sexta-feira, junho 23, 2017

SER FORA DO MEIO



Seria um clichê despudorado, um chove não molha daqueles que toda a comunidade está cansada de dizer e repetir, como se fosse um mantra, para nunca esquecerem: ser fora do meio é um horror!

Isso seria verdade caso a  sentença em si não estivesse plena de sofismas conceituais, elegendo-a na categoria de um rótulo minimalista, que não serve para nada, produzindo a solução mágica, contudo não atacando o problema de fato.

A nossa militância, ou melhor, a nossa comunidade não difere muito do pensamento religioso e seu modus operandi: o tempo todo está à procura dos inimigos externos. A religião não sobreviveria sem eles, afinal, dão forma, sabor, é aquele tempero que condiciona o ideal, é o paradigma que aponta contra o que e quem se lutar. Não bastasse o preconceito, passamos eleger inimigos secundários, começamos em nome de uma diversidade infinita diluir-nos em siglas, acrônimos, como se um preconceito comum a todos fosse específico de um grupo dentro da comunidade e não de outros.

Dessa forma, passamos a fazer a militância do substantivo sufixado: alguma coisa + fobia.  Diluídos nesse autismo conceitual de tribos sectárias (todos contra todos), não estamos conseguindo nos enxergar, olhar para nós mesmos e dizer que, às vezes, temos sido ridículos.

Fui, junto com tantos outros, defensor de que homossexuais tivessem o direito de constituir família reconhecido e aceito no campo jurídico brasileiro, isso aconteceu em 05 de maio de 2011, data histórica para nossa comunidade, mas o que se viu de lá até hoje é desanimador.

Teríamos que entender que a família moderna está para muito além do conceito de família nuclear, mas isso não foi  nem é refletido dentro de nossa comunidade, que se alegra em reproduzir o modelo família heterossexual feliz: imitam as cerimônias religiosas; as juras de fidelidade e amor eternos; os ritos são exatamente os mesmos.  Desta feita, não conseguem se reinventar fora do modelo heteronormativo e sem autocrítica disparam contra: cis, ativos, brancos, homens dentro do padrão,  etc...  contra os inimigos que elegeram para um grupo específico da sigla, como se todos nós não estivéssemos exatamente no mesmo barco e como se também não elegessem o “padrão” para si mesmos.

Agora  pouco,  lia sobre a nova moda de clareamento anal e chamou-me a atenção um comentário dizendo que a culpa disso é do ativo, padrãozinho, fora do meio que tem que ter sua necessidade satisfeita. Obvio que minha mente foi longe, afinal, primeiro, quem é que examina, EXCLUSIVAMENTE,  a cor do ânus de alguém antes de penetrar?: “Ah não meu caro! Seu ânus não é da cor que me dá tesão”, ou “Ei, estou a fim de penetrar em você, deixe-me ver se o seu ânus tem a cor padrão para minha pulsão sexual específica”. Segundo, como pode ser culpa desse ou daquele, antes de ser da pessoa que se submete ao clareamento?

A questão é que para tudo temos que apontar a culpa de alguém eleito para ser esse inimigo externo secundário, que vem tornando a nossa causa líquida, diluída e sem senso.  Fui pesquisar o que é ser fora do meio e, pasmo, descobri que é aquela pessoa que não gosta de frequentar boates, saunas, bares ou qualquer coisa do meio homossexual. Estritamente por isso essas pessoas são alvos das críticas da comunidade, mas a grande pergunta que se deveria fazer é:  tais pessoas que não gostam de frequentar os ambientes são preconceituosas por isso, ou por difundirem comportamento heteronormativo contra a comunidade?

Talvez, não é regra, mas a pessoa não gosta dos programas que o universo LGBT oferece, mas não necessariamente esteja enquadrando um padrão heteronormativo, apenas não se diverte nele.  Os transgêneros, por exemplo, muitos não gostam, não aceitam que se diga que, no passado, eles tinham outro sexo diferente do que possuem depois de operados, alguns até afirmam: “eu sou mulher”, ou invés de afirmarem: “eu sou homossexual”.

 Isso para mim, essa atitude, sim, é preconceito contra a homossexualidade e se não bastasse, hoje, fica a acusação de uns contra outros, minando o entendimento que nossa luta é contra a homofobia que se dá em desmerecimento de gays, lésbicas, travestis, transexuais, enfim, de todos que se atraem por pessoas do mesmo sexo biológico.


E o que temos feito sem nos darmos conta é: estamos reproduzindo a heteronormatividade no meio da homossexualidade sem nos descobrir, estamos nos atacando, todos contra todos, em nome do não cultivar preconceitos, mas  nos odiando mutuamente. Nosso papel não é fácil, pois temos que inventar um jeito de ser homossexuais, sem a imposição social, mas nosso jeito próprio e comum de ser. Enquanto importarmos o ódio social, que nos é jogado todos os dias, contra os acrônimos e os rótulos minimalistas não estaremos sendo nós mesmos, apenas reproduzindo tacitamente (e cegamente) o comportamento social que nos acusam e nos condicionam na marginalidade como párias e escórias da sociedade ideal.

segunda-feira, maio 29, 2017

Adão e Ivo, uma variante possível!




O desejo travesti de Adão

por: Renato Hoffmann

Certa vez, eu conversava com um professor de Letras, da UFMG, momento em que me surpreendi com o olhar sobre o personagem Frankenstein, da escritora romântica, inglesa, Mary Shelley. Na ocasião, o professor   relacionou-o como o primeiro travesti da história da literatura. A analogia usada, em tom de poesia, foi muito curiosa, significativa, além de bela e provocativa. De forma contemporânea, claro, sem se dar ao método de uma exposição acadêmica, contudo de uma riqueza inenarrável.

Vez ou outra, escutamos por aí que: “Deus criou Adão e Eva e não Adão e Ivo”, assim sendo, os favoráveis a esse argumento concluem:  “esse mesmo Deus não é a favor da homossexualidade, pois, se fosse, ele teria criado o homem para o homem, a mulher para a mulher e não a mulher para o homem”.
                     
Ora, sabemos que a Bíblia não fala literalmente em um Adão, não o estabelece como um único homem criado. A expressão hebraica para Adão, no sentido amplo, é Adamah: terra, solo, chão fértil e significa, na essência, HUMANIDADE, aquilo que pode ser cultivado, modelado. Há quem diga de solo vermelho. O termo é diferente de eres, que significa terra em oposição ao céu, ao mar, terra matéria, substância, há vários outros sentidos como o político: delimitação de domínio de um clã, de uma tribo, o geográfico: fronteiras, terras delimitadas, regiões.


A narrativa da revelação nos diz que Deus criou o ser humano (´adam) com o solo vermelho, fértil, cultivável (´adamah). Nesse momento não há distinção de gênero; Deus cria a humanidade, ou o ADAMAH.

Filosoficamente o Ser é só, é próprio que o homem viva a solidão, contudo,  ele só se dá conta de sua condição, quando ao seu semelhante percebe e não consegue transpor-se nele, no outro. Assim, o Ser é o que é, e o outro continuará sendo o que é, um sem se transpor no outro, cada um sendo indivíduo de si mesmo. Jean- Paul Sartre dirá nessa perspectiva que o outro é o inferno (o inferno é o outro).

A narrativa bíblica diz que Deus viu que o homem estava só e resolveu criar para ele uma companheira, assim Adão caiu em um profundo sono. Ora, se em um primeiro momento a narrativa fala de uma humanidade, bem certo que os gêneros nela já estejam definidos (mas não distintos), o escritor eloísta, em sua teodiceia, resolve explicar esse sentimento VAZIO do Ser, dando a ele uma companheira. Essa companheira nada mais seria do que o sonho de Adão. Adão sonha consigo mesmo (o sujeito sempre fala de si), Eva, nada mais é do que o desejo de Ser do próprio Adão. Eva é o Adão travestido nas escrituras, é tudo aquilo que o ADÃO não tem coragem de ser, assumindo-se em si mesmo... Eva é a mulher do fruto proibido, da desobediência: é o Adão se libertando do jugo de ser macho e se vendo feminino, percebendo-se delicado, passivo, histérico. Na narrativa ele dorme, enquanto é moldado em si mesmo, enquanto perde a vara, para receber o varão. E nisso Adão se compraz!

Adão e Eva, Ivo e Eva, Adão e Ivo nada mais é, nas escrituras, do que o desejo travesti de Adão.

segunda-feira, maio 30, 2016

Genizah Virtual X Hermes Fernandes



Há um bom tempo parei de escrever artigos para o Gospel Gay, embora ainda seja responsável, junto com João Marinho, pela manutenção do blog.

Hoje, contudo, não deu para segurar a surpresa, estranhamento e necessidade de dizer algo sobre o que vi e nunca pensei que tal coisa pudesse acontecer.

Refiro-me ao rompimento declarado entre o site conservador, fundamentalista e direitista gospel: GENIZAHVIRTUAL e o bispo Hermes Fernandes.

Danilo Fernandes, responsável pela manutenção do GENIZAHVIRTUAL, escreveu um longo artigo (AQUI), neste, o autor acusa o bispo Hermes de apostasia e o motivo, dentre vários, seria o apoio de Hermes à agenda de esquerda, que o faz buscar holofotes, se associar ao PT e, inclusive, defender a “ideologia de gênero”, atacando, portanto, a psicóloga e “educadora”, Marisa Lobo, desconstruindo a imagem dessa.

O absurdo do ataque chega fazer a previsão de que em breve Hermes estará celebrando casamento gay em suas paróquias. Digo absurdo, pois o mesmo Hermes já se posicionou em relação aos gays. Assim, mesmo que o bispo possa ter uma visão mais aberta em relação ao evangelho, ecumênica e tenha, de fato, atacado a Marisa Lobo, ele considera, por exemplo, que os gays não deveriam se beijar em público, respeitando o status quo da sociedade heteronormativa.

Na verdade, Danilo Fernandes sempre foi fundamentalista agressivo. Daqueles que atacam Silas Malafaia (por este ser neopentecostal), mas não consideram que o mesmo seja desprezível de todo. Aliás, quando Silas escancara a bocarra contra os LGBTs, Danilo chega aplaudi-lo sem disfarce algum. Aquele velho contrassenso cristão de usar e abusar daquilo que os favorecem no jogo sujo da conversão e sectarismo. Na verdade, Danilo Fernandes é pertencente à direita cristã, está aplaudindo de pé a retirada de Dilma Rousseff da presidência e entusiasmado com, o que para ele é, a maior derrota gay da história. Para Danilo, todo gay é esquerda, sendo assim, toda a esquerda é contrária às escrituras.

A pequenez desse sujeito só reflete a falta de respeito, de consideração e de diálogo que o mesmo não consegue sustentar com quem pensa diferente de si. Danilo não tem uma Bíblia, ele tem um conjunto de regras, uma cartilha pesada e farisaica, que oprime, que denigre e que ataca qualquer um que não reze por ela( mesmo que esse qualquer um tenha sido amigo em um passado próximo).

Danilo é a expressão do fundamentalismo da igreja, do rancor dos cristãos que lutam para uma agenda de poder, da pequenez argumentativa. É a imagem viva de um fariseu contemporâneo de Cristo, que opera na lei a inveja pelo sucesso do próximo.

quinta-feira, setembro 03, 2015

Sobre a pressão imigratória



por João Marinho
Gente, eu, como muitos, fiquei bastante consternado com a morte das crianças sírias tentando atravessar a Turquia, mas, ao mesmo tempo, preocupado com o tom antieuropeu que a discussão tem tomado, principalmente por parte de esquerdistas.

De um lado, devo dizer que eu consigo entender o receio dos europeus. No Brasil, nossa comunidade muçulmana é pacífica. Entre outros motivos, por ser muito pequena.

Em países europeus, no entanto, nem sempre a convivência é tão ideal. Na Inglaterra, há bairros inteiros onde se procura implantar a Sharia, em vez de seguirem as leis do Estado. Na Holanda, gangues de jovens islâmicos agridem gays e lésbicas na rua por seu "pecado": há alguns anos, o país precisou instaurar um regime em que solicitava ao imigrante muçulmano uma declaração de que aceitava as leis liberais holandesas, não sem ouvir acusações de ser "xenófobo".

Quantos jovens europeus, nos últimos meses, têm sido seduzidos e aliciados por pregadores muçulmanos radicais, indo engrossar as fileiras do Estado Islâmico? Consigo entender por que existe receio da imigração em massa, sem retirar seu caráter de tragédia humana dos muçulmanos que buscam tão-somente fugir das guerras e viver em paz.

Também fiquei com uma pergunta incômoda: será que alguém já tentou trazer algum refugiado sírio para o Brasil? Bom, eu tentei. Mohamad era o nome dele: muçulmano, gay, sírio, vivendo em um campo em Tiro, no Líbano, era refugiado três vezes.

Fiquei espantado em como é extraordinariamente difícil conseguir um visto brasileiro. Se o turista é sírio, nosso país exige que ele tenha comprovação de emprego e renda para bancar a viagem, passagens compradas de ida e volta, reserva de hotel, entre "otras cositas más". Não tem hotel? Precisa de carta de um brasileiro nato dizendo que vai hospedá-lo em sua casa.

Sim, Mohamad não era turista, mas refugiado – e aí está a pegadinha. É que o visto brasileiro de refugiado é um visto de turista modificado, retirando apenas algumas exigências que, de outra forma, são insustentavelmente absurdas, como a de trabalho e renda (oi?). No fim das contas, ele não conseguiu.

Sem saber dessa realidade, quantos de nós criticamos a Hungria por ter "segurado" imigrantes e depois liberado aos poucos, SEM VISTO, para passarem por seu território rumo à Alemanha? O Brasil está entre os países que MENOS receberam refugiados de guerra. Perdemos até para outros países americanos. Não é à toa que tantos haitianos entram aqui pela via ilegal.

Aliás, por falar em haitianos... Alguém realmente tem se preocupado com eles, afora as pastorais católicas? Com um visto difícil de conseguir, o governo federal esquerdista apenas muito depois resolveu relaxar as regras – mas continua sem policiar corretamente as fronteiras e só agiu com essa medida "muito eficiente" do visto depois que a situação dos ilegais no abrigo de Brasileia, hoje fechado, ficou à beira do insustentável e nas costas do governo acreano.

Aí, o que o governo do Acre fez? Para se livrar do "problema", alugou uns ônibus praticamente na calada da noite, encheu de haitianos e mandou tudo para São Paulo, onde lotaram a Baixada do Glicério, na capital, para serem assistidos pelas pastorais, que parecem as únicas realmente preocupadas. O governo paulista reclamou, e aí quem era "xenófobo" era o governo paulista. Oi? Posso não gostar do tucanato de Alckmin, mas, neste caso, qualquer um vê que ele tem mais razão do que menos razão.

Enquanto isso, pouco se faz para saber a profundidade do drama desses refugiados, que são refugiados de uma catástrofe natural. Quantos morreram na travessia pelo Mar do Caribe? Quantos foram abandonados por não terem mais dinheiro para pagar os coiotes? Quantos adquiriram malária e outras enfermidades na travessia pelo Peru, pela região amazônica, ou nos então depósitos de gado humano no Acre? Alguém contou?

Isso tudo acontece debaixo de nossos narizes brasileiros, e a população c*ga e anda. Então, aparece a imagem de duas crianças tragicamente mortas em uma travessia pela Turquia, e a Europa é o "Mal".

Falar dos outros é fácil.

terça-feira, junho 09, 2015

Trans crucificada na Parada Gay




A trans crucificada na Parada, ou a blasfêmia que não existe

por João Marinho

É duro ser óbvio.


Mas uma performance artística como a da Viviany utilizou um forte simbolismo que não é cristão, é universal: a crucificação, de Cristo, como forma de martírio dos excluídos.

Esse simbolismo aparece ao longo de toda a história ocidental nas artes, na filosofia e em numerosas outras instâncias – e nunca foi monopólio das igrejas. Aparece até em países não ocidentais e não cristãos.

É tão correto e universal utilizar esse simbolismo quanto utilizar os simbolismos trazidos pela mitologia grega, por exemplo – que, igualmente, estão presentes nas artes, na filosofia, na psicologia e, vejam só, até nas produções de pensadores cristãos!

Será que Freud precisou ser um grego converso e consultar o Oráculo de Delfos para fazer referência a Eros e Psique e até nomear alguns elementos da psicanálise assim?

Será que, quando você chama uma pessoa de "Judas", não está fazendo uma referência ao simbolismo da traição, mas dizendo categoricamente que está prestes a ser morto numa cruz porque aquela pessoa acabou de vender você por algumas moedas de prata (boa sorte em encontrar a pena de cruz em pleno século 21, aliás)?

O que é cristão é tão-somente a crença no sacrifício de Cristo como redentor dos pecados e a natureza divina de Cristo. Assim mesmo, nem esta última é considerada correta por todos: as testemunhas de Jeová, por exemplo, acreditam na redenção dos pecados por meio do sacrifício, mas rejeitam a divindade de Cristo.

Com esta parte religiosa, a Viviany não mexeu em nada. Por caso, ela se posicionou como uma nova Salvadora da humanidade?

Ela pregou um novo Evangelho? Recrutou doze novas apóstolas (dica: não é autodeclarado "apóstolo", por acaso, o organizador da "Marcha para Jesus"? A se pensar...)?

Por acaso, ela disse que estava, na Parada, crucificada para salvar o mundo do pecado? Por acaso, ao menos, ela disse que o sacrifício de Cristo nada valia e que o dela é que deveria ser considerado em seu lugar?

Não.

E ela só poderia ser considerada blasfema, pelos dogmas cristãos, se tivesse dito qualquer dessas coisas – e abram parênteses, porque ser blasfema é direito de liberdade de expressão também.

Viviany, no entanto, não mexeu com nenhum desses dogmas. Fez uma representação artística, buscando inspiração no simbolismo universal da morte de Cristo como martírio dos excluídos da mesma forma que MILHARES de pensadores, artistas, filósofos e religiosos, até de outras religiões, já fizeram antes – e utilizou esse forte símbolo para fazer uma denúncia social contra a intolerância religiosa que vitima LGBTs todos os dias.

Ora, não precisa "ser mais cristão" que ninguém para fazer uso desse simbolismo. Não precisa ser "mais cristão que todos os outros" para entender esse simbolismo que, como acabei de mencionar, foi utilizado até por sábios de outros credos.

O espanto, isso sim, é que os próprios cristãos não entendam o uso do símbolo e tratem como "blasfêmia" aquilo que nem mesmo sua doutrina autoriza a tratar como.

E se vamos falar de imposição, sinceramente, quem precisa rever conceitos são os cristãos.

Defendemos aqui uma representação simbólica da morte de Cristo e a denúncia social que ela traz. Não estamos rejeitando o direito de os cristãos exercitarem sua fé por causa dessa defesa.

Já você, caro cristão fundamentalista, critica a manifestação da transexual, dizendo que "foi desrespeitosa", "agressiva", porque a crucificação é "santa e superior".

Ora, eu não acredito que o simbolismo da crucificação é "santo e superior" – e, no entanto, defendo o direito de utilizá-lo tanto quem acredita que é quanto quem não acredita que é.

você defende que quem não acredita na mesma "santidade" que você se abstenha de fazê-lo, apenas porque você e sua comunidade acreditam nela.

Quem é que está impondo seu credo a outros mesmo?

E se quiserem prova do que digo, leiam o que diz a própria Viviany Beleboni: http://www.revistaforum.com.br/blog/2015/06/tudo-bem-encenar-a-paixao-de-cristo-mas-quando-e-uma-travesti-nao-pode-nao-e/

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Quanto aos gays que fazem coro a Feliciano e afins, só tenho a dizer uma coisa: lamentável!

Vira e mexe, aparecem com aquele discurso de que a "Parada perdeu o propósito", de que "é só festa e deveria ser política", que deveria "reivindicar em fez de tocar música e haver pessoas fazendo sexo".

Aí, quando alguém faz uma denúncia política e social por meio da arte e de um símbolo forte e universal, reclamam porque "foi desrespeitoso" e "há outros meios de exigir respeito"?

Querem um dica? Vão, então, à Parada LGBT do próximo ano e proponham esses "outros meios". Garanto que nós outros, e a Viviany, muito nos aproveitaríamos de suas iluminadas sugestões.

quarta-feira, abril 01, 2015

Homofóbico não é gay enrustido




por João Marinho

Leio esta notícia e, para meu (não tão grande) espanto, vejo muita gente, inclusive gays e inclusive simpatizantes, regurgitando aquele discurso de "tá vendo? Todo homofóbico, no fundo, é gay enrustido".

Será?

Esse discurso de que "se é homofóbico é porque é gay e não se aceita" é bem perigoso, porque joga nas costas dos gays não apenas o fato de serem vítimas da homofobia, mas também de serem seus agentes.

Quer dizer, então, que se você é gay e é agredido por um jovem com uma lâmpada na avenida, é porque aquele jovem é gay também (e não se aceita)?

Quer dizer que se você beija seu namorado e é severamente agredido por quinze  membros de uma torcida organizada no metrô, esses 15 são gays também (e não se aceitam)?

Quer dizer que se você é um adolescente e morre pisoteado por outros adolescentes que praticam bullying porque você tem pais adotivos gays, é porque esses adolescentes agressores são gays também (e não se aceitam)?

Quer dizer que se você é um pai e beija seu filho para, em seguida, ter a orelha decepada por serem ambos confundidos com um casal gay, é porque os que a deceparam eram gays também (e não se aceitavam)?

Quer dizer que quando um pai e uma mãe evangélicos expulsam o filho gay de casa é porque esse pai e essa mãe são gays (e não se aceitam)?

Menos, por favor. Isso está incorreto.

A nossa sociedade, inteira, é que é homofóbica. A família, a escola, a religião, o Estado, as convenções sociais, os papéis de gênero, até as leis... Tudo é tradicionalmente construído de forma a se voltar contra a homossexualidade ou dizer que ela é indesejável.

Ora, é fácil ser homofóbico: basta seguir a maré. Difícil é não ser homofóbico, porque exige pensamento crítico, exige respeitar o outro em sua alteridade, questionar e repensar tudo que é ensinado desde a infância – e o curioso é que isso, essa dificuldade, pode ser assim mesmo para um gay.

Em suma, homofobia não tem nada a ver com enrustimento, com "não se aceitar". Poucas pessoas "nascem fora do armário" – e, se houvesse essa relação, então, praticamente todo gay, por convenção, seria homofóbico, porque esteve no armário algum dia e fatalmente passou por problemas de autoaceitação, pelos motivos que acabei de elencar.

Não, meus caros.

Homofobia tem a ver com cultura, porque esta é que aponta que a homossexualidade é indesejável – e, assim sendo, existem tanto homofóbicos gays quanto homofóbicos héteros. No entanto, sendo os héteros a maioria da sociedade, são também a maioria dos homofóbicos... Ou vamos defender e acreditar que "por estarem bem-resolvidos com o fato de gostarem do sexo oposto", só por isso, não têm preconceito algum e são todos anjinhos de candura?

Ao contrário do que diz esse discurso, a ciência não esposa isso, não. A psicanálise não esposa isso, não. Quem esposa essa ideia é o senso comum – e de forma bem acrítica, aliás.

Portanto, cuidado... Porque, na ânsia de apontar o dedo para o homofóbico proferindo esse discurso, você está, na verdade, retroalimentando a própria homofobia... Ou vai dizer que já ouviu ser comum casos de assassinos de gays que se uniram em matrimônio?

Isso sem falar do gosto amargo de, como todo homofóbico, apontar, nesse processo, a homossexualidade como um defeito, como uma anátema no outro. Ela nunca é. Mesmo que, infelizmente, seja parte da psique de dois assassinos.

sábado, novembro 15, 2014

Intersecção narrativa

INTERSECÇÃO NARRATIVA


Então, você é jornalista e recebeu do seu editor um tema sobre o qual não sabe “lhufas”, ou então o tema é tão polêmico e cheio de nuances que você até o conhece parcialmente, mas não tem a menor ideia de por onde começar – e muito menos aonde chegar.

Sua saída pode estar numa técnica de reportagem que chamo carinhosamente de INTERSECÇÃO NARRATIVA. Essa técnica é bastante útil para solucionar as dificuldades acima e especialmente em reportagens que enfocam comportamentos e tendências, em que a vivência dos entrevistados é sobremaneira importante.

Para funcionar, a intersecção narrativa costuma necessitar de uma técnica-irmã, em um primeiro passo: a ENTREVISTA AUTOBIOGRÁFICA. A ideia é bastante simples. Digamos que você quer fazer uma reportagem sobre um determinado grupo, por exemplo, praticantes do bareback, para ficarmos no tema do Entre Homens de hoje, 06/12.

É um caso em que a reportagem enfoca comportamentos e em que a vivência dos entrevistados será o suprassumo do texto: o que eles têm a dizer sobre a prática e sobre a experiência que tiveram no grupo? Por que praticam? Como veem a si mesmos? Esses elementos serão, de fato, os mais importantes do texto.

A ideia de utilizar a entrevista autobiográfica é explorar, EM PROFUNDIDADE, tudo que for possível sobre a vida dos entrevistados em relação àquele tema da reportagem. Não pode ter medo de perguntar e, às vezes, nem de fazer perguntas desconfortáveis.

O interessante, porém, é que o jornalista não sabe aonde isso vai dar. Geralmente, começam-se as entrevistas com uma pergunta simples do tipo “quando você começou a praticar o bareback?” – e, a partir daí, as perguntas vão se desenrolando de acordo com as respostas do entrevistado e do que ele conta de si mesmo. Toda a entrevista vai depender, portanto, do que o entrevistado disser, o que vai demandar uma boa técnica para o jornalista deixá-lo à vontade e/ou extrair informações relevantes e “escondidas”.

Após realizar um certo número de entrevistas, vem a fase dois, que é a intersecção narrativa propriamente dita. Se o trabalho de entrevistar foi bem feito, e sendo o tema um só, as histórias de vida e experiência narradas pelos entrevistados fatalmente terão pontos em comum, ou seja, as intersecções.

O papel do jornalista, aqui, é identificar essas intersecções: os pontos em que as narrativas “se cruzam” e, a partir daí, separar os cruzamentos mais frequentes e importantes dos menos frequentes e dispensáveis.

Uma vez feito isso, o jornalista “pesca” os mais importantes – em geral, os “cruzamentos” mais densos – e, em cima deles, estrutura sua reportagem. O texto, portanto, vai fluir pelos pontos em comum, pelos cruzamentos das entrevistas. A ordem de qual ponto abordar antes ou depois dependerá do jornalista e de critérios editoriais.

Se tudo for bem feito, no fim, teremos uma reportagem abrangente, que dará conta dos principais tópicos vividos e problematizados pelos praticantes de bareback – e, ao mesmo tempo, um retrato em larga escala para o público-leitor.
Na imagem, temos traduzido o que acabei de explicar.

Observe que temos seis entrevistados: Renata, João, José, Maria, Cláudia e Henrique. As entrevistas partem de um início comum, o quadrado preto que é a pergunta simples a que me referi no sexto parágrafo. No caso, “quando você começou a praticar o bareback?”.

A partir daí, as histórias contadas e as entrevistas vão seguindo por mares nunca dantes navegados e totalmente de acordo com o que cada entrevistado for dizendo. São as linhas tortuosas dos nomes.

Na fase dois, identificamos os pontos em que as narrativas se cruzam: os círculos pretos. Indo de círculo em círculo, estruturamos a reportagem. A técnica pode ser também adotada no modo PROGRESSIVO. Se um tema se repetir, por exemplo, em três entrevistas, podemos “forçá-lo”, perguntando diretamente sobre ele para o quarto entrevistado.

Obviamente, a intersecção narrativa é bem útil, mas tem suas desvantagens. Uma delas é que ela depende muito da capacidade de entrevistar do repórter e também da colaboração dos entrevistados. Se falhar aqui, haverá poucos “cruzamentos” nas narrativas e, portanto, poucos pontos por onde estruturar a reportagem.

Outra dificuldade é a necessidade de ganhar a confiança do entrevistado. Com efeito, muitos deles vão estranhar uma entrevista que, a rigor, “parece que não vai chegar a lugar algum”. Eu já tive essa dificuldade com alguns deles. A pessoa pode ficar desconfortável por contar coisas de si sem saber o propósito e percebendo que o jornalista não o sabe também – porque, afinal, não sabemos mesmo até “puxarmos” os cruzamentos: fato. Cabe aí, então, um bom jogo de cintura do jornalista para explicar o plano de reportagem para o entrevistado.

Finalmente, a técnica pode ser bem trabalhosa. Identificar os pontos em comum, ou seja, os “cruzamentos” entre as narrativas, a frequência de cada um deles a fim de selecioná-los e estruturar a reportagem de uma forma lógica pressupõe ler com calma e até mais de uma vez cada entrevista, lançar mão de anotações e até mesmo escrever os tópicos antes de descrevê-los, num planejamento prévio do texto (“primeiro, vou falar disso, depois, daquilo; então, concluo com aquilo outro antes de fazer o contraponto com aquela outra coisa”). Dá trabalho. O resultado final, porém, vale a pena.

A técnica, é claro, pode ser usada em outros tipos de texto, por quem não é jornalista e também para reportagens que não sejam de comportamento. Nesse caso, em vez de as entrevistas serem autobiográficas, serão centradas no conhecimento técnico ou acadêmico do entrevistado sobre o tema proposto. Por exemplo: se o tema é câncer, perguntar o máximo sobre isso aos médicos e especialistas a serem entrevistados.

domingo, outubro 26, 2014

Democracia e voto nulo

Democracia e voto nulo



por João Marinho

A cadeira de presidente não ficará vazia porque alguém irá perder. Isso iguala o eleitor que votou no perdedor ao que votou nulo, após as eleições – e, em ambos os casos, não representa "morte política".

Votar nulo é dizer que nenhuma das propostas convenceu.

Após a cadeira ser preenchida, o eleitor nulo tem o mesmo direito de cobrar, fazer oposição ou mudar de ideia e ir para a situação, assim como qualquer eleitor de qualquer candidato. Até porque o/a presidente será presidente de todos – não só dos que votaram nela/e.

Voto nulo com a consciência tranquila e limpa. É minha manifestação de que não me senti contemplado por nenhuma das candidaturas.


Eu me anulo como cidadão? De forma alguma: vou me posicionar, como todos, com a cadeira ocupada...


Além do mais, o voto no presidente é apenas um dentre outros. Votei em Todd Tomorrow e o ajudei a aumentar a bancada do PSOL na Assembleia paulista, mesmo ele não tendo sido eleito: esta duplicou.


Votei em Luciana Genro e a ajudei a iniciar a construção de um capital político que lhe será importante no futuro.


Votei em Thiago Aguiar para deputado federal e ele não foi eleito, mas representei um voto de auxílio a sua bancada, novamente.


Votei em Skaf como voto útil contra Alckmin. Não houve segundo turno, mas me posicionei de forma crítica ao governador – e a ele serei oposição.


Votei em Suplicy e ele não ganhou, mas meu voto entre milhares o gabarita a concorrer a outros cargos.


Fiz, portanto, meu papel nas eleições. Agora, porque entre Dilma e Aécio, não vejo possibilidade nem de voto útil, me "anulo como cidadão"? Não tenho "direito de cobrar" porque me falta "legitimidade moral"? E todos os outros votos, que representam meu posicionamento político soberano, não servem de nada? Quer dizer que só o de presidente no segundo turno é que importa?


Lamento.


Essa é uma visão muito reducionista do eleitor nulo e da própria democracia. Prova de que alguém precisa olhar com mais atenção o que considera ambas as coisas – e prova definitiva de que muitos brasileiros e brasileiras ainda têm de amadurecer bastante sua ideia de Estado democrático.

segunda-feira, agosto 04, 2014

Oito motivos para ter uma chuca portátil





Minhas meninas glamorosas e amadas do meu coração... Hoje, Mama tem um assunto muito importante e higiênico para comentar com vocês: a chuca!

Sim, eu sei... Já falamos sobre esse fundamental procedimento em outras ocasiões, como no texto do Kit Passivo
, e eu sei que todas as passivas – e, principalmente, as ativas, que recebem toda a carga do... Errr... Produto – reconhecem sua importância, não é?

O problema é: como fazer a chuca, se, de repente, falta a principal ferramenta: a duchinha, o chuveirinho, o baldinho com canudo de plástico (tá, gata, a gente explica essa depois...)?

Mama sabe que já aconteceu com você, e não é difícil de acontecer. 

Por exemplo: depois de dois meses teclando no Grindr, o bofe finalmente diz que tem como encontrar a senhora: logo depois do expediente. E aí? Não dá tempo de voltar pra casa e procurar o balde, meu amor... Ou, então, a senhora viaja com seu marido em uma lua de mel há muito esperada e descobre, estupefata, que o hotel que a senhora pagou no Decolar.com NÃO TEM chuveirinho! Aquenda! Ou, então, pior... A senhora está passeando em um lugar desértico – como o centro de São Paulo sob o governo Alckmin –, vê aquele boy magia e descobre que não tem água suficiente no Cantareira para um banho demorado com “chuca-máster”...

O que você faz?

( ) Faz promessa e vai na fé: os Deuses não te deixarão cair... Nem sujar.
( ) Deixa o bofe para a amiga limpinha – e se lamenta para sempre.
( ) Encara a fama de “chequeira”: ele sabe onde vai estar entrando*!
(X) Tira a chuca portátil da bolsa. Diva!

Sim, tesudinhaaas. Mama fica bege porque tá cheio, ó, de passiva que não sabe que existe essa facilidade que veio direto das mãos divinas – e ela está ali, ao alcance das suas, na farmácia mais próxima. 

Basta se dirigir até lá e pedir uma ducha ginecológica, ou ducha vaginal, e você será apresentada para a melhor ideia que o ser humano teve desde o sexo gay.

A tal ducha é essencialmente um bulbo de borracha onde a água é posta e vem com duas cânulas, que se encaixam uma na outra. Usadas em conjunto, elas servem para fazer a higiene vaginal... Mas o que ninguém te conta – e é oficial – é que a cânula menor, sozinha, serve para a higiene anal. De verdade, mona: oficial, registrada, reconhecida. Foi feita para isso mesmo. Confira na bula e na embalagem com “aplicador retal”. Luxo!


Tanto é que, se você não quiser passar pelo carão de pedir uma “ducha vaginal”, para não pensarem que você nasceu com periquita, pode solicitar uma “ducha íntima feminina” ou “ducha higiênica feminina”, embora Mama não ache que isso necessariamente funcione: primeiro, questiono o “feminina”, porque, afinal, homem também tem c*. Segundo, sempre haverá uma balconista lesada que insistirá em explicar para você – e para todos os clientes da farmácia – que a cânula maior é para higiene vaginal e a menor, para a “ANAL!”, como aconteceu com Mama da última vez.

Se isso acontecer com a senhora, faça a phyna – olhe, altaneira, para as pessoas curiosas, com aquela cara de “sim, eu lavo o c*. Você não?” e pague com o cartão Itaú Gold. Quem sabe não rola aquela promoção de 50% de desconto do Luciano Huck
?

Agora, se nada disso te convenceu, veja os motivos por que adotar a chuca portátil.

1. Porque é portátil: você pode carregá-la sempre consigo, e ela é pequena o suficiente para caber na mochila, na bagagem de avião ou na sua bolsa Louis Vuitton
.

2. Porque é higiênica: e, aqui, eu não estou falando das finalidades do apetrecho: é porque, depois de usada, ela é facilmente higienizada mesmo. Basta seguir as instruções e usar água quente. Exceto, claro, se você estiver em São Paulo, onde não há água...

3. Porque é anatômica: como Mama já falou, a dita-cuja foi feita para isso... E funciona muito melhor do que a garrafinha de Gatorade ou o frasco de desodorante Avanço que a senhora vem usando
...

4. Porque é barata: a princípio, o preço parecerá salgado, em torno de R$ 30... Mas compensa a longo prazo, já que a senhora vai receber o troco em bofes e não precisará de outra tão cedo.

5. Porque é exclusiva: a senhora sempre terá certeza de que aquele equipamento frequentou apenas a sua cavidade. Com o chuveirinho do hotel, não dá pra ter certeza, gata...

6. Porque é discreta: você pode pedir licença ao bofe ou à sua amiga para ir ao “toilette”, e eles nunca saberão que a senhora já saiu de lá de chuca feita.

7. Porque é segura: com o bulbo, a senhora não corre o risco de pôr água demais e estrelar uma versão pós-moderna – e marrom – de Mar em Fúria
. Sem o Mark Wahlberg ou o George Clooney.

8. * Porque é chuca, oras: Mama tem um recado para aquelas adeptas do “encara a fama de ‘chequeira’”: mona, há quatro coisas que nunca voltam no mundo: as cinzas lançadas ao vento, o líquido que cai sobre a terra, a palavra impensada... E o ativo dotado para quem você não fez chuca.

... E tenho dito!
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