Militância, por que te incomodas?


Por Renato Hoffmann




Tenho sentido, ultimamente, uma forte inclinação, por parte de certos grupos intelectualizados, contra a militância gay. Interessante, que toda espécie de militância, que não seja militância do senso comum, incomode. Obviamente, a questão da militância não é separada da esfera do poder, seu axioma se configura nessa esfera e, jamais, será compreendido fora dela.

Assim, militar é atuar, é praticar algo, em nome de alguma coisa, em concordância de alguma idéia ou significado. Destarte, ser militante é ser inserido em alguma organização, sendo as mais comuns- políticas. Mas, não só às políticas, como também, às que se movem em atmosferas de camaradagem, cumplicidade num mesmo ideal. O que significa, intrinsecamente, que toda militância é militância de uma ideologia; sua prática, sua ação. Assim, mesmo sem estar inserido formalmente num grupo, aquele que porta à mensagem comum desse grupo, do seu ideal e defesa, é um militante de uma causa comum, pois se insere, em último, no discurso da ideologia, ou no próprio ideal.

A militância gay vem incomodando certos seguimentos da sociedade brasileira, por conta de um fator dominante dentro da concepção do poder. Acontece que a classe média é conservadora em seus princípios ideológicos. A construção da chamada sexualidade se dá, basicamente, ligada à moral cristã que, em qualquer das vertentes: católica ou evangelicalista, é imperativa, legalista, sexista.

Na sociedade burguesa, o heterossexual é o normal, foi eleito no discurso como a única forma sadia de sexualidade, e foi ligado ao culto viril do homem vitoriano. O poder de submeter e se impor são presentes nesse discurso, que logo foi rejeitado pelas feministas, ainda que heterossexuais, mas que não concordavam da submissão ao macho pelo seu culto.

Acontece, que como ideologia dominante, o heterossexualismo passou a ridicularizar toda forma de oposição a ele. A questão do poder, do espaço, da disputa, foi internalizada de forma agressiva e cega. Carrega, tal discurso, uma militância de potência, austera. O bem sucedido é o que tem família, um emprego que lhe dê boas condições financeiras, e, sobre tudo, sustente em si mesmo o ícone do ser macho, nobre, e de caráter ilibado.

Do outro lado da moeda, os homossexuais passaram a ser interpretados como caricaturas; um deboche irônico, vulgar, mesquinho, jocoso. Aqueles que não podem ser levados a sério. Suas aspirações foram condenadas à marginalidade. Em tudo, o gay era vislumbrado como escória. Pífios, suas relações eram putrefatas, anômalas. O homossexual era um puto, doente e condenado em toda sua existência.

Não havia espaço para uma ontologia gay. Estes eram simplesmente uns engôdos, que não contentes, e por suas doenças, buscavam se assemelhar ao feminino, efeminando-se, imitando o comportamento das mulheres. Buscando, em seus próprios corpos, toda espécie de depravações possíveis. O histrionismo era o marco da supremacia heterossexual contra os homossexuais.

Da imagem de putos, de prostitutos, nunca se cogitou uma forma existencial aos gays, afinal, estes, obstinando-se, assumiam a caricatura, ou a imposição do preconceito, na leitura da realidade última, dos atores, nessa representação. Portando, o relacionamento casual, da famosa trepadinha sem compromisso, que ainda reflete o maior obstáculo a ser superado. Isso, pois, o homossexual se acostumou, com o falso conceito, que ele é gay porque deseja o mesmo sexo. Nesta atitude, a homossexualidade era assumida com todo peso da leitura heterossexual. O gay não desejava ser homossexual, ele apenas se resignava a isso.

Não há, até aqui, que se falar de uma militância gay... Entretanto, Foucault pensou em uma. A mudança de paradigma se daria, exatamente, quando o homossexual passasse não mais se enxergar com os óculos do heterossexualismo. Mas sim, começasse a construir, para si mesmo, uma identidade. Por esse prisma, qual tipo de relação poderia ser estabelecida, inventada, articulada? Também, não mais o segredo do desejo, ou da indagação sobre o que se é. Até mesmo, pelo simples fato daquilo que é, ser! Então a necessidade é totalmente outra, ela caminha pelo reconhecimento pleno do devir: o esforço apodítico de se tornar um homossexual. Para o heterossexualismo, a homossexualidade seria uma forma de desejo anormal, contudo, para o gay, jamais poderia ser reduzida a uma forma de desejo, mas, sim, algo desejável.

Então, a distância se dá no pensamento, na atitude, na postura e no próprio desejo; a questão não é mais desejar um rapaz do mesmo sexo, agora, desejar relação com rapaz! Aqui não é só trepar, mas é se desnudar por completo, dividindo alegrias, tristezas, tempos, quartos, lazeres, saberes, confidências, carícias, fidelidades, etc. Esse modo de vida homossexual, construído na amizade, nas alianças é, para Foucault, temerário da sociedade.


Tal sociedade, na sua forma do heterossexualismo condicionou o comportamento gay às relações casuais. A imagem de rapazes transando, sem vínculos, apenas guiados a uma satisfação imediata, responde aos ditames sociais severos, assim, tranquiliza o senso comum às caricaturas preconcebidas. Mas estarrece, quando a homossexualidade passa ser desejada por seus atores, muito mais do que um conformismo, passivo, inexpressivo. Agora ela é bem mais do que mero sexo, ela forma comportamento, modo de vida homossexual. Em outras palavras, o ato sexual que não está conforme a lei da natureza (segundo o heterossexualismo), não inquieta as pessoas, mas os vínculos afetivos, os laços de amizade e amor, sacodem, perturbam as instituições estabelecidas.


Em último, não seria descobrir uma maneira de ser homossexual, mas inventar tal maneira. Até mesmo, respondendo a sua ascese, e não importando, a mesma, de categorias já existentes. "Ser gay é não se identificar aos traços psicológicos e às máscaras visíveis do homossexual, mas buscar definir e desenvolver um modo de vida" (Michel Foucault).

Hoje, o ataque à militância gay tem sido feito por uma leitura heterossexualizada da realidade. Seja ela em trabalhos acadêmicos, ou seja em sites religiosos, o paradigma para a construção da crítica é o modo de vida heterossexual. Que faz a crítica se perder no seu próprio etnocentrismo, não sendo legítima. Pois, a mesma não tem autoridade para falar do modo vida homossexual, pois deveria partir deste, para criticá-lo. Destarte, é piegas, e um insulto a inteligência à proposta celibatária aos homossexuais. E, do mesmo modo, é mesquinho os rótulos atribuídos aos gays, pois são simplistas, irracionais, irrefletidos e, nada mudarão a realidade última, que é apresentada como proposta pela militância gay.

Comentários

  1. A militância é necessária, pois, sempre existirá uma pequena parcela da população extremamente preconceituosa, que ataca todas as minorias. Por isso a nossa luta, como de qualquer outra minoria, é tão assertiva. Nós estamos em todos os lugares, em todas as profissões, ocupando altos postos, somos consumidores e pagamos impostos, a sociedade não pode mais nos desprezar. A existência humana está baseada nos direitos civis, isso basta para uma criança ainda não nascida já ser considerada um ser humano, tem direito à vida da mesma forma que os gays e as lésbicas têm direito a viver como eles bem entenderem. E é isso que a militância faz, defender os nossos direitos. Admiro os americanos por isso. Na marcha do orgulho gay de Nova Iorque, todas as comunidades são representadas, latinos, judeus, negros, asiáticos, e as profissões mais improváveis também, policiais e bombeiros fardados e empunhando a bandeira gay e com a aprovação da sua corporação. Um dia chegaremos a isso, com a militância consciente.

    abraço você com carinho

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  2. O Renato, li o seu artigo. Foi depois da nossa conversa? vc vc é muto bom para escrever. Acho que deveria virar cronista de jornal. rs
    Victor

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