É
surpreendente nos depararmos com algo improvável, que foge às explicações
físicas. Mais surpreendente ainda é quando esse algo nos afeta diretamente,
muda nossa vida, nossa rotina, nossas expectativas. Há, nesse tipo de
acontecimento, uma espécie de ruptura do curso ordinário das coisas, como se o
mundo, por um instante, cedesse àquilo que não pode ser previsto nem controlado.
E, no entanto, mesmo esse rompimento não garante transformação; ele apenas
interrompe — não refaz.
Os evangelhos
dizem-nos dessa improbabilidade: os milagres de Jesus... Mas, curiosamente,
também nos apontam algo inquietante: milagres não operam milagre. O fato
extraordinário não gera, por si só, uma reconfiguração interior, ele se impõe
aos sentidos, mas não necessariamente alcança a vontade.
Por muito
tempo, agi como uma pessoa que acreditava na humanidade. Era, sim, um
humanista, acreditava no valor intrínseco do ser humano, na sua busca pela
razão, no belo ou na beleza advindas da poesia, da literatura, das artes e,
sobretudo, defendia a autonomia e o potencial de autorrealização do indivíduo
que, ao meu sentir, o fim último dessa autorrealização seria a descoberta do
bem ou a transformação do egoísmo em um ideal maior, coletivo, sublime. Havia,
nessa visão, uma confiança silenciosa de que o homem, ao tomar consciência de
si, se inclinaria naturalmente ao bem.
Em outras
palavras, acreditava ser o homem fruto de seu meio e capaz de influenciá-lo,
através de uma postura de vida que valoriza a dignidade, racionalidade e
capacidade, modificá-lo. O mal, nesse horizonte, era sempre explicado — nunca
assumido como raiz. Era circunstância, nunca estrutura. Era desvio, nunca
inclinação.
Era jovenzinho
quando me vi frente a essas questões, nunca julguei as ações humanas fora do
contexto em que foram empregadas. A pobreza, a solidão, o isolamento, a
incapacidade de muitos em agir em favor do belo, da música, da comunhão, da
coletividade eram vistas, por mim, como fruto do empobrecimento da alma, e o
remédio não se daria fora da cultura, da educação, das políticas públicas,
enfim, a humanidade sempre operando humanidade. Havia um otimismo metodológico:
se corrigirmos as condições, corrigimos o homem. Se ampliarmos horizontes,
ampliamos a ética.
Cheguei, à
época, a escrever um ensaio sobre a trindade e a dança eterna do Deus triuno,
nele sustentava abertamente que, para dançar (com Deus), você teria de sair de
si mesmo e mergulhar no ritmo... daí faria parte da harmonia, mas havia aí um
pressuposto não examinado: o de que o homem quer, de fato, sair de si. O de que
ele deseja, espontaneamente, abandonar o centro que constrói para si mesmo.
Então, um dia,
não tão distante desses dias atuais, descobri literalmente que milagres não
salvam, o belo não transforma e a razão, por mais cheia de verdades, ela é
conduzida a formas de individualidades inúmeras, transformando-a, em último, em
um conceito meramente narrativo e pessoal do que seja, enfim, a verdade última.
A verdade, quando passa pelo crivo do ego, deixa de ser verdade para tornar-se
versão. E versões não salvam — apenas justificam. Isso não são apenas palavras,
mas a constatação de que o ser humano é mau. Não apenas nas suas ações
visíveis, mas na sua estrutura de vontade, na inclinação silenciosa que o
conduz sempre de volta a si mesmo, mesmo quando fala em coletivo, mesmo quando
invoca o bem.
Senão,
vejamos: nas Escrituras há a passagem de Lucas 17, 11-19. Ela narra a história
de dez leprosos que foram milagrosamente curados. Eu pergunto: “há algo mais
belo do que isso?”. Dez corpos restaurados, dez destinos reescritos, dez
histórias arrancadas da exclusão. Pois é, dos dez apenas um voltou em gratidão
e agradeceu. A ele foi dito: “Levanta-te e vai; a tua fé te salvou”. Aqui há
uma distinção brutal: todos foram alcançados pelo milagre, mas apenas um foi
atravessado por ele. Os outros nove receberam o efeito, mas não acolheram o
sentido. Foram beneficiados, mas não convertidos. A cura resolveu a condição
deles — não a direção deles.
E a crítica
que Jesus estabelece, logo após multiplicar pães e peixes à multidão faminta:
"Vocês me procuram, não porque viram os sinais, mas porque comeram os pães
e ficaram satisfeitos". O milagre foi reduzido a consumo. O sinal foi
esvaziado de significado e reinterpretado como benefício imediato. Eles
receberam o milagre da provisão, mas não compreenderam o significado
espiritual. Muitos dos que comeram aquele pão o abandonaram logo depois, quando
o discurso se tornou doutrinariamente exigente (João 6, 66). Permanecer
enquanto há benefício é fácil; permanecer quando há exigência revela outra
coisa: revela o limite da disposição humana para o que ultrapassa o próprio
interesse.
Milagres não
operam milagre. O problema nunca foi a ausência do extraordinário, mas a
incapacidade de responder a ele. Se olharmos para o cenário cotidiano, veremos
que o Brasil está fora do mapa da fome, supermercados lotados, pessoas
comprando, três refeições diárias, o estudo e a oferta de cursos nunca foram
tão intensos quanto são hoje... ainda assim há pessoas que amam Bolsonaro e
votarão em seu filho como símbolo do desprezo a Lula. Não se trata de carência
material, nem de falta de acesso, nem de ausência de informação. Trata-se de
escolha e ela revela inclinação. A humanidade é má, o egoísmo das ações fala,
grita, urra em detrimento da harmonia. Não levam em conta a morte que recaiu
sobre nós, brasileiros, por falta de vacina — pelos caprichos de Jair Messias
Bolsonaro. Um ser demente de bondade, decrépito de virtude, e, ainda assim,
capaz de atrair milhões como ele. Pessoas que dizem ter fé, mas flertam o tempo
todo com o torpor da morte, no qual jazem suas almas e esperanças.
Barrabás, de
novo, é escolhido em detrimento de Jesus... o povo ama a morte. Não a morte
como tragédia — como escolha, como identidade. Bolsonaro, Trump e tantos
outros maus elementos vestem o manto da santidade, enquanto Cristo sangra na
cruz. Seus milagres nada representam; a imagem do circo substitui o anúncio,
substitui a convocação — “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e
sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt 11,28).
Preferem o
charlatão... aquele que, sordidamente, retardou a compra da vacina Covaxin e
disseminou curas sem eficácia comprovada — cloroquina... não são erros
administrativos, não... são escolhas que priorizam a narrativa pessoal em
detrimento da vida alheia. O incentivo à imunidade de rebanho por contágio, o
descumprimento ostensivo de medidas preventivas — máscaras, por exemplo — tudo
isso não aponta para ignorância... aponta para desprezo que, diferentemente do
erro, não pede correção — pede audiência. Encontrou-a.
A indiferença
pela dignidade humana em sua forma mais básica: a sobrevivência. Sem um único
pingo de remorso, de dor, de empatia. Enquanto o milagre insiste em provar que
a vida tem valor absoluto, ainda assim ele não salva quem se recusa a ser
atravessado pelo seu sentido.
E é aí que a
tragédia se revela inteira: diante do milagre da vida e da possibilidade de
comunhão, muitos preferem o charlatão. Bolsonaro se faz senhor — não porque
usurpou um trono, mas porque o trono estava vazio por dentro. O íntimo de cada
um que o escolheu já havia decidido antes de qualquer discurso, antes de
qualquer mentira. A mentira apenas confirmou o que a vontade já queria.
Jesus pode ter
operado um milagre na sua vida infeliz e, ainda assim, você não está salvo.
Porque o milagre toca o que está fora, mas a salvação exige ruptura no que está
dentro. E o dentro resiste com argumentos, com afetos, com narrativas, com
justificativas sofisticadas. Agostinho compreendeu isso antes de todos nós: a
vontade humana não é movida pela verdade que convence, mas pela sedução que
vence. Não escolhemos o bem porque o conhecemos; escolhemos aquilo que nos
seduz mais. E, quando a sedução de si mesmo supera a de Deus, nenhum milagre
chega ao interior — porque o interior já está ocupado. Ocupado… e saciado de si.
A salvação só acontece quando o egoísmo humano é superado — e ele não se
entrega facilmente, não cede ao espetáculo, não se rende ao benefício. Sem essa
ruptura, não há conversão. Sem conversão, não há comunhão. Sem comunhão, não há
dança.

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