Sobre a pressão imigratória



por João Marinho
Gente, eu, como muitos, fiquei bastante consternado com a morte das crianças sírias tentando atravessar a Turquia, mas, ao mesmo tempo, preocupado com o tom antieuropeu que a discussão tem tomado, principalmente por parte de esquerdistas.

De um lado, devo dizer que eu consigo entender o receio dos europeus. No Brasil, nossa comunidade muçulmana é pacífica. Entre outros motivos, por ser muito pequena.

Em países europeus, no entanto, nem sempre a convivência é tão ideal. Na Inglaterra, há bairros inteiros onde se procura implantar a Sharia, em vez de seguirem as leis do Estado. Na Holanda, gangues de jovens islâmicos agridem gays e lésbicas na rua por seu "pecado": há alguns anos, o país precisou instaurar um regime em que solicitava ao imigrante muçulmano uma declaração de que aceitava as leis liberais holandesas, não sem ouvir acusações de ser "xenófobo".

Quantos jovens europeus, nos últimos meses, têm sido seduzidos e aliciados por pregadores muçulmanos radicais, indo engrossar as fileiras do Estado Islâmico? Consigo entender por que existe receio da imigração em massa, sem retirar seu caráter de tragédia humana dos muçulmanos que buscam tão-somente fugir das guerras e viver em paz.

Também fiquei com uma pergunta incômoda: será que alguém já tentou trazer algum refugiado sírio para o Brasil? Bom, eu tentei. Mohamad era o nome dele: muçulmano, gay, sírio, vivendo em um campo em Tiro, no Líbano, era refugiado três vezes.

Fiquei espantado em como é extraordinariamente difícil conseguir um visto brasileiro. Se o turista é sírio, nosso país exige que ele tenha comprovação de emprego e renda para bancar a viagem, passagens compradas de ida e volta, reserva de hotel, entre "otras cositas más". Não tem hotel? Precisa de carta de um brasileiro nato dizendo que vai hospedá-lo em sua casa.

Sim, Mohamad não era turista, mas refugiado – e aí está a pegadinha. É que o visto brasileiro de refugiado é um visto de turista modificado, retirando apenas algumas exigências que, de outra forma, são insustentavelmente absurdas, como a de trabalho e renda (oi?). No fim das contas, ele não conseguiu.

Sem saber dessa realidade, quantos de nós criticamos a Hungria por ter "segurado" imigrantes e depois liberado aos poucos, SEM VISTO, para passarem por seu território rumo à Alemanha? O Brasil está entre os países que MENOS receberam refugiados de guerra. Perdemos até para outros países americanos. Não é à toa que tantos haitianos entram aqui pela via ilegal.

Aliás, por falar em haitianos... Alguém realmente tem se preocupado com eles, afora as pastorais católicas? Com um visto difícil de conseguir, o governo federal esquerdista apenas muito depois resolveu relaxar as regras – mas continua sem policiar corretamente as fronteiras e só agiu com essa medida "muito eficiente" do visto depois que a situação dos ilegais no abrigo de Brasileia, hoje fechado, ficou à beira do insustentável e nas costas do governo acreano.

Aí, o que o governo do Acre fez? Para se livrar do "problema", alugou uns ônibus praticamente na calada da noite, encheu de haitianos e mandou tudo para São Paulo, onde lotaram a Baixada do Glicério, na capital, para serem assistidos pelas pastorais, que parecem as únicas realmente preocupadas. O governo paulista reclamou, e aí quem era "xenófobo" era o governo paulista. Oi? Posso não gostar do tucanato de Alckmin, mas, neste caso, qualquer um vê que ele tem mais razão do que menos razão.

Enquanto isso, pouco se faz para saber a profundidade do drama desses refugiados, que são refugiados de uma catástrofe natural. Quantos morreram na travessia pelo Mar do Caribe? Quantos foram abandonados por não terem mais dinheiro para pagar os coiotes? Quantos adquiriram malária e outras enfermidades na travessia pelo Peru, pela região amazônica, ou nos então depósitos de gado humano no Acre? Alguém contou?

Isso tudo acontece debaixo de nossos narizes brasileiros, e a população c*ga e anda. Então, aparece a imagem de duas crianças tragicamente mortas em uma travessia pela Turquia, e a Europa é o "Mal".

Falar dos outros é fácil.

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