segunda-feira, junho 24, 2013

Feliciano, Ronaldo, Mara e as críticas sem cérebro



HOMOFOBIA, TRANSFOBIA, MACHISMO E MISOGINIA: POR QUE INTERNALIZAMOS (E EXTERNALIZAMOS) TUDO ISSO?

por João Marinho

Tenho me mantido quieto até agora sobre certos protestos que acompanhei no Facebook envolvendo Marco Feliciano, Ronaldo “Fenômeno” e Mara “Maravilha”, mas penso que certas reflexões são, no momento, pertinentes.

Em primeiro lugar, devo dizer que sou plenamente a favor de manifestações críticas a esses personagens.

Marco Feliciano é um pulha, incapaz de tecer qualquer comentário relevante sobre o momento histórico que vive o Brasil, incapaz de apresentar qualquer projeto relevante – mas é o primeiro da fila quando se trata de “fiscalizar” os ânus alheios.

Ronaldo “Fenômeno” foi muito infeliz ao dizer, no momento em que a população – correta ou inadequadamente – pedia por melhoria nos serviços públicos, que Copa não se faz com hospital. Irmanou-se a Pelé, que quis tornar a seleção mais importante que a coisa pública. Seleção é legal de assistir, mas não resolve saúde, educação, transporte. Nem vida.

Mara “Maravilha”, tanto pior. Ao defender Feliciano e chamar gays de “aberração”, une-se ao que de mais retrógrado, fundamentalista e moralmente condenável existe na política, na sociedade e na religião brasileiras.

Merecem todos serem criticados... Mas o problema está NA FORMA como parte dessas críticas têm surgido.

Para Feliciano, tem sido comum dizer que ele é “gay enrustido”, “bicha crente”, “passiva não assumida”, que “precisa de um pau” e outras coisas desse naipe.

Para Ronaldo “Fenômeno”, vi fotos “respondendo” a ele que, se Copa não se faz com hospital, orgia não se faz com travestis.

Mara “Maravilha” tem sido crucificada por ter posado nua e acusada de “hipócrita”, “sirigaita”, “velha” e “decadente”. Aqui, subentende-se que gays não são “aberração”, mas ela, que teve a pachorra de posar nua!

Ora, o que essas críticas dizem a respeito de nós mesmos, externadas, inclusive, por LGBTs e por mulheres?

A meu ver, nada de bom.

Não sei de onde vem a ideia de que homofóbicos são “gays enrustidos”.

Antes que me digam que existem estudos apontando para isso, devo dizer que eu conheço esses estudos e sei, também, ao contrário da maioria, que eles se remetem a certos tipos de homofobia e a certas categorias populacionais. Seus próprios autores alertam que não podem ser generalizados para outros grupos ou populações em termos amplos.

É de se pensar que, de fato, muitos homofóbicos, especialmente os mais agressivos, são, na verdade, pessoas com profundos problemas sexuais e que, tal como a pessoa maníaca por limpeza, tentam “reprimir” desejos do que consideram “sujeira” apelando para o extremo oposto.

No entanto, a homofobia não possui apenas essa face, mais agressiva.

No Ocidente e no Oriente Médio, ela é fortemente calcada em uma cultura judaico-cristã e islâmica, que, inclusive, espalhou-se para outros povos.

A extrema dicotomia artificialmente construída para homens e mulheres – muito superior a qualquer fundamentação biológica possível de analisar – resvala na tese de que o gay, a lésbica, o/a bi é um/a “desviado/a”, que não contempla seu papel dado pela “natureza”. Pior ainda para travestis e transexuais. Argumentos errôneos, sabendo-se hoje que, mesmo em outras espécies, existe comportamento homoerótico e transexual.

Culturalmente, porém, isso ainda contém um forte apelo popular – e resultam daí as milhares de faces da homofobia e de suas derivadas. Da mãe e do pai que se perguntam “onde foi que erraram” ao fato de “viado” (ou “veado”) ser um xingamento comum, no que é possível perceber a herança, difusa e obscena, de considerar o “homem que dá a bunda” como inferior ao “macho”.

O que me constrange nas tirinhas contra Feliciano, publicadas INCLUSIVE POR GAYS, é as pessoas não perceberem toda essa herança verdadeiramente maldita e reforçarem-na.

Sim, porque, não importa quanta raiva justificada você tenha de Feliciano, ao dizer que ele é “gay enrustido”, “bicha crente”, “passiva não assumida”, que “precisa de um pau”, você está, sim, fazendo o mesmíssimo uso homofóbico de considerar a homossexualidade de alguém, real ou suposta, como índice de inferioridade. Como vai exigir respeito depois quando, frente a um preconceituoso, for você o alvo de idêntica estratégia?

É homofobia internalizada, pura e simplesmente.

O que você pensaria, por exemplo, se visse um negro criticando outro partindo justamente da cor da pele daquele outro, porque “se não fez na entrada, faz na saída”? Ou um judeu criticando outro partindo justamente do fato de o segundo ter, vejam só, mãe judia, porque judeus, “óbvio”, são “mãos de vaca e interesseiros”?!

Ridículo, não é?

Então, por que raios criticar Feliciano partindo de uma homossexualidade “suspeita” porque, “claro”, só “bichas malresolvidas” perseguem “as demais”?

Não sei vocês, mas eu não nasci “fora do armário” – e não me recordo, da época em que me escondia entre mofos e gavetas, de, por isso, ter me tornado um Feliciano da vida...

Ora, se Feliciano é homofóbico – e ele o é –, é isso que deve ser criticado, e não sua suposta sexualidade. Mesmo porque, na sociedade homofóbica e heteronormativa em que vivemos, não é preciso ser “enrustido” para ter preconceito. Basta seguir a maré.

O caso de Ronaldo “Fenômeno” já flerta com a transfobia. Não dá para acreditar na história de que ele “se confundiu” com travestis e mulheres. Quem vive em grandes cidades, como São Paulo e Rio, metrópoles que conheço bem – e foi no Rio onde se desenvolveu o imbróglio –, sabe perfeitamente que garotas, garotos e travestis de programa, até por necessidade de público-alvo, não dividem o mesmo espaço urbano. Existe uma divisão geográfica, ainda que informal.

No entanto, se Ronaldo se deixa levar por uma transfobia cultural e prefere passar pelo “carão” de “confuso” em vez de assumir que realmente tinha interesse nas travestis, é esse aspecto transfóbico que deve ser criticado.

O que não pode é explorar uma mensagem que coloca as travestis, já tão marginalizadas, como um anátema, portadoras de algum aspecto “nojento”, que as impediria de serem candidatas a momentos de prazer com outrem, ainda que num bacanal.

As críticas direcionadas a Mara “Maravilha” já flertam com o machismo e a misoginia. Sim, Mara foi infeliz até a medula em sua declaração e merece toda a nossa revolta por isso.

No entanto, que fique claro. O que deve ser criticado em Mara é sua homofobia e seu fundamentalismo religioso da pior espécie. Não é o fato de ter posado nua, de ser “sirigaita”, de ter “dado mais que chuchu na serra”, de estar “velha”.

Mara ou não, o corpo da mulher é da mulher – e o uso que ela faz dele é de foro personalíssimo. Até quando flertaremos com a ideia de que o número de parceiros sexuais ou a exposição do corpo e da nudez determinam o grau de empatia, moralidade, respeitabilidade de alguém?

Há mulheres prostitutas, e muito felizes, como na censurada campanha do Ministério da Saúde, que dão um banho em termos de respeito ao próximo frente à beata virgem mais intransigente. Ademais, idade, que eu saiba, não é defeito.

Ao criticar Mara por ter posado nua, flerta-se com a pior espécie de machismo. Aquele que quer ter controle sobre o corpo da mulher – e que, na impossibilidade de tê-lo, faz do corpo da mulher e do uso soberano que a mesma lhe dá razão para agredi-la socialmente.

Então, você gay, você lésbica, você mulher, você travesti, trans, bissexual... E você hétero consciente... PAREM! Parem de fazer uso dessa cultura triste e brasileira e saibam criticar sem utilizar os mesmos argumentos do que aqueles imbecis que, vira e mexe, atacam você.

8 comentários:

  1. Será que as páginas aqui do facebook com temática LGBTT, as novelas, a grande mídia, revistas e outras porqueiras, acham que só existe Gay Bombado, Branco, louco por sexo, Bonitão, Rico e que fala de moda e arte burguesas? E o Gay da Favela, da Periferia? Que sofre discriminação e agressão? Cadê os homossexuais Feios, Gordo, Pretos e Pobres, ou os comuns? Cadê esse povo sofrido? Esse aí tá escondido atrás das estatísticas de miséria e discriminação! Chega de Hipocrisia, chega de modelos ideais, vamos ver a realidade escondida e questioná-la e mudar essa merlim toda!

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  2. Li seu texto e concordo com muita coisa que vc disse. Vi muita gente carregando cartazes de #forafeliciano e na manifestacao revoltados com o prefeito gritando "fulano viado". Nao consigo fazer coro a isto. Mas acho que temos que tomar muito cuidado pra n perdermos uma das melhores caracteristicas que temos como brasileiros, que e' nosso bom humor, que tira gargalhadas das piores adversidades. As vezes sinto um ranço do tal "politicamente correto" em certas posiçoes. Vejo muitas dessas imagens como uma manifestaçao de humor natural que o brasileiro tem. Desse despudor de se colocar a mao na ferida brincando com o que tiver que brincar. E se voce começa a analisar muito o humor a primeira coisa que voce perde e' o sendo para o mesmo. #maishumor

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    1. Caro Anônimo,

      cabe ler o seguinte post: http://papodehomem.com.br/carta-aberta-aos-humoristas-do-brasil/

      que é bem engraçado e foi escrito por um humorista profissional. Bom para refletir sobre o que nos faz rir. E sobre como fazer piadas que reforçam preconceitos, é, bem, reforçar preconceitos.

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  3. Graça e paz.

    Soy gay e sou cristao e, ao ver um amigo divulgando este blog no Facebook vim conferir.

    Esta imagem dos dois rapazes abraçados com o II Cor. 9:7 é lamentável - é apenas uma brecha para que fundamentalistas endureçam mais a perseguiçao aos homoafetivos. Este é exatamente o artifício que eles usam: retirar um extrato das Escrituras de seu contexto para justificar suas atitudes.

    Por favor, repensem isso.

    Em Cristo.

    canastrasuja@gmail.com

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  4. Muito bom o convite para reflexão.
    O que essas pessoas são ou deixam de ser na vida privada não deveria ser nossa preocupação, e muito menos servir como tentativa de explicação para o que quer que fosse, mas apenas o que eles falam, fazem, sem recorrer a argumentos idiotas que sempre usam para discriminar, menosprezar, ridicularizar. Se eu uso o mesmo argumento para criticá-los, estou me igualando a eles. E se sou igual a eles, não posso criticá-los.

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  5. Belo texto, concordo bastante, mas entendo essa forma de crítica e ataque fanfarrão que vemos não como preconceito, mas como uma forma de atingir o alvo chamando-o do que ele mais teme, como quando somos crianças.

    Feliciano é homofóbico, então seu maior temor é ser gay. chamam-no de gay.
    Mara é religiosa fanática e moralista, seu maior temor é ser/ter sido promiscua. Chamam-na de puta.
    Ronaldo é trans fóbico, seu maior temor é ter atração sexual por travestis (assumir isso). Chamam-no de pegador de travesti.

    Assim eles se passam por ridículos no mais alto nível, pois são contra o que eles mesmo são/foram/poderiam ser.

    Seu ponto de vista é uma forma mais séria e adulta de criticar, além de não mascarar o problema com piadas.

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  6. Seu lindo.

    Obrigada por traduzir em palavras tão precisas o grande incômodo que sinto ao ler os posts meta-homofóbicos e multi-misóginos acima analizados.

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  7. Somos apenas humanos e estamos indignados. O discurso tempestuoso e ofensivo nada mais e’ senão efeito da lei ação-e-reação. Esperar classe e polidez seria pedir demais, a estas alturas. O fato de um termo possuir conotação sexual forte e ser comumente usado em mensagem de baixo calão não necessariamente distorce ou acresce um sentido que não esteja explicito na realidade a que o termo se aplica. E isso esta’ acontecendo? Em que medida? Ou é tudo apelação – minha, inclusive - para dar o golpe abaixo da linha da cintura? A que ponto minha raiva compromete minha ética em meu discurso?
    O problema não é onde nossa sexualidade nos leva. Onde a sexualidade se encontra, lá também se ancoram as questões mais viscerais, de força e/ou fraqueza, conforme aprendemos ou não a lidar com as mesmas. Nesse cerne nos tornamos mais vulneráveis ao mesmo tempo que nos tornamos mais sinceros – e apenas após a superação da vulnerabilidade, mais tranquilos e fortes em nossa identidade. Por estar na raiz da identidade, é o ponto onde todo mundo consciente ou inconscientemente mira quando se quer derrubar alguém.
    O problema não é intimidade de cada um. Mesmo porque uma vez que voce se torna porta-voz diante das massas – seja como sub-celebridade formadora de opinião, fenômeno dos esportes, ou pivô de uma moral profilática e extremista – você esta’ colocando um alvo nas suas costas. Portanto, muita ingenuidade tocar num ponto nevrálgico com suma autoridade e imaginar que sairá ileso de especulações. Ou, se for brasileiros, do senso de humor escrachado de toda uma nação. A partir do momento que a pessoa coloca `a venda sua coerência e dignidade ao preço de um espaço no poder politico, isso e’ muito pior que prostituição. Alias, nenhuma puta merece ter a profissão vinculada `a perda da honestidade. Deve haver muita puta decente, muito mais decente que políticos. Quando políticos que se vendem milhares de pessoas são prejudicadas.
    O problema não é a “vontade de dar”, pelo-amor-de-deus. Se vocês estão neste fórum se sentindo pudicos em relação a pensar no poder de uma bela rola, então realmente vocês são preconceituosos. Independente de sexo, gênero, orientação sexual e afetiva.
    Que não se espere do primitivo um verniz civilizado. O problema não e’ a sexualidade, com toda sua força e violência, deixando escapar ora uma pata de garra afiada pronta para arranhar quem passa, ora a baba escorrendo duma bocarra que arreganha os dentes, qual uma fera selvagem aprisionada numa contenção que se revela cada vez mais ineficaz.
    O problema é que essas pessoas que se colocam acima de seus semelhantes civis e acima dos direitos humanos querem e’ PHODER.

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