“O DEUS MÃE”

A construção de uma identidade de gênero para Deus, segue uma tendência histórica, machista e preconceituosa frente à questão do feminino na divindade. Em tese, Deus não tem sexo...mas possui gênero, e esse está vinculado ao masculino. Nunca pensamos em uma Deusa, nos relacionamos, sempre, com uma divindade masculinizada, ou para ser mais exato, nos relacionamos com a divinização da masculinidade. Herança dos cultos medianitas, ainda vinculado às tribos que cultuavam uma divindade em um monte no deserto nas mediações do Egito e Palestina. Esse Deus ganhou forma, corpo e funções tipicamente masculinizadas, e mais, ganhou um nome Iahweh !

Seguem as pesquisas históricas, que nos apontam o papel do feminino na sociedade ocidental, e sem muito entusiasmo e empatia, a mulher ocupa a mais de dois milênios uma posição inferior frente ao homem, nas suas relações sociais e religiosas, por isso Deus tem que ser Deus, e não Deusa. Até o século XVIII a sexualidade era um termo desconhecido, esse vem apenas, segundo Foucault (1986), a ser introduzido no século XIX, pertencendo assim às sociedades modernas e pós-modernas. O que se tinha, então, era uma concepção dominante de um único sexo ou monismo, “one-sex-model” , as mulheres aqui são concebidas como sendo um “homem invertido”. O útero era o escroto feminino, os ovários eram os testículos, a vulva um prepúcio e a vagina era um pênis (Laqueur,1989). A ordem de importância, seguia a concepção fálica, ou seja a superioridade masculina, pois tem o falus, e a inferioridade feminina, ou um sujeito “menos desenvolvido”, invertido e à margem da perfeição metafísica. Na passagem do século XVIII para o XIX que surgiram as distinções do conceito de unicidade e perfeição do corpo masculino para o two-sex-model , antes tudo que se estabelecia como característica de convivência estavam presas a perfeição do corpo do macho, ou seja, a relação entre reprodução, sexo, orgasmo e sujeição.

Contudo, mesmo havendo a distinção anatômica e fisiológica, a distinção entre os gêneros continuou preconceituosa, atribuindo a Deus um status ideológico masculinizado, atendendo aos apelos da sociedade burguesa, capitalista, individualista, nacionalista, imperialista e colonialista dos paises europeus. De homem invertido, a mulher ganha o conceito de complemento do homem, mantendo a posição inferior. O homem é voltado para o mundo social amplo em seus conceitos econômicos e políticos, e segundo Parker (1991), a mulher ocupa a função doméstica, do mundo doméstico limitada à esfera familiar. Um fato agravante é a potência de Deus como gênero masculino, refletindo a tendência social da bissexualização e o reforço do masculino sobre o feminino, ressaltando a mulher em sua fragilidade corpórea (ossos e nervos), e também quanto ao prazer erótico, ou seja a mulher é frágil, desprovida do calar vital e menos privilegiada que os homens.

Falar de um Deus mãe pode parecer estranho, pode dar a entender uma interpretação gay de um travestismo da identidade de gênero dessa potência. De uma heresia, ou deboche frente à esfera sagrada do Deus trinamente masculinizado, Pai, Filho e Espírito Santo. Mas Deus mãe, evidencia o valor do lado materno e dignifica o gênero feminino nessa potência. O Deus pai, todo poderoso, onisciente, onipotente e onipresente está desatualizado, ultrapassado e decrépito frente ao apelo ideológico que ele carrega em si mesmo. Deus encarado apenas dentro do gênero masculino carrega um preconceito, e uma valorização desigual, desonesta, e desonrosa para assegurar o ônus de uma identidade, ou de um resgate à figura masculina, que se encontra na atual sociedade em decadência. Da mesma forma que o feminino ocupa seu espaço na sociedade, ele também tem que ocupar na religiosidade, e na religião. Cultuar uma divindade masculinizada é manter o “status quo” da marginalização contra o papel social da mulher. E ratificar o culto à masculinidade do século XIX. Uma vez que, segundo Laqueur, a reprodução das desigualdades sociais e políticas, entre homens e mulheres, se justificava pela norma natural do sexo. Em seguida, de efeito torna-se causa. A diferença de gêneros ganha um acordo, e passa a ser vista dentro das qualidades morais e sócias dos humanos. Agora, quem pode ser invertido sexualmente é o próprio homem. Demarcando a anormalidade frente às subjetividades sexuais masculinas. A partir da inferioridade sexual e política, da fragilidade do sexo, dos invertidos sexuais e da mulher, a FEMINILIDADE passará a atormentar o imaginário burguês. Algo precisava ser feito, para que esse estado de decadência, não fosse tomado como norma. Ou seja, o homem burguês sobreviveu a Revolução Francesa, a Industrial e as guerras, mas não conseguiu evitar a desordem no papel por eles representados. Tentando reconstruir o que está sendo diluído, a consolidação de uma masculinidade hegemônica a todos os homens.

O vitorianismo rege esse ideal, as preocupações da feminilizaçao de alguns homens fizeram com que se criassem para si umas séries de papeis, e traços a serem representados. Ser homem no século XIX significa não ser mulher, e jamais homossexual. Vestimentas, forma de andar, maneira de se comportar e falar, o contorno do corpo masculino se estabelecem na representação do gênero. Contudo, Freud mostra um estado de decadência, ao introduzir o conceito da bissexualidade, reforçando o imaginário burguês. Com o conceito, e os crescentes avanços feministas, que começavam a ganhar contorno na época levam a crise da MASCULINIDADE. Deus, aqui, serviria bem ao lado materno. Um Deus não centrado na autorização de uma identidade de gênero, mas que dignifica de igual modo os gêneros masculino e feminino, bem como o papel sexista representados nele mesmo. Deus, mãe e pai, todo poderoso é a compreensão de uma igualdade da mulher e do homem na atual sociedade. E a valorização plena da criação sem disputas, e marginalizações do humano, que se encontra sob duas formas complementares uma a outra, e de igual importância seja qual for o papel de gênero

Pode-se, assim, dizer de um lado materno de Deus, o Deus que cria, que dá a luz, que é amor e amamenta sustentando sua criação. Um Deus que protege, que dá colo, que participa da experiência humanitária, e se torna sensível, e suscetível a ela. Tem-se um Deus feminino equilibrado, e complementado no masculino, ou seja rege, governa, administra. Assim caminha a humanidade, o homem, que aprende a conviver com seu lado feminino, sem se atormentar com ele, e sem destruí-lo, e a mulher, que sai em busca do seu lado masculino, descobre-se para vida, e para sociedade, muito além de um papel coadjuvante ou vegetativo, mas participativo, e em igualdade nesse universo complexo.

Deus apenas como pai, é uma construção arrogante, espúria, desequilibrada, infantil e delinqüente. Uma superprojeção fálica, e libidinosa dos desejos dominadores, e desenfreados de um homem e de uma mulher sem coragem para encarar a vida, e suas expressões.

A figura do Deus mãe, ou a expressão da figura materna de Deus, trazem a nós, no presente século, o grito libertador, e justo pela humanização da religião. De um cristianismo igualitário, justo e não preconceituoso, ou excludente. Cria em nós o sentimento de uma sociedade, que preza pelo bem comum, e liberdade de todos os seus membros, como um todo simbólico no Deus mãe e pai, que nos da a vida. Em outras palavras, a elevação em supremacia de um determinado gênero sobre o outro, é a própria agressão de todo o humano, masculino efemino em equilíbrio. Um deus tipicamente masculino é necessariamente sanguinário, uma deusa tipicamente feminina libidinosa e fértil, um Deus mãe e pai, concentram em si, todo o caráter da criação perfeita, que não é uma criação de gêneros, mas de liberdade e harmonia.

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