Uma reflexão sobre a beleza - I

Nos olhos de quem vê?

Uma reflexão sobre a beleza humana: o elemento subjetivo e os fatores que alteram a percepção do que é belo

por João Marinho

Desde cedo, somos ensinados a aceitar que ela é relativa e até mesmo desimportante. Quem nunca ouviu falar que ela “não se põe na mesa” ou que “está nos olhos de quem vê”? Mas você já se perguntou se a beleza é mesmo assim, tão subjetiva e fútil? Eu já.

Elemento subjetivo
De uma coisa, dá para ter certeza. A beleza realmente comporta um elemento relativo, e sua avaliação muda dependendo de a quem ela se apresenta. O que eu acho bonito em uma pessoa – ah, sim, preciso deixar claro que estou escrevendo sobre o conceito de belo aplicado às pessoas, e não a coisas –, quem está ao meu lado não necessariamente vai concordar.

É uma verdade empírica, facilmente detectada por qualquer um e que tem a ver com nossos gostos pessoais, que se formaram por uma série de fatores psicológicos próprios, relacionados à nossa formação cultural, histórico de vida (ontogênese) e até mesmo à biologia (filogênese), os quais não convém abordar para os efeitos deste artigo*. É o que eu chamo de elemento subjetivo da beleza: está intimamente ligado a quem o belo, ou feio, se apresenta.

Cinco sentidos e beleza interior
Se há algum erro, ele diz respeito à excessiva importância que damos à visão quando falamos do que é belo e do que não é e que está manifesta em um dos ditados populares a que me referi no início: “a beleza está nos olhos de quem ”. É óbvio que admirar o que é belo, bonito, agradável, atraente passa pela visão: é um dos sentidos que mais usamos para qualificar as pessoas dessa maneira – mas não só.

Outros sentidos também se envolvem e até mesmo alteram a percepção. A audição, por exemplo, é um dos mais prementes nesse sentido. Afinal, somos capazes de dizer até com relativa facilidade se uma voz é bonita, ao falar ou ao cantar.

Alguém dirá, com razão, que voz é uma “coisa”, e não uma pessoa, tema deste artigo, mas creio que é inegável que a existência de uma voz bela altera nossa percepção global sobre um outro alguém. De repente, podemos nos sentir atraídos por esse alguém por conta do timbre da voz, do som do sorriso, do canto, do sotaque, do idioma que fala e, mesmo se à primeira vista, o consideramos “feio”, numa olhada mais acurada e posterior, começamos a avaliar que “até que ele (a) não é de todo mal”.

Quem já namorou e se apaixonou por pessoas consideradas “feias” entende essa operação muito bem, embora, não raro, tenha dificuldade em expressar ao amigo ou amiga mais crítico (a) “o que viu naquele (a) lá” (observem novamente a preponderância da visão), mas a verdade é que a percepção do que é belo é alterada pelo cheiro, pelo gosto, pelo som, pelo toque, pela convivência, por certas características (força, altivez, flexibilidade, jeito de andar ou dançar, etc.) e até pelas atitudes, inteligência, personalidade, humor e valores da pessoa – a chamada beleza interior, capaz de nos despertar admiração tanto quanto a “externa”. Como resultado, de repente, somos também capazes de observá-lo (a) com “outros olhos”.

A pessoa se torna bela para nós, mesmo que não o seja para os demais, e essa operação é ainda mais perceptível em quem é destituído do sentido da visão, capaz, muitas vezes, de ajustar-se a elementos ainda mais sutis para definir o que lhe é atraente, como o som que o vento faz quando a pessoa anda, conforme me relatou um cego que entrevistei para o documentário À flor da pele: significando o mundo por meio do tato, que produzi com Adriana Rollemberg, Eliene Costa, Flavia Baldi, Graziele Marronato e Thaís Iervolino para a PUC-SP.

Vamos por partes?
Essa operação de recorrer aos outros sentidos também acontece de forma oposta. Quem nunca considerou um homem ou mulher “lindo (a) de morrer” e, depois de um certo tempo, pelos mais diferentes motivos, passou a vê-lo (a) como alguém “ah, normal”, “nem tão bonito (a) assim” e até “feio (a)”? E não obstante a prevalência dos verbos visuais para descrever isso, no sentido estritamente de imagem e aspecto, a pessoa pode ter permanecido a mesma ou até melhorado...

Atendo-nos estritamente à visão, certos parcialismos também podem ganhar uma importância igualmente difícil de explicar. Parcialismo é a tendência a se focar em uma característica específica na hora de definir beleza e atração, especialmente partes do corpo – daí o nome.

Eu mesmo sou um exímio parcialista e, como dizem minhas amigas Adriana Reis e Graziele Marronato, até por isso, capaz de ver beleza em “quase qualquer um”. Fulano é feio, mas “tem um pescoço lindo”. Ele é esquisito, “mas que mãos ele tem!”. Nossa, ele anda tão desarrumado, “mas você não viu as pernas?”. Aquela boca não me agrada, “mas os olhos são divinos”. Ele não é nada atraente, né? “É porque você não notou os pés”.

Como, em certas partes do corpo, a cor entra como um forte elemento de avaliação do que é belo – em especial, os olhos –, considero a atração por determinadas cores de pele igualmente parcialismo.

No entanto, verdade seja dita, não é apenas a cor o nó da discórdia, correto? Aspecto, firmeza, forma, especificidades e tamanho de algo na pessoa, tudo isso pode afetar, resvalando até no peso, na altura e na presença/ausência de pelos.

Os mais radicais não querem um baixinho, ou um alto já é elemento de desconsideração. Se não tem pelos, para alguns, não serve; para outros, só valem os lisinhos – e engana-se quem pensa que o fator pelo afeta apenas os homens. Há rapazes e lésbicas, por exemplo, especialmente no que tange à genitália feminina, que preferem que seja “assim ou assada”, e, às vezes, a “assim” é uma genitália bastante farta em sua natureza peluda.

Outros casos entram pela maneira como a pessoa se veste, por um tique específico, pela profissão (militares, por exemplo), presença de adereços e adornos (de óculos e sapatos a tatuagens) e, isolados, ou aliados aos fatores acima, flertam parcialmente ou francamente com o fetichismo. Quem discordará que uma determinada roupa ou adorno, por exemplo, de repente torna bonita e consequentemente atraente aquela pessoa a quem antes dedicamos pouca atenção? As experiências são inúmeras nesse sentido.

São muitas variáveis - e, só para lembrar, ainda estamos falando do que está atrelado aos nossos gostos pessoais, ao elemento subjetivo da beleza, que, se me permitirem reescrever o famoso ditado, “está nos olhos, ouvidos, boca, nariz, pele e cérebro de quem sente”. No entanto, por ser tão fácil de ser detectado, esse elemento subjetivo é também um truísmo. A coisa complica mesmo é quando passamos a reconhecer que a beleza não é, nem nunca foi, de todo subjetiva.

É o nosso próximo tema.


* Uso aqui os parâmetros da Análise do Comportamento.
O modelo que ilustra o texto é o canadense Eric Belanger. 

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