Homofobia: maior ou mais visível?

Na edição nº 79 da Sex Boys, escrevi sobre os desejos e os desafios para 2011. O combate à homofobia foi o mote, diante das notícias de agressões a LGBTs. Infelizmente, novos fatos instigam uma revisita ao tema.

por João Marinho

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Quando o leitor receber esta revista, estaremos em abril/2011, a apenas dois meses para o meio do ano e para a época da Parada Gay de São Paulo, a maior do mundo – mas não parece que a violência homofóbica tenha dado trégua.

Apenas durante o Carnaval, para citar alguns casos, tivemos, na Bahia, um gay atirado pela janela de um ônibus em movimento por assaltantes que o identificaram como homossexual (!), outro espancado em uma boate catarinense por dançar com outro homem e um casal gay agredido a chineladas e facões por um casal hétero, na mesma Santa Catarina.

O mais recente caso ocorreu novamente em São Paulo, na região da Rua Augusta. O local já foi palco de agressões no ano passado, mas continua – testemunho meu – com um policiamento patentemente deficitário. O que o poder público espera para reforçá-lo é ainda um mistério...

Willyan Hoffmann da Silva, Vinícius Siqueli de Paula, Daniel Moura Fragozo e Milton Luiz Santo André, skinheads, agrediram o militante gay Guilherme Rodrigues, que, além de mal-assessorado na polícia ao falar de homofobia, foi deixado por ela na rua (!!) e terminou novamente abordado pelos agressores.

Repercussões e polêmicas

Repercutindo a problemática da violência contra LGBTs, a Parada de São Paulo voltará ao tema da homofobia em 2011 – "Amai-vos uns aos outros: basta de homofobia". A revista Época, edição 668, de 7 de março de 2011, relata uma escalada da violência que ocorre fora do Carnaval, que, diz a revista, consagra os homossexuais.

Vale dizer que, no entanto, que isso tudo se baseia em estatísticas imperfeitas. Apenas o Estado do Rio registra ocorrências homofóbicas como tais. Nacionalmente, a estatística mais famosa, do Grupo Gay da Bahia (GGB), é feita a partir de notícias – e só uma pequena parcela dos casos chega aos jornais.

Depois, não existia tradição entre gays, lésbicas e afins de denunciarem agressões e atribuírem a elas motivação homofóbica – e como a homofobia também não é crime, dados oficiais são apenas um sonho.

Diante disso, é inevitável haver uma polêmica: a homofobia tem crescido, ou só está mais visível? Há ativistas que apostam na segunda alternativa. Uma militante lésbica propôs um questionamento: como o Rio, que segundo a mesma Época, recebe 800 mil turistas homossexuais por ano, pode ser uma cidade homofóbica e sustentar esses números?

Crescimento

Sim, é mais agradável a ideia de que a aceitação, e não a violência, tem crescido. Até há base para isso, corroborada por especialistas e por pistas dadas pelas parcas estatísticas: à medida que crescem a aceitação e a exposição dos LGBTs, os grupos que os rejeitam se sentem mais ameaçados ou com mais raiva e se tornam mais violentos.

No entanto, é preciso cuidado com isso, pois se tende a mascarar a gravidade da coisa. Ora, se o argumento é verdadeiro, a conclusão lógica é que os crimes de maior gravidade por motivação homofóbica, como os homicídios, realmente pioraram. Em outras palavras, os gays até sofrem hoje menos homofobia – mas, quando sofrem, esta tende a ser mais grave, mais intensa, mais virulenta. O resultado é uma escolha de Sofia. O que é melhor? Sofrer mais agressões, menos severas, mais vezes; ou sofrer menos agressões, mas mais violentas e poder ir a óbito numa delas?

Ademais, se é verdade que a homofobia não aumentou e só está mais visível, somos levados a pensar que a situação é terrível. Quer dizer, então, que há um sem-número de gays assassinados, agredidos, espancados e defenestrados que só não apareciam porque se falava menos? Se tudo que temos noticiado já acontecia, isso torna a realidade pior, e não melhor do que a ideia de que a homofobia tem recrudescido.

Trata-se, portanto, de uma falsa polêmica. Se for verdade que, em números, os casos de homofobia não têm crescido, parece verdade que eles cresceram em gravidade. Isso torna o problema sério e dá argumentos para dizer que, sim, a homofobia aumentou, pelo menos em uma característica.

Afinal, se antes, você passava por dezenas de pessoas e ouvia piadas e agressões verbais da maioria, mas voltava para casa, hoje você pode passar por dezenas que não se importam com sua sexualidade – mas se deparar com uma que espanca e mata. Você se sente mais seguro assim? Eu não.

Texto publicado na revista SEX BOYS 82 (15/04 nas bancas).

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