De repente, Califórnia - Em busca de abrigo


Filme aborda a solidão humana a partir das experiências de um jovem homossexual

De repente, Califórnia, de Jonah Markowitz, chega a Belo Horizonte num momento propício às reflexões que propõe. Há poucos dias, em São Paulo, uma bomba de fabricação caseira foi arremessada contra a multidão reunida depois da parada do Orgulho Gay. No fim do mês, em boa parte do mundo, serão comemorados os 40 anos do levante no Bar Stonewall Inn, em Nova York, considerado o marco inicial da militância homossexual. A última data fala do quanto conquistamos em termos de igualdade de direitos; aoutra, do tanto que ainda é necessário lutar para que ela exista. De uma perspectiva política, De repente, Califórnia trata, com sutileza, exatamente desses extremos.

Zach (Trevor Wright) é um jovem artista. Deixou de ir para um dos melhores institutos de artes dos Estados Unidos para poder cuidar de sua família – o pai doente, a irmã instável, o encantador sobrinho de cinco anos, Cody. Está terminando com a atual namorada. Nas horas vagas, divide-se entre sua criação e o surfe. Até que Shaun (Brad Rowe), irmão de seu melhor amigo, volta à cidade, leva-o a descobrir a paixão e a questionar, por causa dela, seu lugar no mundo. Na essência, De repente, Califórnia é apenas um drama romântico, nova versão das histórias lacrimogêneas do século 19, em que alguém precisa escolher entre a família tradicional e o amor. Nos detalhes, o filme se torna um retrato das contradições da moralidade contemporânea (como aquelas histórias foram em seu tempo).

O filme lida com alguns assuntos bastante caros à condição atual da luta pelos direitos gays. O primeiro é a questão do jovem homossexual – a dificuldade em seguir em frente pela completa ausência de referências e modelos. Zach simplesmente não sabe o que fazer com sua vida. Todas as suas referências são conservadoras e patriarcais. Não se trata apenas de uma nova experiência para ele, mas de uma vivência sobre a qual ele não se sente capaz de conversar com ninguém. Está só. A sabedoria de De repente, Califórnia, contudo, é mostrar que sua solidão não decorre da condição de homossexual. Todos são solitários. Todos estão à procura do shelter (“abrigo”) que dá nome em inglês ao filme. A solidão seria inerente ao ser humano, parece dizer a obra. E o problema é que o mundo cria condições para que alguns sejam mais solitários que outros.

PATERNIDADE
Outra questão na ordem do dia apresentada pelo filme é a relação entre homossexuais e paternidade. O pai de Cody o abandonou. A mãe é uma irresponsável. O namorado dela, violento e quase marginal. Num mundo que insiste em dizer que homossexuais não podem ser bons pais, Zach é a única figura masculina positiva em que Cody pode se inspirar. “Você é meu pai”, diz ele, num dos momentos mais pungentes do filme. Aos poucos, Shaun ocupará outra parte da busca de Cody por um pai. De repente, Califórnia pergunta ao espectador o tempo todo sobre o que seria melhor para Cody. E a conclusão é inevitável: indiferente de sua orientação sexual, Zach é o pai, o educador, o amigo, mais do que qualquer outro.

Tudo isso é apresentado em De repente, Califórnia na forma de um drama sem excessos. É, antes de tudo, um filme otimista, daqueles que confiam na bondade humana como arma contra todos os preconceitos. Os personagens precisam lutar contra eles mesmos para chegar à tolerância – inclusive Zach em relação a seus próprios sentimentos. Mas chegarão lá. No processo, descobrem algo da própria leveza da vida. Ao fazerem isso, lembram-nos que nada é para sempre. Que coisas e pessoas vêm e vão. E que, mesmo assim, é possível ser feliz, se fizermos as escolhas certas e tivermos coragem para levá-las adiante.

Fonte: Portal UAI

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