Candomblé: o resgate de uma identidade cultural



Fiquei indignado como a questão religiosa tem sido desrespeitada no Brasil, por pastores evangélicos, que se acham no direito de, em nome de qualquer coisa que seja, menos do bom senso, ou de Jesus, falar, ou melhor, satanizar as religiões afro-descendentes. Ora, bastou a oportunidade de uma catástrofe, de cunho NATURAL, para que a mão de Jeová fosse à responsável pela queda da idolatria, ou, culto de satanás praticado no Haiti, por sua população NEGRA. Essa foi à conclusão que os lideres, donos da verdade, em nome de Jesus, chegaram e andam difundindo.

A demonização da cultura negra é, sem dúvida, algo desumano. Começou em 1415, no século XV, com as grandes navegações dos portugueses e, no final do mesmo século, 1492, espanhóis.

Antes do descobrimento das Américas, a inserção, principalmente portuguesa, no continente africano, foi pacífica e visava às minas de ouro, e os portugueses, muitos deles, casavam-se com as mulheres africanas, sendo aceitos pelas lideranças locais.

Como o marco da chegada portuguesa em Gana foi construída a fortaleza de S. Jorge da Mina-1492 (A fortaleza de São Jorge da Mina, a primeira feitoria portuguesa na costa ocidental da África, foi construída com o objetivo de escoar e defender o ouro que das ricas regiões auríferas do interior era enviado para o litoral. Posteriormente, torna-se o primeiro entreposto de escravos da era moderna e o pólo a partir do qual os reinos do Benim e Daomé seriam dizimados. Os primeiros escravos levados para o Brasil, em 1533, partiram dela.).

Na busca desesperada pelo ouro, a costa oeste da África não teve o rendimento esperado, contudo, uma nova fonte de riqueza seria viável, com a necessidade de mão-de-obra à colonização das Américas. Foi, então, que em 1444, alguns apresentam essa data em 1450 por conta da oficialização papal, mas, oficialmente, em Portugal uma caravela desembarcou com 235 escravos a bordo, vindos do Senegal e Gâmbia. Ora, uma questão criminosa estava envolta na aferição de escravos às coroas dominantes, de cunho religioso, e que foi e é origem de todo o racismo moderno:

A guerra entre europeus cristãos e os mouros islâmicos, estes tinham um poderoso reino no norte da África e dominavam uma rota comercial que se estendia pela Ásia e sul da Europa. A relação de guerras entre africanos e europeus datam deste período. As guerras eram dadas pelo comércio, mas tinham também significado religioso, ou seja, a possibilidade de cristianização dos povos através da escravidão, esse é o conteúdo da bula papal Romanus Pontifex", de 8 de janeiro de 1455:

Desde então, além disso, muitos homens da Guiné (a África) e outros negros,tomados à força, e alguns pela permuta de artigos não proibidos, ou por outroscontratos legais de compra, têm sido enviados para os ditos reinos (da América).Um grande número destes tem sido convertidos à fé Católica, e isso é desejável,através do socorro da misericórdia divina, e se tal progresso for continuado com eles, também aqueles povos serão convertidos para a fé ou pelo menos as almas demuitos deles serão ganhas para Cristo.


A partir daí, já nas Américas, surge um outro problema: O ÍNDIO sem alma. No Brasil, os primeiros a serem apontados como pessoas dignas de se sentir medo foram os índios. Estes, além de serem denominados como selvagens, assassinos impiedosos e canibais (vide o filme do “exemplar” católico, Mel Gibson: Apocalipto), ainda foram taxados pelos europeus de preguiçosos, avessos ao trabalho e, por muito tempo, não eram considerados como seres humanos, pois achavam que eles não tinham alma. Ou seja, eram tidos como criaturas perigosíssimas e que impediam a implantação de uma sociedade civilizada e justa, segundo os padrões europeus de civilização e justiça. Resultado: um genocídio “legítimo” e necessário para o bem e o progresso da humanidade. Consta, desse período, que as barbáries contra os índios eram aviltantes, muitos deles usados como rações para alimentar os cães famintos dos brancos europeus.

Tão logo os negros eram uma espécie intermediária. Ao contrário dos índios, eram considerados bons para o trabalho desde que os castigos, as torturas, os açoites e os assassinatos cometidos contra eles, pelos seus respectivos donos e senhores, fossem sempre muito bem aplicados no sentido de lhes mostrar quais eram as suas funções e o seu devido lugar numa sociedade escravista. Aliás, sociedade esta que via no trabalho algo totalmente aviltante e desprezível, sendo por isso considerada uma atividade a ser exercida apenas por SERES INFERIORES, ou melhor, por seres mercadorias (os negros) adquiridas como propriedade privada para esse ignominioso fim: o trabalho. Aqui, o negro rebelde, fujão, revoltado e, mais ainda, os grupos de negros que se organizavam para reivindicar e lutar por sua liberdade eram aqueles que deveriam ser temidos, combatidos e mortos para mais uma vez dar lugar à manutenção de uma sociedade justa, pacífica e ordeira. O medo de que os levantes e as revoltas levassem os “cidadãos de bem” daquela época a perder a sua fonte de produção e acumulação de riqueza, suas regalias e privilégios dentro de um regime escravocrata, foi um fator determinante para que a utilização e a invenção de novos métodos de punições, leis e doutrinas de natureza covarde, violenta e desumana fossem aplicadas para a manutenção do status quo e dos bons valores morais e éticos daquela sociedade.

Problema semelhante aos do passado ocorrem atualmente, com as mesmas conseqüências graves para a segurança das pessoas, quando pastores fanáticos e racistas dizem que os elementos da cultura negra são coisas do diabo e abomináveis para uma sociedade cristã.

Devemos ressaltar que a origem deste ciclo do escravismo europeu que se iniciou com as bulas papais de 1452 e 1493 e que vitimou milhões de africanos, nada tinha de particular em termos de raça ou cor contra os africanos. O desenvolvimento do sistema escravista criminoso, em épocas subseqüentes, estigmatizou o africano apenas como escravo. De um problema cultural religioso e com o passar de dois séculos, resultou um problema racial cuja conseqüência vivemos até o presente. Neste sentido, é preocupante o racismo religioso anti-religiões africanas no presente. O Vudu e o Candomblé têm sido estigmatizados como coisa do demônio. Trata-se de uma forma de racismo com conseqüências atuais e futuras preocupantes. Na história da humanidade são vários os exemplos da evolução de atitudes de simples idéias chegando ao genocídio de povos. Do nada se faz um ciclo de atentados criminosos contra um povo. Passam a pregar por palavras, orientam a massa popular contra fatos simples, depois transformam em normas sociais e, na seqüência, em leis criminosas, perseguindo e por fim matando para eliminar o suposto mal.

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    Quanto à questão do Candomblé se tem uma mistura produtiva. O negro foi arrancado de sua pátria, de sua terra, de suas raízes e, nos navios negreiros, misturados com tantos outros, também negros, mas de diferentes línguas, às vezes, tribos inimigas com diversidade cultural e religiosa vasta. Contudo, uniram-se numa única nação: O CANDOMBLÉ, resgatando suas raízes, diversificando-a, pela mistura cultural dos povos africanos, todos colocados num único lugar, como um mesmo povo. Daí a importância dessa manifestação cultural, que antes de ser religião é a identidade desse povo.

    Ele traz suas raízes, seu berço, sua língua, sua origem e reinventa tudo isso, mantendo viva a consciência de um povo, nas origens desse povo e não diferente dela. É o resgate da cultura, da dignidade, do orgulho de se pertencer à terra, e da dignidade de se ser alguém, de se ter um passado, uma história, e não mera mercadoria ou coisa, ou coisificação de algo maligno. E não é subcultura, são bonitas às manifestações de religiosidade e identidade: as festas, as danças, as comidas, os cânticos, os batuques. Aliás, até mesmo o samba, que significa roda de oração, vem do batuque dos tambores do Candomblé.

    E diferente do que pensa a mente tacanha e racista evangélica, é um a religião de liturgia, que tem seus rituais de iniciação, de tradição familiar, monoteísta e que trabalha os orixás, animus, ou estado da natureza. São forças da natureza no seu estado mais puro e singelo. Cada Orixá rege determinado segmento da natureza e juntos oferecem ao homem o que é necessário para se viver com plenitude, paz, saúde e harmonia.

    Assim, por exemplo, se dá o ritual de iniciação do vídeo no início da postagem, com a preparação litúrgica que culmina na festa ritualística:

    O ritual de iniciação no Candomblé, a feitura no santo, representa um renascimento, tudo será novo na vida do yàwó, ele receberá inclusive um nome pelo qual passará a ser chamado dentro da comunidade do Candomblé.

    A feitura tem por início no recolhimento. São 21 (vinte e um) dias de reclusão, e neste prazo são realizados banhos, boris, oferendas, ebós, todo o aprendizado começa, as rezas, as dança, as cantigas…

    É feita a raspagem dos cabelos (orô) e o abiã recebe o oxu (representa o canal de comunicação entre o iniciado e seu orixá) o kelê, os delogun, o mokan, o xaorô, os ikan, o ikodidé. O filho de santo terá que passar agora por um ritual, onde terá seu corpo pintado com giz, denominado efun. Ele deverá passar por este ritual de pintura por 7 (sete) dias seguidos.

    O abiã terá agora que assentar seu Orixá e ofertar-lhe sacrifícios de animais de acordo com as características de cada um. Feito isso ele passa a se chamar yàwó.

    A festa ritualística que marca o término deste período é denominada Saída de Yàwó, neste momento ele será apresentado à comunidade. Ele será acompanhado por uma autoridade à frente de todos para que lhe sejam rendidas homenagens.

    Deitado sobre uma esteira, ele saudará com adobá e paó, que são palmas compassadas que serão dadas a cada reverência feita pelo yàwó e acompanhadas por todos presentes, como demonstração de que a partir daquele momento ele nunca mais estará sozinho na sua caminhada. Primeiramente saudará o mundo, neste momento a localização da esteira é na porta principal da casa. No seu interior, ele saudará a comunidade e por último, frente aos atabaques que representam as autoridades presentes. Neste primeiro momento o Orixá somente poderá dar o jicá. Só após a queda do kelê o Orixá poderá dar seu ilá.

    O momento mais aguardado do cerimonial é o orukó. Neste momento o Orixá dirá o nome de iniciação de seu filho perante todos e também é neste momento que se abre a sua idade cronológica dentro de sua vida no santo.

    Após a saída e depois dos 21 (vinte e um) dias de recolhimento o yàwó permanecerá de resguardo até a queda de kelê fora do barracão por um período de 3 (três) meses, neste período ele não poderá utilizar talheres para comer, deve continuar a sentar-se no chão sobre a esteira durante as refeições, está proibido de utilizar outra cor de roupa que não o branco da cabeça aos pés, não poderá fazer uso de bebidas alcoólicas, cigarro. .. E nem tão pouco sair à noite. E até que se complete 1 (um) ano, os seus preceitos continuarão.

    Até que o yàwó complete a maior idade de santo, terá que continuar dia a dia o seu aprendizado e reforçar os seus votos por meio das obrigações (texto retirado do blog: Candomblé, mundo dos Orixás).

    Saída de Oxossi e Oxum ritual completo, Saída de Yawos Na Casa de Pedro Paulo D'Ogum Jordão - Jacarepaguá Rio de Janeiro Parte:


Comentários

  1. Parabéns pelo excelente artigo, muito bom esse blog. Sou evangélico, Metodista, e apreciei com muito entusiasmo o bom conteúdo de formação de opinião, de um evangelho objetivo, e sem radicalismos discriminatórios. Parabéns por tudo isso.

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  2. Nossa, muito bom o blog e todo o conteúdo. Sou luterano, moro no RS e gostei muito de como foi trabalhada a temática do Candomblé, num verdadeiro diálogo inter- religioso! Parabéns ao autores, e continuem assim!

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  3. Não concordo com o blog: 1º pela apologia ao homossexualismo, 2º pela apologia à uma religião que não é cristã, e traz em sua bagagem uma espiritualidade contrária a fé cristã. Devemos respeito, é claro, mas daí achar que se pode estabelecer um diálogo em que Jesus não se apresente como ele é, sem chances!

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  4. Parabéns pelo texto, pelo levantamento histórico, e pela abordagem do racismo disfarçado em religiosidade e fé.Parabéns pela agregação de valores e aprofundamento histórico-cultural, vcs são show!

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  5. Achei apelativo esse post, não concordo mesmo, uma tentativa de minimizar a verdade que esá por trás do candomblé e do vudu e de todas essas religiões. Enfim, sou totalmente contra!

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  6. Está aí o comentário de Julio Severo em seu blog, lamentável:

    "Não é difícil decifrar as palavras do cônsul, ainda que ditas de forma impensada. Onde há muitos descendentes de africanos, há muito vodu e candomblé. E onde há muito vodu e candomblé, há muitos descendentes de africanos. E onde há muito vodu e candomblé, há muita maldição. Pelo menos, essa é a pura realidade do Brasil e do Haiti. [...] Um ou dois terremotos serão o suficiente para acordar a sociedade brasileira para os males do politicamente correto? Duvido muito. O livro do Apocalipse deixa claro que nestes últimos dias haverá muitas pragas e tragédias ambientais, inclusive grandes terremotos, que virão como juízo e conseqüências dos pecados da sociedade. " Julio Severo

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