Em homenagem a 7 de abril, Dia do Jornalista Brasileiro: redação-ômega

Arco temático-narrativo ou “redação-ômega”
Encadeando ideias e conceitos em um texto jornalístico

por João Marinho
jornalista

Então, você resolveu ser jornalista. É claro que o primeiro requisito para quem quer seguir essa carreira é ser bom de texto: escrever bem, ler bem, falar bem.

É verdade que nem todos têm a aptidão necessária para trabalhar no rádio ou na tevê. Eu, por exemplo, não falo muito bem em equipamentos eletrônicos (minha voz fica horrível!) e costumo ter uma persistente alergia a câmeras – mas, em ler bem e falar bem, não me refiro ao fato de você ter um dicção excelente ou sair bonito na tevê: trata-se de saber interpretar o que lê, de estar sempre se atualizando e de saber como ser claro e conciso ao se comunicar com outras pessoas.

Introdução: técnicas de jornalismo
Escrever bem, por sua vez, é o início e o resultado dessa operação. Afinal, quando você treina sua escrita – até para os textos que serão lidos na televisão ou no rádio –, você melhora sua leitura, interpretação e o modo de falar. Ao fazer isso, melhora também a forma como escreve, em um tipo de retroalimentação.

Apesar de tudo isso soar como “chover no molhado”, a verdade é que muitos jornalistas têm dificuldade em produzir um bom texto, em capturar e segurar a atenção do leitor e em saber como conduzi-lo para onde querem. Às vezes, pode até mesmo ser difícil o jornalista saber aonde ele, jornalista, quer de fato chegar...

Isso não soa estranho porque, embora escrevamos muito durante a faculdade e aprendamos os principais esquemas formais do texto jornalístico, como a tradicional pirâmide invertida*, não é raro que os cursos falhem em dar orientação a todas as etapas da produção de um texto. Assim, mesmo quando aplicado o esquema formal, o resultado pode ser decepcionante. Estou certo de que muitos já passaram por isso. Eu já passei.

O resultado é que não é incomum que, na vida profissional, o jornalista comece a criar suas próprias ferramentas para produzir seus textos – sem, no entanto, jamais sistematizá-las. Por isso, resolvi dar uma ajuda.

Minha proposta, com este e outros textos que virão posteriormente, é procurar fazer essa sistematização que nunca fazemos – e tentar ajudar estudantes e até profissionais a produzir um texto mais interessante.

A boa notícia é que muitas técnicas também podem ser usadas por não jornalistas na tarefa de fazer redações. Como se trata de uma iniciativa pessoal, também as técnicas receberam nomes que eu mesmo dei. Vamos lá?

Técnica do arco temático-narrativo, ou “redação-ômega”
Pensei muito em como nomear essa primeira técnica, que, na verdade, pode ser aplicada a quase qualquer tipo de redação, não apenas a jornalística.

O nome deriva do fato de que, quando a explicava para amigos – alguns que ajudei a melhorar o texto, inclusive –, a imagem persistente que me vinha à cabeça era de um arco, que lembrava a letra grega ômega maiúscula (veja a imagem no início deste post)...

A ideia da técnica do arco temático-narrativo é muito simples e adequada a textos de revista. Você começa com uma introdução pensada de forma a capturar a atenção do leitor e que, num primeiro momento, até pode parecer não se relacionar com o assunto que você vai abordar. Essa introdução é a primeira “perna” do ômega e já tem até um nome jornalístico: nariz-de-cera.

Em seguida, você joga uma “isca” para o leitor, e é onde o arco temático-narrativo começa. Essa “isca”, que apelidei de epígrafe, comumemente é constituída por uma ou mais perguntas que instigarão o leitor e que, portanto, deverão ser respondidas no fechamento do arco, perto do fim do texto. A epígrafe é o tema, o objetivo daquela redação. O arco temático-narrativo, por sua vez, é simplesmente o desenvolvimento do tema que a epígrafe lançou – e ele precisará ser “fechado” em algum momento.

Isso significa que não importa o tamanho do arco – ou da “volta” – que você vai dar sobre o tema: no final, você terá de evocar a epígrafe e respondê-la. É ela também que vai “amarrar” seu texto e sedimentar a atenção do leitor. Não respondê-la dará a impressão de que o texto ficou sem sentido.

Finalmente, você termina a redação com a última “perna” do ômega: é o arremate, que nada mais é do que terminar o trabalho e apresentar as conclusões e eventuais agradecimentos.

Redação-ômega: assunto, tema, elementos
Bom, acredito que o arremate se explique por si só... Mas, se você ficou confuso sobre a epígrafe, o arco temático-narrativo e o nariz-de-cera, melhor demonstrar.

A reportagem “Negro Drama” (http://acapa.virgula.uol.com.br/revista/negro-drama-entenda-o-preconceito-sofrido-por-gays-negros/13/38/10310), escrita por mim para a revista A Capa, é um clássico exemplo de “redação-ômega”, e bem simples.

Tendo em mente que o assunto da reportagem é o preconceito sofrido por negros gays, como deixam claro o título e a linha fina**, confira as partes destacadas no início da reportagem:

Nariz-de-cera: introdução sobre a eleição de Barack Obama
Enquanto esta matéria era escrita, estava em curso a eleição presidencial norte-americana. No dia em que ela foi fechada, Barack Obama, um negro, se tornou presidente do país mais poderoso do mundo.
Lá, como cá, muitos negros estão em festa. A vitória de Obama carrega um forte simbolismo. Afinal, falamos de uma população historicamente alijada de direitos, vítima de preconceitos e com dificuldades no acesso a bens, serviços e ao poder. Quando, à cor da pele, soma-se a orientação sexual ou identidade de gênero diferente da maioria, as coisas tendem a piorar. Lá, como cá.

Epígrafe: as perguntas que norteiam a reportagem e devem ser respondidas no final
Se, no Brasil, não dá para negar o duplo preconceito a que negros LGBTs são submetidos, quais seriam, estruturalmente, as razões que levaram, ou levam, a essa situação? E o que tem sido feito, em termos de mobilização social, para alterar esse quadro? É sobre isso que pretendemos lançar luz.

A epígrafe marca o início do arco temático-narrativo e é também seu objetivo. No exemplo acima, ao final da reportagem, o leitor deverá ser capaz de identificar as razões por trás do (duplo) preconceito que afeta negros gays, bem como estar informado sobre grupos e estratégias que se levantam contra essa situação.

Como se pode concluir, a vantagem da “redação-ômega” é que a existência da epígrafe também ajuda a encadear, no arco, os diferentes aspectos do tema – as razões do duplo preconceito, preconceito este referido como assunto.

Por sinal, aqui, é importante esclarecer uma diferenciação pessoal que estou adotando entre os termos assunto e tema, se o leitor já não percebeu. Tal como na biologia, considero assunto o gênero; tema, a espécie. Assim, o primeiro diz respeito ao objeto geral tratado pelo texto. O segundo, ao ângulo ou particularidade, dentro daquele objeto, que nos prontificamos a abordar.

Confuso (a)? Voltemos ao exemplo do texto “Negro Drama”. Se está claro que o assunto da reportagem é o duplo preconceito sofrido pelos negros gays, o tema, que é trazido pela epígrafe, é o ângulo ou particularidade sobre o qual incidirá nosso foco dentro do assunto. O tema, repetindo, são as razões por trás do duplo preconceito.

O tema podia ser outro, correto? Poderíamos, por exemplo, entrevistar brancos e pardos e focalizar as dezenas de estereótipos que eles têm sobre os negros e nos porquês de serem estereótipos, ou ainda fazer uma abordagem que privilegiasse experiências reais e concretas de duplo preconceito sofridas por negros gays, em uma perspectiva de relatos biográficos.

Evidentemente, o leitor haverá de supor, corretamente, que o texto que escrevi também flerta com estereótipos e situações de preconceito – mas esses não são os temas que escolhi, não são a perspectiva que adotei ao escrever. Como o leitor verá a seguir, eles aparecem no texto como derivações do meu objetivo principal, que é explicar as razões do duplo preconceito, o que demanda, inclusive, uma abordagem histórica diferenciada.

Por sinal, é na História que começamos o nosso arco temático-narrativo. Se, nessa reportagem sobre os negros gays, nós nos prontificamos a explicar as razões do duplo preconceito, podemos começar justamente por uma abordagem histórica, que narre a chegada dos negros como escravos e o surgimento do ideário social que os inferiorizava.

Ser escravo e, como tal, não ter vontade pessoal, não ter direito sobre o próprio corpo e estar sob o jugo do senhor, inclusive no terreno sexual, também ajudou a formar um estereótipo sexual do negro. Qual seria esse estereótipo – e ele permanece ainda hoje? Se permanece, em que medida os negros que não se encaixam nele sofrem com o preconceito social? E em que medida isso lhes causa ansiedade? Os estereótipos encontram-se presentes entre os gays? Se sim, como ajudam a piorar a situação dos negros homossexuais e como se encaixam entre as razões do duplo preconceito – justamente, o tema explicitado pela epígrafe?

Ora, todas essas derivações são precisamente as constituintes do arco temático-narrativo em si mesmo! E poderíamos pensar em muitas outras... Elas são também exemplos de como, conforme já citado anteriormente, a epígrafe, ao nos dar um tema, “amarra” o texto.

Ao final, mesmo na possibilidade de que o autor “jogue a bola” para o leitor tirar suas próprias conclusões, a provocação trazida pela epígrafe ajuda esse mesmo autor como norte, como a “cola” que ligará cada um dos diferentes aspectos que tratar sobre aquele tema, corretamente distribuídos e agrupados, dentro do arco, em subtítulos temáticos.

Trabalhando em outros níveis
Evidentemente, a técnica do arco temático-narrativo, ou “redação-ômega”, não precisa ser empregada de forma tão literal. Às vezes, por exemplo, a epígrafe pode estar maquiada no decorrer da estrutura do texto e nem mesmo se constituir em uma pergunta direta. O nariz-de-cera, por sua vez, pode ser fundido ao próprio arco temático-narrativo, imergindo o leitor diretamente no assunto abordado.

Em outras palavras, é possível fazer uma introdução que “já entre de sola” no assunto, embora sem que o leitor saiba, à primeira vista, o porquê daquilo tudo. Também se pode usar o nariz-de-cera para passar informações sobre a técnica jornalística utilizada e seus porquês, uma influência que guardo do jornalismo de precisão.

Observem, por exemplo, a reportagem “Rola no escurinho”, outra que escrevi para A Capa (http://acapa.virgula.uol.com.br/revista/reporter-relata-o-que-acontece-no-escurinho-do-cinemao/13/38/5481). Ela começa assim:

Dia 25 de janeiro deste ano. Decidido a curtir a metrópole, eu, como muitos outros, saí à tarde para pegar um cineminha... Eram quase 16h. O filme já tinha começado, mas não havia problema. Eles todos têm a mesma temática e se repetem ininterruptamente, em sequência.

Como eu havia acabado de sair do sol, minha visão não conseguia distinguir nada. Sentei mais ou menos no meio da sala, na cadeira da ponta, e esperei. Um vulto se aproximou e um par de peitos enormes avançou em meu rosto. "E aí, tudo bem?". "Tudo, e com você?". "Tudo bem, gatinho. Quer gozar?". Era uma travesti. "Não, não. Obrigado, moça", respondi. Ela sai sorridente e educada.

Pouco tempo depois, um homem senta logo atrás de mim. Parece ser maduro. Olho para trás. A visão está melhor, mas não 100%. No entanto, é o suficiente para perceber que ele segura algo grande e brilhante nas mãos. Chamo-o para perto. Ele vem. "Olha, sei que
isso é pra mim, mas cheguei agora e não tô enxergando nada". "Se quiser, sento aí do lado". "Melhor esperar".

Não, não se trata de um cinema qualquer. Estou em um cine pornô (...).

Percebam que o nariz-de-cera aqui, diferentemente do existente em “Negro Drama” e do que expliquei mais atrás, não é uma parte do texto que aparentemente não tem a ver com o assunto, visando tão-somente a introduzi-lo.

Aqui, o nariz-de-cera já é parte do assunto. Ele parece muito longo, mas, desde o começo, o leitor já está imergindo no assunto da reportagem, que é o cinema pornô. Mais para frente, o texto continua:

Não era a primeira vez. Desde que A Capa havia me pautado para uma reportagem sobre o assunto, já tinha comparecido seguidamente às "sessões". A ideia: fazer um jornalismo gonzo. Basicamente, significa que o repórter tem de se envolver, participar - até o limite do bom senso - e registrar a experiência em primeira pessoa (...). 

Aqui, o nariz-de-cera se aprofunda e traz uma informação sobre a técnica utilizada para a reportagem: o jornalismo gonzo. Continuemos:

Resolvi, portanto, prescindir da recorrência a especialistas e me centrar mais no que os frequentadores me relataram e no que vivenciei naquele ambiente escuro, decadente e malcheiroso.

Percebam que a transição entre o nariz-de-cera e a epígrafe é bem mais sutil que em “Negro Drama”, quase imperceptível, e a epígrafe se encontra maquiada. Qual é o norte da reportagem, a “cola” que unirá os subtítulos no arco temático-narrativo? Resposta: a vivência direta do repórter no “ambiente escuro, decadente e malcheiroso” e os relatos colhidos dos frequentadores sobre o local.

Lembram-se da diferença entre assunto e tema? O assunto é o popular cinemão, mas, em vez de, por exemplo, fazer uma abordagem a partir da perspectiva de estudiosos, ou da intervenção na área de saúde, ou mesmo da relação entre os cinemões e o poder público, escolhi a perspectiva de trabalhar o que os frequentadores dizem daquele espaço e de si mesmos.

Resta claro que, sob a batuta desse tema, a descrição dos lugares e de quem os povoa terá um peso importante no meu texto. Acertou quem entendeu que o nariz-de-cera já trouxe esse elemento de apelo à descrição, embora, a princípio, o leitor não soubesse o porquê...

Só de curiosidade, no Dicionário Houaiss, a definição que encontramos para nariz-de-cera é uma “introdução freq. longa, vaga e desnecessária a uma notícia, reportagem etc., composta em medida menor do que a normalmente us. para uma coluna ou página”.

No entanto, como se vê, é possível fazer um uso muito mais criativo dessa ferramenta jornalística e de sua combinação com a epígrafe na técnica de redação ora apresentada. Nada mal para quem o julgava desnecessário, não é?


* técnica jornalística típica de jornal em que o primeiro parágrafo, chamado de lide, contém as respostas às perguntas mais importantes sobre a notícia (o quê, quem, quando, onde, por quê e como), e os demais a desenvolvem, em ordem das informações de mais importância para as de menos importância. Assim, o editor, ao cortar um texto, começa pelos últimos parágrafos, que contêm as informações menos relevantes, prática às vezes chamada de “cortar pelo rabo”. Às vezes, o conteúdo típico de um lide pode vir dividido em um lide e um sublide.

** também pode ser chamada de subtítulo, nomenclatura que não usamos aqui para não confundi-la com o termo “subtítulos temáticos”. A linha fina é uma explicação ou pequeno desenvolvimento colocado logo abaixo do título. No caso deste texto, a linha fina seria: “encadeando ideias e conceitos em um texto jornalístico”.


João Marinho é jornalista diplomado pela PUC-SP, classe de 2004, e adora textos de revista e sites, embora o curso tenha se centrado nos textos para jornais...





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