Nove de Julho em SP



POR QUE 9 DE JULHO É FERIADO NO ESTADO DE SÃO PAULO?

 por João Marinho

Então, você foi à praia e não tem a menor ideia do porquê São Paulo tem esse feriado, que calhou de ser emendado este ano? Então, vamos dar um resumo.

Após a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, o Brasil iniciou uma fase conhecida como "República Velha" nos livros de História, marcada, por sua vez, pela Política do Café com Leite.

Essencialmente, essa política dizia respeito ao poderio de Minas Gerais (o "leite") e de São Paulo (o "café") no cenário político nacional, marcando uma alternância de presidentes apoiados por esses estados.

Em 1930, porém, houve um golpe militar que levou Getúlio Vargas ao poder. Getúlio fora derrotado na eleição por Júlio Prestes, indicado sucessor pelo presidente então no poder, Washington Luís.

Apesar de fluminense, Luís subiu à presidência com o apoio político de São Paulo, de maneira que a indicação seguinte, esperava-se, fosse de um político apadrinhado por Minas Gerais. Prestes, porém, era apadrinhado de São Paulo.

Na época, a República Velha já vinha mostrando sinais de desgaste. Havia a mobilização do trabalhador industrial, cada vez mais importante na sociedade brasileira, revoltas de cunho nacionalista-fascista – estamos próximos do período fascista e nazista –, ideologia que deu origem ao "nosso" integralismo, e um aumento cada vez mais importante das dissidências políticas, ameaçando o poder oligárquico rural representado por São Paulo e Minas. A crise de 1929, que impactou o Brasil, apenas piorou a situação.

A indicação de Júlio Prestes levou a um descontentamento de Minas Gerais, que, unida ao Rio Grande do Sul e à Paraíba, com apoio militar, deflagrou o golpe que levou Getúlio ao poder.

O assassinato de João Pessoa, paraibano na chapa de Getúlio, foi o estopim, ainda que hoje se saiba que não o foi por motivos políticos. Um adendo: João Pessoa negou o apoio pedido anteriormente pela chapa de Júlio Prestes, que, mesmo vitorioso nas eleições, nunca assumiu a presidência. Por isso, a Paraíba traz na sua bandeira a palavra NEGO (do verbo NEGAR) e sua capital se chama João Pessoa.

Uma vez no poder e tendo derrubado Washington Luís, Getúlio Vargas acumulou poderes. Cancelou a constituição vigente, de 1891, retirou autonomia dos estados e demorou a convocar uma nova Assembleia Constituinte.

Ao mesmo tempo, a oligarquia de São Paulo ressentia-se da perda de prestígio político, o que, aliado ao fato de que os interventores no estado designados por Vargas não eram benquistos, irradiou insatisfação entre a população também.

Em 1932, no estado, realizavam-se comícios contra o poder central. Essas manifestações resultaram na morte de quatro estudantes em 23 de maio de 1932 - Mário Martins de Almeida (M), Euclides Miragaia (M), Dráusio Marcondes de Sousa (D) e Antônio Camargo de Andrade (C), durante uma repressão por parte das tropas federais. Um quinto estudante, Orlando de Oliveira Alvarenga (A), ferido com os colegas, morreu em agosto.

O evento foi o estopim de uma nova revolução: a REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA DE 1932, que usou o acrônimo de MMDC em homenagem aos estudantes (hoje, historiadores referem-se ao grupo como MMDCA).

Com a ajuda de representantes do "Estado de Maracaju" – na verdade, separatistas do Mato Grosso, que defendiam a criação do que depois foi o Mato Grosso do Sul – e de membros da Frente Única Gaúcha, São Paulo rebelou-se contra o governo central de Getúlio Vargas e o restante da federação, naquela que acabou conhecida como a maior rebelião na história do estado.

A Revolução Constitucionalista buscava derrubar Getúlio Vargas e forçar a instauração de uma nova Constituição da República. Foi deflagrada em 9 de Julho de 1932, razão pela qual é feriado em São Paulo, mas não foi vitoriosa, tendo sido vencida em outubro de 1932. Mesmo assim, os paulistas conseguiram algumas vitórias.

Segundo o Governo Provisório de Vargas, uma eleição para a Assembleia Constituinte já estava marcada e a Revolução de 1932 não teria sido "necessária".

Segundo os paulistas, no entanto, sem a Revolução de 1932, não teria havido uma redemocratização. Seja como for, uma nova Constituição realmente foi publicada dois anos depois, em 1934, após uma eleição, realizada em 1933, em que as mulheres votaram pela primeira vez. São Paulo passou a receber interventores paulistas, ao gosto da oligarquia.

Foi uma vitória parcial, mas talvez a história dê certa razão aos paulistas, considerando que a nova Constituição esteve vigente por pouco tempo, até Vargas dar um novo golpe de Estado – em si mesmo – e iniciar a ditadura do Estado Novo, em 1937.

Vargas, que, apesar de ter propiciado avanços no Brasil, como a famosa Consolidação das Leis do Trabalho, e de nos ter legado João Goulart e Tancredo Neves – e Brizola, para os que gostam –, tem um lado nada interessante: além de ditador, deixou também "gente do bem" no cenário político nacional, como Eurico Gaspar Dutra e os tenentes que tomaram parte na revolução de 1930 e se tornaram presidentes durante a ditadura militar. Os boníssimos Castelo Branco, Médici e Geisel.

Quanto à Revolução de 1932, ela deixou um saldo de cerca de 2 mil mortos, segundo estatísticas não oficiais (consultar MALUF, Nagiba M. Rezek. Revolução de 32: o que foi, por que foi. São Paulo: Edicon, 1986).

Os restos mortais e as cinzas dos estudantes e de mais de 700 veteranos da Revolução encontram-se "enterrados" no mais alto monumento da capital paulista: o OBELISCO DO PARQUE DO IBIRAPUERA (foto), inaugurado em 9 de julho de 1955 – e que muita gente passa por ele todo dia e não tem ideia de que seja um mausoléu e acha que seja, bem, só um obelisco...

As visitações ao Obelisco foram suspensas em 2002 após serem detectados problemas de conservação e infiltração de água. O Obelisco, porém, ainda recebeu as famílias dos veteranos, novos corpos e é aberto apenas três dias por ano para a visitação. Há um projeto oficial de restaurá-lo.

Também é por isso que, curiosidade, a cidade de São Paulo tem a Avenida Nove de Julho como uma de suas principais. Possui uma Estação Júlio Prestes (que foi governador de São Paulo), mas não possui nenhuma rua, avenida ou praça que homenageie Getúlio Vargas.

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