Medo de mulher

"A Bíblia, o mais denso repositório cultural
da humanidade,é uma coletânea de frases
depreciativas sobre o sexo feminino"

Dias atrás, numa visita de campanha, a prefeita de São Paulo estendeu a mão a um judeu ortodoxo, desses que usam chapéu e sobretudo para frio siberiano. O homem deixou a prefeita com a mão no ar. Negou-se a tocá-la. Esse tipo de religioso acredita que mulher menstruada é impura. Como não pode perguntar a todas qual é seu estado, prefere evitar contato físico com o sexo oposto. A suspeita sobre a mulher é um ponto comum às grandes religiões.

Em certos países islâmicos, elas têm de andar cobertas da cabeça aos pés, para não despertar a luxúria no vizinho. Meninas de 13 ou 14 anos casam-se com homens de qualquer idade, à escolha de seus pais, desde que já tenham menstruado. Em alguns casos, as parentas tiram-lhes os pêlos de todo o corpo antes do casamento. Assim, oferecem ao homem um reforço tátil e visual à convicção de que está mesmo se casando com uma menina intocada.

Na semana passada, o Vaticano deu sua contribuição a esse tema. Um documento da Santa Sé denunciou o feminismo por tentar diminuir as diferenças entre homem e mulher. Se a mulher ficar parecida com o homem nos papéis que ambos desempenham, conclui o Vaticano, o casamento passará a equivaler a uma união homossexual. Acostumados com a rigidez da Igreja, que só admite sexo com fins reprodutivos, os católicos fingem que algumas regras não existem e continuam freqüentando sua missa dominical. Caso contrário, todos os casais teriam quinze filhos.
O atrito criativo entre o progresso humano e os tabus religiosos é um fenômeno instigante. A teoria de que a Terra se move e não é o centro do universo tem apenas cinco séculos. Até então, era preciso dobrar-se ao tabu de que o homem, ponto culminante da criação, vivia no centro do cosmo, tendo todo o firmamento a prestar-lhe homenagem, dançando a sua volta.

As religiões são conservadoras porque surgiram em culturas muito antigas. Reproduzem normas dessas comunidades. Códigos religiosos, como os Dez Mandamentos, são documentos civilizatórios. Reprimem impulsos destrutivos do homem primitivo. Não matarás, não roubarás, não mentirás nos tribunais e não pularás guloso em cima da mulher alheia são regras de conduta hoje aplicadas por meio de leis. O tabu, que reprime a livre manifestação de impulsos anti-sociais, sempre foi um elemento de estabilidade. Quando se torna um entrave ao progresso, precisa ser superado.

Cristianismo, judaísmo e islamismo são três galhos da mesma árvore. Moisés e Jesus são aceitos como profetas no islamismo. Abraão é patriarca dos judeus, dos cristãos e dos muçulmanos. As três religiões surgiram no mesmo lugar. Não é, portanto, uma surpresa que os núcleos mais conservadores desses três grandes ramos religiosos tenham uma atitude retrógrada diante da mulher. A Bíblia, o mais denso repositório cultural da humanidade, é uma coletânea de frases depreciativas sobre o sexo feminino. Em mais de 200 citações, a mulher aparece como propriedade do homem e como fonte de volúpia e perdição. Talvez na origem essa atitude refletisse o pânico ancestral dos homens com a possibilidade de ter sua prole infiltrada secretamente por um filho do leiteiro.

O tabu sobre a mulher é maior entre muçulmanos e judeus tradicionalistas, mas também está presente no catolicismo conservador, que não admite sacerdotes do sexo feminino e despreza as conquistas do feminismo. Esse tabu será superado como foram outros. Ele se tornou um entrave. Sua extinção está escrita.

Tales Alvarenga

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