Testemunho Pessoal

Reprimir desejos sexuais é fácil.
Castrar-se é fácil.
Canalizar sua energia sexual é fácil...
Tudo isso é muito fácil diante da terrível experiência de ter que aniquilar o amor.



Desde sempre eu freqüento a igreja. Sempre fui cristão assim como toda minha família. Sempre fui muitíssimo envolvido no ministério e já muito cedo me tornei líder da mocidade de minha igreja. Era membro do grupo de louvor. Ministrava à igreja. Por tamanha participação na comunidade, à minha opinião era dada muita importância desde minha adolescência.

Sempre amei e fui amado pela igreja. Sempre fui uma criança alegre e ativa. Até que fui entrando na pré-adolescência e me tornei um ser humano em decadência. Vivi em profunda depressão dos meus 13 aos 17 anos. Foi quando eu já não tinha como esconder de mim mesmo a minha homossexualidade.

Reprimir desejos sexuais é fácil. Castrar-se é fácil. Canalizar sua energia sexual é fácil...Tudo isso é muito fácil diante da terrível experiência de ter que aniquilar o amor. Eis minha condição devastadora: eu amava homens!

Nunca em toda a minha vida eu poderia aceitar a idéia de que eu, logo eu, o bom filho, cristão, respeitado pela igreja, tido como exemplo, estudioso, conhecedor da bíblia... enfim, eu poderia ser homossexual. Deus não poderia me abandonar a uma situação dessas. Isso não acontece com um cristão: foi isso que eu sempre aprendi!

Vivi em luta com Deus durante os próximos anos de minha vida. Jejuava a ponto de ficar fraco. Orava sem cessar. Implorava por cura. Todos os cultos, todas as chamadas e apelos, estava eu lá indo à frente mendigando por misericórdia. Isso durou anos. Cheguei à conclusão de que Deus me abandonara. Tornei-me um rapaz frio, triste e profundamente amargurado.

Namorei todas as meninas que pude. Noivei aos 17 anos. Não abandonei a igreja. Mas não tinha mais brilho nos olhos. Decidi que iria abdicar de ser feliz e de amar. Odiava a possibilidade de vir a tornar-me um gay.

Participei, então, desses movimentos que "curam" homossexuais. Lá me fizeram conhecer um deus mesquinho. Um deus que por capricho decidiu que certos seres humanos, no caso nós homossexuais, temos uma cruz especial: devemos nos contentar em abdicarmos de viver o amor eros. Assim, alcançamos a "cura". Sendo humanos pela metade. Não podemos amar. Cada pequeno embrião de amor que surgisse dentro de nós deveria ser tão logo expurgado, pois se trata de um germe demoníaco crescendo dentro de você. Aceitei a idéia de um deus destorcido que nos faz sentirmos monstros.

Como poderia eu me sentir cristão, remido, lavado pelo sacrifício de Cristo, o sacrifício que levou, antes, todas nossas dores, se o diabo poderia crescer dentro de mim a seu bel prazer me fazendo sofrer ciclicamente? Como entender essa idéia de "curado parcialmente", ou de "humanos especiais". Meu Deus virara um Deus impotente e injusto. Mas havia o consolo: "Deus sabe do sofrimento cáustico de vocês homossexuais", me diziam. "Por isso, vocês terão um galardão maior no céu". Patético!

Eu já estava junto com minha noiva acertando os preparativos para casar no ano seguinte. Sabia que não seria feliz, mas pelo menos estaria construindo meu caminho para ir pro céu. Se esse era o preço a ser pago para que Deus me desse a salvação, eu estava disposto. Mas em um retiro eu conheci um jovem metodista, também líder da juventude, ativo na igreja (não posso falar seu nome, pois ele é ainda hoje muito conhecido e ainda não se revelou à igreja). Nossas almas se cruzaram. Não conseguia parar de pensar nele. Meu mundo ruiu. Mais uma vez, meu coração estava lá me mostrando que Deus não me curou, debochando de minha fé em um deus impotente. A essa altura eu já havia procurado todos os melhores psiquiatras, psicólogos e psicanalistas. Ninguém havia lido tanto sobre sexualidade humana como eu. Foi quando minha psicanalista me sacudiu e me disse: Daniel, você tem que escolher entre sua sanidade ou entre sua auto-mutilação. Não há saída.

Aquele amor foi maior que toda minhas forças já combalidas. Contei tudo à minha noiva. Sofremos juntos, mas hoje ela é minha maior amiga. Ela é um presente de Deus pra minha vida. Comecei um relacionamento fixo com esse rapaz, mas infelizmente ele também não estava preparado para tamanha revolução em sua vida. Quase um ano depois ele me disse: "Jejuei por todos esses dias e Deus me deu uma resposta clara. Por isso estou optando por ser feliz com minha igreja e minha família e deixando minha felicidade afetiva ir embora. Não tenho dúvidas que essa é a vontade dEle" . Essa foi sua opção quando ele me deixou e noivou com uma menina de sua igreja. Seu namoro não durou nem três meses ( hoje ele está casado com um rapaz também metodista).

Quando nos separamos eu fiz algo muito insólito. Eu sempre pedia a Deus para que ele escolhesse minhas namoradas, mas dessa vez eu fui sincero à Ele e falei: "Pai, eu preciso que você escolha a pessoa pra minha vida agora." Três dias depois eu conheci meu atual companheiro. Estamos juntos até hoje. Mês que vem fazemos dois anos juntos.

Há cerca de alguns meses eu contei tudo a meus amigos, parentes e igreja (até então ninguém sabia). Muitos parentes não falam mais comigo. Tive que sair quase que fugido de minha igreja. Aquele jovem até então exemplar já não valia mais nada pra igreja. Até minha mãe foi convidada a retirar-se da igreja.

Hoje tenho visto maravilhas que Deus tem feito na minha vida e na da minha família! Depois de toda perseguição que sofremos dos cristãos (telefonemas acusadores, e-mail ameaçador etc.), nós nos tornamos uma família mais unida do que nunca. Hoje estamos em uma paz que nunca antes houvera entre nós. Até meu pai, tradicionalmente homofóbico (que não permitia nem mesmo que eu e minha noiva nos beijássemos em sua frente) hoje ele tem enorme carinho pelo meu companheiro.

Aos domingos, nós almoçamos juntos em família, eu meu companheiro, meu irmão e cunhada, meu pai e minha mãe. Deus faz maravilhas! Hoje tenho uma verdadeira igreja. Conheci a Igreja Cristã Inclusiva, filiada à MCC (Metropolitan Community Church). Hoje eu redescobri Deus. Descobri sua face verdadeira. Ele é onipotente, tudo transforma, e tudo faz para recuperar aquela ovelhinha que se perdeu de seu pasto.

Quando amei de verdade, eu descobri o alcance deslumbrante do amor! Se eu sou capaz de amar assim, imagine Deus!

Deus me fez, hoje, um cristão autêntico: feliz, próximo a Ele, radiante de sua alegria e despenseiro de graça e amor, anunciador de um evangelho que não é lei que mata, mas espírito que vivifica. Um evangelho que dá salvação em alegria, por amor a Ele; e não um evangelho que salva por autopenitência.

Espero, sinceramente, que todos possam conhecer esse Deus maravilhoso que me faz tão feliz.

Daniel Moraes
Membro da Igreja Cristã Inclusiva
Rio de Janeiro - RJ
www.icmbrasil.com.br

Comentários

  1. Gostei muito deste testemunho, principalmente a parte em que o Daniel relata a conversa com a psicanalista: "Daniel, você tem que escolher entre sua sanidade ou entre sua auto-mutilação. Não há saída."Parabéns pela coragem, e determinação

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  2. Realmente um testemunho que mexe com a gente, parabéns pela sensibilidade. Foi realmente tocante

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  3. Adoraria ter essa coragem, infelizmente vivo uma vida de mentiras e solidão, mas foi encorajador :)

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