és": as relações de Flávio Bolsonaro e o senso de pertença do eleitor





Há fotografias que apenas registram um momento; outras, entretanto, revelam muito mais do que pretendiam aqueles que nelas aparecem.

A fotografia divulgada pela imprensa, na qual Flávio Bolsonaro surge, em clima de absoluta descontração, durante um safári na África do Sul, ao lado do senador Weverton Rocha, do advogado Willer Tomaz e do empresário Carlos Alberto de Sá, poderia, à primeira vista, ser encarada como uma trivial recordação de viagem: amigos, esposas, animais da savana, paisagens exóticas e aquela felicidade cuidadosamente preservada para o álbum particular.

O problema é que política não se faz apenas de fotografias.

Faz-se, sobretudo, de relações.

E são exatamente as relações que dão à imagem uma dimensão que ultrapassa, e muito, a singeleza de um passeio turístico.

Segundo reportagem da revista piauí, a fotografia circulou em um grupo de WhatsApp denominado “África do Sul”, do qual participavam Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz, Weverton Rocha e respectivas esposas. Carlos Alberto de Sá, conhecido como Carlinhos, também participava daquela viagem.

Nada disso, por evidente, constitui crime.

É preciso dizer isso com todas as letras, porque o Estado de Direito não admite culpa por associação, muito menos condenação por fotografia. Ser amigo de alguém investigado não transforma ninguém, por uma espécie de osmose penal, em criminoso.

Sem embargo, há uma diferença bastante significativa entre responsabilidade criminal e responsabilidade política.

E talvez seja justamente aí que a fotografia comece a falar.

Weverton Rocha aparece relacionado às investigações decorrentes da Operação Sem Desconto, que apura fraudes envolvendo aposentados e pensionistas do INSS. Willer Tomaz, amigo de longa data de Flávio Bolsonaro, também foi alcançado por diligências dessa investigação e nega integrar qualquer esquema criminoso.

Até aqui, tudo muito jurídico: investigação não é condenação; busca e apreensão não é sentença; suspeita não é culpa.

Mas política não se esgota no processo penal.

Quem pretende governar o país não pode ser analisado apenas pelo critério estreito de saber se praticou ou não determinada conduta tipificada no Código Penal. Presidente da República não administra sozinho, enclausurado no Palácio do Planalto, em um universo asséptico e impermeável às pessoas que o cercam.

Governos são feitos de redes.

De amizades.

De alianças.

De interlocutores.

De empresários.

De advogados.

De financiadores.

De pessoas que entram e saem de gabinetes, apartamentos, fazendas, aviões, festas e viagens.

É por isso que as companhias importam.

Carlos Alberto de Sá, outro integrante daquele grupo, teve seu indiciamento recomendado pela CPI da Covid em 2021 em razão das apurações envolvendo a VTCLog, empresa da qual é sócio. A comissão apontou suspeitas relacionadas a contratos com o Ministério da Saúde e recomendou responsabilizações.

Novamente, para que não se incorra em leviandade: recomendação de indiciamento feita por uma CPI não equivale a condenação judicial.

Todavia, a sucessão das personagens começa a tornar a fotografia politicamente interessante.

Não porque prove alguma coisa contra Flávio Bolsonaro, mas porque permite uma pergunta absolutamente legítima:

quem compõe o círculo político, econômico e pessoal de alguém que pretende ocupar a Presidência da República?

A pergunta não é pequena.

Aliás, deveria ser feita em relação a qualquer candidato.

Ocorre que Willer Tomaz não aparece apenas no safári.

Segundo as reportagens citadas, durante atividades de campanha em São Paulo, Flávio Bolsonaro utilizou um apartamento pertencente ao advogado. O imóvel, por sua vez, anteriormente pertencera a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, conhecido pelas relações envolvendo o Banco Master.

Outra vez: ninguém herda eventual responsabilidade jurídica de quem anteriormente foi proprietário de um imóvel.

Isso seria absurdo.

Entretanto, quando personagens começam a reaparecer, quando os mesmos nomes atravessam viagens, propriedades, relações pessoais, ambientes políticos e investigações públicas, deixa de ser intelectualmente honesto tratar tudo como mera coincidência irrelevante.

Não se trata de declarar culpa.

Trata-se de observar relações de poder.

Há uma curiosidade particular no modo como parte da política brasileira trata esse assunto.

Quando as relações são do adversário, qualquer fotografia vira escândalo; qualquer telefonema vira conspiração; qualquer amizade vira sociedade criminosa.

Quando as relações são próprias, subitamente descobrem-se as maravilhas do princípio da presunção de inocência.

É quase enternecedor.

Talvez seja mais coerente aplicar a mesma régua a todos.

E aqui surge a questão do senso de pertença.

Durante muito tempo, criou-se no Brasil a fantasia de que votar significa escolher uma personalidade: aquele candidato de quem se gosta, aquele que fala aquilo que se deseja ouvir, aquele que reproduz nossos ressentimentos, medos, expectativas ou valores.

Mas ninguém elege apenas uma pessoa.

Elege-se também um grupo.

Uma rede.

Um conjunto de interesses.

Uma estrutura de poder.

O eleitor deveria, portanto, olhar para além do palanque e perguntar: quem são as pessoas que circulam ao redor desse candidato quando os microfones estão desligados?

Quem frequenta seus ambientes privados?

Com quem viaja?

Quem lhe oferece estrutura?

Quem lhe empresta imóveis?

Quem aparece repetidamente em seu entorno?

Quais interesses econômicos gravitam ao redor daquele projeto político?

Isso não é patrulhamento moral.

É política.

Porque, ao final, são exatamente essas redes de relacionamento que se transformam em portas abertas, interlocuções privilegiadas, indicações, decisões, contratos, nomeações e prioridades governamentais.

Talvez o aspecto mais incômodo daquela fotografia africana seja justamente seu contraste.

De um lado, investigações envolvendo dinheiro retirado de aposentados e pensionistas, pessoas que muitas vezes sobrevivem com benefícios modestíssimos.

Do outro, um grupo desfrutando de um safári na África do Sul.

A imagem não prova que Flávio Bolsonaro tenha qualquer participação nas fraudes investigadas.

Não prova corrupção.

Não prova lavagem de dinheiro.

Não prova qualquer ilícito.

Mas política também se constrói por símbolos.

E poucos símbolos são tão eloquentes quanto a distância existente entre aqueles que circulam nas proximidades do poder e aqueles que vivem a realidade concreta deste país.

Flávio Bolsonaro foi procurado pela piauí para explicar a viagem, o grupo de WhatsApp e suas relações com Weverton Rocha, Willer Tomaz e Carlos Alberto de Sá. Segundo a revista, não respondeu.

Os demais envolvidos apresentaram suas versões e sustentaram que se tratava de uma viagem privada, custeada com recursos próprios e sem relação com interesses públicos.

É correto registrar essas versões.

Da mesma forma, é correto perguntar.

Aliás, é justamente para isso que existe imprensa livre.

E talvez seja para isso que deveria servir o eleitor crítico.

Não para repetir slogans.

Não para transformar políticos em santos de devoção.

Não para acreditar que adversários são demônios e aliados criaturas imaculadas.

Mas para observar.

Comparar.

Questionar.

E compreender a qual mundo pertencem aqueles que disputam o poder.

Porque poder não se exerce apenas no discurso.

Exerce-se, sobretudo, nas relações.

No fim das contas, aquela fotografia talvez não prove crime algum.

Todavia, revelou algo que as fotografias, vez ou outra, revelam de maneira extraordinariamente eficiente:

quem anda com quem.


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