Quando Umberto Eco afirmou que as redes sociais deram voz aos imbecis, resumiu, de certo modo, um dos grandes desafios impostos pelos primeiros anos do século XXI: aprender a selecionar aquilo que permitimos que chegue até nós por meio delas. É impressionante como devaneios pessoais, que outrora não passariam de meras esquisitices particulares, hoje ganham ares de intelectualidade, autoridade e verdade.
Não é sem razão que os Bolsonaros se transformaram em mitos, Olavo de Carvalho passou a ser chamado de filósofo e Danilo Gentili, por alguns, passou a ser encarado como intelectual. Tempos estranhos, em que o idiota da pequena aldeia já não precisa permanecer restrito à sua insignificância local: agora, ele pode viralizar seu ódio pessoal e contaminar milhões.
Dentro dessa mesma lógica que marca o início deste século, algumas coisas igualmente estranhas acontecem no interior da comunidade LGBT. Curiosamente, porém, a fórmula utilizada para produzir divisões é antiga. A Inglaterra, valendo-se de estratégias semelhantes, soube explorar particularidades e antagonismos para colocar povos uns contra os outros, acentuando diferenças internas em detrimento da unidade.
Na legítima busca por inclusão e visibilidade, houve o esforço de dar forma, espaço e representação a todos os grupos que compõem o acrônimo LGBT. E considero essa iniciativa fantástica. Afinal, somos expressão de uma diversidade conceitual e social que constrói sua própria identidade em contraste com o modelo heteronormativo tradicionalmente imposto. Nosso modo de existir deve ser pensado a partir de nós mesmos, de nossos significados, significantes, experiências e orgulho. Foucault já apontava nessa direção ao defender, em outros termos, a necessidade de inventarmos nossos próprios modos de existência.
O problema de toda essa empreitada surge, a meu ver, quando chegamos justamente àquilo que, durante séculos, constituiu uma das experiências mais dolorosas para nós: a homofobia — ou, mais precisamente, à tentativa de desconstrução do próprio conceito.
Tornou-se comum, dentro do movimento, reclassificá-la, fragmentá-la e relativizá-la, atribuindo-lhe outros nomes e outros parâmetros, quase sempre em nome de uma tendência contemporânea de particularização das identidades e das formas de visibilidade. É uma tendência que considero perigosa justamente porque pode fazer com que se perca de vista aquilo que há de comum na experiência histórica do preconceito.
Assim, o preconceito sofrido por uma lésbica deixa de ser chamado de homofobia e passa a receber o nome de lesbofobia; o preconceito sofrido por um gay torna-se gayfobia; aquele dirigido ao bissexual, bifobia; aquele dirigido à pessoa transexual, transfobia — e assim sucessivamente. Cada experiência passa a ser inserida na letra específica do acrônimo com a qual a pessoa se identifica, enquanto o conceito mais amplo vai sendo abandonado.
Pode não parecer evidente, e talvez parte da comunidade LGBT ainda não tenha percebido isso, mas a excessiva particularização das identidades pode acabar destruindo consensos, enfraquecendo a percepção de unidade e fragmentando politicamente o movimento.
Eu sinto orgulho de ser homossexual porque sou gay. E entendo que a construção histórica do orgulho LGBT sempre esteve profundamente ligada à recusa da vergonha imposta às pessoas que se relacionam afetiva ou sexualmente fora do modelo heteronormativo. O preconceito lançado contra nós nasce, em grande medida, justamente da rejeição social a essas formas de desejo, afeto, identidade e constituição familiar.
Isso não significa, evidentemente, que grupos específicos não devam possuir movimentos próprios. Ao contrário: considero fantástico que lésbicas, gays, bissexuais, pessoas trans e outros segmentos tenham organização, representação e voz próprias. O problema começa quando esses movimentos se transformam em pequenos “nacionalismos”, fechados em si mesmos e incapazes de reconhecer a experiência comum que sustenta historicamente o movimento.
Uma lésbica não precisa negar aquilo que a aproxima de um gay para afirmar aquilo que lhe é próprio. Um bissexual não precisa rejeitar a história compartilhada com outros grupos para reivindicar suas especificidades. Uma pessoa trans também não precisa ter sua experiência apagada para que se reconheçam pontos comuns de enfrentamento social.
A História oferece exemplos eloquentes de como a exacerbação das particularidades pode ser utilizada politicamente para enfraquecer estruturas maiores. A atuação britânica sobre os territórios e povos do antigo Império Otomano, especialmente entre os séculos XIX e XX, demonstra como diferenças étnicas, religiosas e nacionais puderam ser mobilizadas e aprofundadas por interesses externos, contribuindo para conflitos cujas consequências atravessaram gerações.
É nesse sentido que vejo também determinadas discussões atuais.
Quando Mara Maravilha fala em “Adão e Ivo” na televisão, por exemplo, entendo que a fala não se dirige propriamente à identidade de gênero, mas à possibilidade de duas pessoas do mesmo sexo se relacionarem, coabitarem, constituírem família e terem seus direitos reconhecidos. Nesse sentido, considero mais adequado compreender a manifestação dentro do campo histórico da homofobia.
É fundamental que todos tenham visibilidade dentro da comunidade LGBT. É fundamental que todos tenham representação e voz. Entretanto, essa visibilidade não deveria ser construída pela eliminação de uma memória comum nem pela dissolução dos conceitos que historicamente nomearam o preconceito que nos atingiu.
A homofobia não é uma abstração. Ela possui existência histórica, social e epistemológica. Sua relativização ou sua fragmentação excessiva pode enfraquecer a compreensão coletiva do preconceito e, em última instância, fragilizar direitos e garantias conquistados ao longo de décadas.
É possível reconhecer as particularidades sem destruir o todo. É possível falar de experiências específicas sem transformar cada letra do acrônimo em uma ilha. É possível afirmar identidades diversas sem abandonar aquilo que historicamente nos reuniu.
O orgulho nasce justamente da recusa em aceitar a vergonha que nos foi imposta. E o preconceito que historicamente incidiu sobre relações afetivas e sexuais entre pessoas do mesmo sexo recebeu um nome: homofobia.
De resto, permanecem as redes sociais, dando voz aos idiotas como se a mera capacidade de viralizar uma opinião lhes conferisse idoneidade intelectual — ou como se alguns milhares de compartilhamentos equivalessem à conquista de um Prêmio Nobel.
Olá, meu nome é Marcos Paone. Estou na capital paulista, sou jornalista, sou cristão e faço parte de uma igreja inclusiva. Eu conheci este blog através do canal de humor cristão "Tipo Assim" no YouTube. Em um vídeo publicado no "Tipo Assim" em abril deste ano com o título "Curiosidades do Mundo Gospel", o youtuber Franklin Medrado citou este blog por causa de uma imagem com dois homens sem camisa, acompanhada da passagem "Deus ama ao que dá com alegria" (2 Corintios 9:7). Ao clicar no menu, essa imagem ainda aparece neste blog, apesar de atualizações recentes. Não devemos cometer o erro de pegar uma passagem isolada e usar ela como uma verdade única. Na verdade é necessário ler a passagem toda e analisar o contexto da mesma. Se vocês fizessem isso, saberiam que essa passagem de 2ª Coríntios diz respeito à ofertas na casa de Deus. Usar esse versículo incompleto dessa forma, pode passar a impressão de que vocês estão juntando a palavra de Deus com as suas sexualidades, para polemizar no intuito de aparecer. Se for o caso, saibam que o meio inclusivo não precisa disso. Se não for o caso, recomendo que vocês retirem essa imagem do blog pelo motivo informado. Afinal de contas, se nem travesti é bagunça, por que logo a casa de Deus vai ser? Em tudo que fizerem, peçam a direção do Santo Espírito. Deus os abençoe.
ResponderExcluirOlá, meu nome é Marcos Paone. Estou na capital paulista, sou jornalista, sou cristão e faço parte de uma igreja inclusiva. Eu conheci este blog através do canal de humor cristão "Tipo Assim" no YouTube. Em um vídeo publicado no "Tipo Assim" em abril deste ano com o título "Curiosidades do Mundo Gospel", o youtuber Franklin Medrado citou este blog por causa de uma imagem com dois homens sem camisa, acompanhada da passagem "Deus ama ao que dá com alegria" (2 Corintios 9:7). Ao clicar no menu, essa imagem ainda aparece neste blog, apesar de atualizações recentes. Não devemos cometer o erro de pegar uma passagem isolada e usar ela como uma verdade única. Na verdade é necessário ler a passagem toda e analisar o contexto da mesma. Se vocês fizessem isso, saberiam que essa passagem de 2ª Coríntios diz respeito à ofertas na casa de Deus. Usar esse versículo incompleto dessa forma, pode passar a impressão de que vocês estão juntando a palavra de Deus com as suas sexualidades, para polemizar no intuito de aparecer. Se for o caso, saibam que o meio inclusivo não precisa disso. Se não for o caso, recomendo que vocês retirem essa imagem do blog pelo motivo informado. Afinal de contas, se nem travesti é bagunça, por que logo a casa de Deus vai ser? Em tudo que fizerem, peçam a direção do Santo Espírito. Deus os abençoe.
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