DESCORTINANDO O CRISTIANISMO (EVANGÉLICO)

Por João Marinho 

Resposta à questão, surgida em uma lista de discussão: "Eu não consigo entender um povo preocupado com a intimidade de outras pessoas... Eu não consigo entender como uma religião pregando o que Deus gosta e não gosta sem qualquer argumento pode colar"


Eu consigo entender.

Vou fazer aqui uma reflexão que não necessariamente deverá resultar em estratégia política, mas uma coisa que me chamou a atenção nessa e em outras lutas que travamos contra os fundamentalistas religiosos é sempre, de nossa parte, a tentativa de separar criatura e criador.

Resumindo: atacamos Marcos Feliciano, mas sempre procuramos deixar claro que "respeitamos a religião e não estamos dizendo que temos ódio dela". Às vezes, me pergunto se essa é a única forma que resta para combater o fundamentalismo, porque a verdade nua e crua é que a religião é, sim, culpada. Não são apenas as pessoas que "fazem mau uso da fé".

Qualquer um que tenha se debruçado sobre a teologia cristã com sinceridade e sobre a história dessa religião reconhecerá que o cristianismo possui um DNA beligerante em sua gênese, que hoje se manifesta até no vocabulário dos fiéis. É a guerra espiritual, a marcha por Jesus, o exército de Deus e por aí vai.

E isso não é por acaso.

Desde que me tornei ex-evangélico, sempre argumento que, sobretudo para o cristianismo protestante, o Diabo é que é, na verdade, sua estrutura – não Jesus.

Essa afirmação, que pode parecer chocante, ocorre pela constatação de que "para funcionar", o cristianismo, e boa parte dos cristãos, precisam acreditar que estão em guerra contra os "poderes deste mundo". Precisa haver um inimigo. Precisa haver algo com que "se preocupar". Precisa haver algo contra o que guerrear. Precisa haver algo ameaçando a integridade humana, um mal, espreitando, para ser combatido em nome de Deus.

Judeus no nazismo, bruxas na Inquisição, os infiéis muçulmanos nas Cruzadas, nós agora. Pegue qualquer tempo histórico e, sempre que o cristianismo prevalece, é preciso haver um bode expiatório que representa o exército de Satã a ser combatido em nome da "verdade" bíblica. Uma ameaça, a ser debelada em nome de Deus-Pai, com as armas do Espírito Santo, travestido do amor que (supostamente) o Filho dedicou à raça humana.

Se é verdade que há cristãos que assim não procedem, é verdade também que esse tipo de argumento ecoa fundo no coração de muitos outros, até por pertencer, sim, a uma tradição teológica e de práxis cristã, que conta aí com alguns milhares de anos.

A questão não é eles estarem preocupados com a "intimidade das pessoas". A questão é ver os (supostos) "sinais" de que o mundo "jaz no maligno", como reporta sua Bíblia, e resistir a ele "em nome de Deus", "combatendo o bom combate" contra o "príncipe desse mundo", Satanás.

Simplesmente, os gays foram alçados, sob os argumentos de pastores, prelados e teólogos protestantes e católicos, como a mais recente "ameaça" oriunda desse poder maligno, visando a destruir a "obra de Deus", manifesta no suposto risco que representam para a "família" (ela mesma de origem divina, segundo a Bíblia) e uma suposta perseguição aos cristãos e seus valores, o que também ecoa fundo na teologia e espírito dos fiéis, dado o histórico de perseguição movido pelo Império Romano e outros agentes ao longo da história e mesmo agora. Toca-se também em outra fibra nevrálgica: o "Ide", a ordem de Cristo para pregar a palavra a "todas as nações".

Resumindo, não é verdade que o problema são as pessoas, apenas. Não é verdade que são todas elas "exploradas e enganadas por pastores malfazejos". Não é verdade que o problema seja o fundamentalismo, apenas. Não é verdade que a religião cristã prega o amor entre todos, centrada no exemplo de Cristo. A religião, ela-mesma, é parte, sim, do problema. É ela que provê o que temos visto agora. Ao menos em parte, o cristianismo é, sim, arrogante, beligerante, intolerante.

Para o evangélico médio, a igreja católica é a prostituta da Babilônia e apóstata. Os espíritas são hereges. Candomblecistas e umbandistas são manipulados pelos demônios, que são quem realmente se manifesta em suas rodas. Budistas, muçulmanos, judeus e membros de qualquer outra religião, além dos ateus, têm como destino final o inferno, por não terem aceitado "Jesus como seu único, legítimo e suficiente salvador". Esse é o lado obscuro do cristianismo, notadamente o evangélico, que é importante que vocês conheçam. Eu sei. Eu já fui evangélico – e não se enganem: isso se ensina dentro dos templos, nas escolas dominicais, nos púlpitos e nos sermões.

Embora isso que estou dizendo talvez não possa se consolidar em uma estratégia política, espero pelo dia em que movimentos afins possam descortinar esse lado que eles tão bem fazem questão de manter escondido. Que os católicos que apoiam os evangélicos em suas demandas saibam que, no fundo, aquele pastor do lado acredita que ele irá ao inferno por apostasia e heresia, destino não muito diferente do que, segundo eles, espera nós outros, gays.

E que, um dia, paremos de dizer que a religião "não tem culpa alguma" e passemos a tratá-la da forma como eles nos tratam, baseando-se nela. Que, se, com base nesse sistema de fé, se veem eles no direito de não aceitar nossa sexualidade (da qual, diferentemente do que fazemos em relação à sua religião, se esforçam em jogar na lama na primeira oportunidade e tachá-la de maligna e desviante), nós também temos o direito de não aceitar sua fé – e muito menos qualquer imposição que venha desse sistema do qual, segundo a tradição, enfim, já estamos, desde sempre, excluídos.

Não é hora de repensar alguns discursos? Mostrar que defender o direito gay é defender também as famílias, das quais gays não apenas participam, mas também formam? Chamar para um diálogo os cristãos que escaparam dessa armadilha teológica? Retomar os valores humanistas e iluministas de que religião é foro privado, em vez de isentarmos a mesma de toda e qualquer culpa? A se pensar.

Abraços
João Marinho

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