Um maluco no pedaço

Tudo ocorria dentro da 'normalidade' de um domingo em Belo Horizonte. Na verdade sem muita coisa para se fazer, e com a segunda-feira às portas da paz e sossego, entre o ficar em casa e o sair à noite, para uma volta despretensiosa, também seguiam à 'normalidade' de alguns pensamentos costumeiros e habituais.

Bem, saí! E como tudo igual, fui para uma pista de esportes, caminhar e ver se na oportunidade, aproveitando da ocasião, fazia algumas coisinhas que determinados 'esportistas' lá vão para e, exclusivamente, fazer!

Também, como de costume, encontrei na pista um amigo fisioterapeuta, que todos os domingos, mesmo sem marcarmos, nos encontramos, no mesmo horário, para a prática do mesmo esporte! Caminhada vai, caminhada vem... Conversa vai, conversa vem... Até que o inusitado aconteceu. Um cara, jovem, aparentando 23 anos de idade, sem camisa, com um corpo esculpido, diria: DIVINO! e o calção rasgado, surge-me de uma passarela à pista, com passos rápido e braços abertos, abordava os que caminhavam: "doutor, doutor, preciso de ajuda, eu fugi do Raul Soares" (manicômio).

De fato, as pessoas se assustavam, meu amigo fisioterapeuta logo se pôs a pensar em ir para casa, pois a hora já era avançada. O que me veio a cabeça o mero oportunismo do tempo para disfarçar o incômodo do medo. Parei, e atendi a súplica do moço. Perguntei qual era o seu nome, o que sorrindo me respondeu: "Geovani, doutor!" Perguntei aonde morava, e fiquei surpreso, afinal Sarzedo é região metropolitana de BH, e diga-se de passagem, bem distante de onde ele se localizava na ocasião.

Perguntei o motivo da internação no Raul Soares, o que, inocentemente, ele me disse: "...para tratar da cabeça!" Na verdade, disso eu já sabia, mas queria saber o diagnóstico com precisão. Geovani havia sido assaltado na pista de esportes, o que levaram dele suas correntinhas e pulseiras de ouro e prata. Antes de nós chegarmos ele havia sofrido uma queda que o feriu no ombro direito, joelho esquerdo (que sangrava muito) e, havia quebrado o dedinho da mão direita. Foi quando ele pediu um cigarro; eu não fumo, mas meu amigo sim. Estranhei quando meu amigo disse não ter o cigarro. O que logo me fez exigí-lo: " dê um cigarro para ele, você não vai ficar pobre por isso." Constrangido, o fisioterapeuta entregou-lhe o pedido.

Bem, liguei para família do moço, o que vieram buscá-lo, e tudo ocorreu bem. Entretanto, uma coisa me doeu, e me incomodou, e está até agora me causando indignação. Alencar não quis dar um cigarro para Geovani, de um maço em que ele só tinha disposto de 3! Falei em tom de brincadeira: "Engraçado, os boys te pedem cigarro e você não pensa duas vezes para atendê-los, agora o moço aí te pediu e você disse que não tinha!" Penso que dura foi a resposta: "Renato, o cigarro eu tenho prazer em dividir com quem me dá prazer, esse infeliz não iria me dar prazer algum, não havia motivos para eu dar qualquer coisa minha para ele!"

Geovani quando recebera o cigarro o abraçara e com os olhos cheios de lágrimas o agradecera! Por que a humanidade é tão mesquinha?

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