ela e ela: benedetta e bartolomea

Benedetta Carlini nasceu em Vellano, Itália, no ano de 1590, a mãe quase morreu durante o parto e o pai, desesperado, prometeu que se tudo desse certo ofereceria a criança ao Senhor. E assim foi que Benedetta foi prometida para Cristo. Aos 9 anos mudou-se para um convento em Pescia, onde foi fazendo carreira de freira mística e líder do monastério. Tinha visões, premonições, aparecia com chagas e estigmas no corpo e assim foi adquirindo uma aura mística que seduziu suas irmãs, o que explicaria o fato dela ter sido eleita abadessa com tão pouca idade.

Seus transes e gritos foram ficando mais intensos e seus superiores resolveram designar uma acompanhante para ficar ao seu lado, na cela: a irmã Barlolomea Crivelli. A fama de milagreira de Benedetta já se espalhava para fora dos portões do convento e o Papa Paulo V teve que pedir uma investigação mais apurada sobre os feitos místicos da abadessa da Congregação Mãe de Deus.

Na primeira investigação, depois de vários testemunhos e de coletar várias evidências, os investigadores do Papa resolveram que as chagas e as visões de Benedetta eram legítimas e Benedetta ficou mais poderosa ainda dentro do convento. Algum tempo depois, não se sabe por que, algumas freiras começaram a fazer oposição a Benedetta e suas visões, suas chagas e, principalmente, à administração do convento. Tanta era a insatisfação lá dentro que chegou aos ouvidos do Papa, que ordenou uma segunda investigação.

Foi aí que souberam, através da acompanhante Bartolomea, o que acontecia de verdade dentro da cela delas. Segundo o relato oficial da Igreja: 'Esta irmã Benedetta, então, durante dois anos seguidos, pelo menos três vezes por semana, de noite, depois de tirar a roupa e ir para a cama, esperava que sua acompanhante tirasse a roupa e, fingindo precisar de sua ajuda, chamava-a. Quando Bartolomea se aproximava, Benedetta agarrava-a pelo braço e atirava-a à força na cama. Abraçando-a, ela a colocava embaixo de si e, beijando-a como se fosse um homem, falava-lhe palavras de amor. E ela ficava se mexendo em cima dela até que ambas se corrompiam. E assim ela a segurava por uma, duas e às vezes três horas'.

Quando os inquisidores pediram que Bartolomea desse mais detalhes ela disse que Benedetta 'agarrava sua mão à força e, colocando-a embaixo dela, fazia-a colocar o dedo em seus genitais e mantendo-o lá ela ficava mexendo até se corromper a si mesma (...) e também à força ela punha sua própria mão embaixo da sua acompanhante e o dedo em seus genitais e a corrompia'.

Bartolomea escapou da punição dizendo que Benedetta se fazia de Cristo para atraí-la e enganá-la e pedia-lhe que se deitasse com ele, afinal ela era uma noiva de Cristo. Benedetta, que permaneceu em silêncio e alegou que por estar em transe não se lembrava de nada, foi condenada à prisão, onde permaneceu 35 anos até morrer de febre e cólicas. (por Cilmara Bedaque e Vange Leonel)

livro: "Atos Impuros"
sub-título: a vida de uma freira lésbica na Itália da Renascença
autora: judith c. brown
editora: brasiliense

É impressionante o abismo de silêncio que caiu sobre o processo clerical da Abadessa Benedetta, conforme nos relata Judith Brown (1987), em seu livro 'Atos Impuros'. Um longo processo envolveu essa mulher e nada se falou sobre seu envolvimento com Bartolomea, que somente pôde ser lido através das palavras que não puderam ficar registradas. A descoberta pela autora, na década de 1980, deste fascinante e rico documento histórico foi um evento de grande importância.

Não só é a história revelada da subida e descida de uma poderosa mulher em uma igreja, mas é nas entrelinhas que a lesbiandade também foi documentada. 'Atos Impuros' é uma pequena jóia de investigação. Um livro que relata tudo o que ja sabíamos sobre a história da mulher, religião e sexualidade, em uma emocionante narrativa.

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