AXIOMA, UMA TENTATIVA DE RESPOSTA AO WALLACE



Wallace,

Lendo sua pergunta no comments fiquei entusiasmado a te responder. Entretanto, quando pensei, melhor, no que ia escrever como resposta, vi que não poderia fazê-lo, por uma questão simples, não tenho um axioma!

Penso que ele tenha que ser construído. Contudo, posso apontar um caminho à construção, apresentar uma idéia a ser refletida por todos nós. A minha proposta é olhar a nossa realidade, sem santificá-la em um modelo já existente, ou bestificá-la, mas olhar o que ela é de fato, ou o que ela representa para nós: em um primeiro momento, para nós como um todo; e em um segundo momento, para nós enquanto expressão individual, sujeito.

Deixe-me tentar explicar melhor: quando ocorreu a parada gay desse ano em São Paulo, na lista, surgiram vários comentários depreciativos, igualando a parada com o carnal! Imagino que as pessoas que seguiram nessa perspectiva, não o fizeram por pensar que a parada poderia ser uma arma de denúncia a serviço das "minorias", ou, como gosto de dizer: da população excluída pela condição sexual. Eles criticaram por terem em si o pensamento de maldição ao carnaval. Até agora, lembro-me de uma frase em que dizia das "caricaturas" que desfilavam pelas avenidas, mostrando um universo fatídico e doentio do meio gay! Agora, se fossemos pensar em arma de denúncia das minorias, ainda sim, não veria necessidade de tamanho repudio àquilo que a parada representa. Nesse caminho, onde entraria a minha perspectiva? Primeiro refletir o universo gay como um todo: será que a parada é tão distante da night gay? Será que a manifestação popular como fenômeno cultural é algo tão caricaturado e depreciativo como apontaram? E daí refletir o particular: o porquê da negação, da não aceitação, da crítica. Claro que isso já é um fato em si, de uma resposta bem simples, também, isso é só um exemplo! Mas há algo mais profundo nisso tudo.

Acredito, profundamente, que quem parte para algumas críticas, mesmo que às vezes, mergulhados em uma erudição, "aparentemente", despretensiosa, mas carregados de uma sutileza moralizante, assim procedem, pois estão presos a dogmas contrários à nossa luta. Que quando refletem o universo gay, só conseguem repudiá-lo, ou distanciá-lo de si mesmos, por um ideal conservador, ortodoxo, de uma classe preconceituosa. E isso tudo, por um motivo pessoal: a homossexualidade ainda é tabu! A expressão individual da qual fazem parte, é aquela que busca o céu e teme o inferno. É aquela que busca a santidade, e se satisfaz em um desejo de proteção e felicidade, ao mesmo tempo, em que se atormentam com a possibilidade da punição e condenação! Sempre escutamos falar que o meio gay é um meio promiscuo, de muitos parceiros, e sexo e nada de seriedade, ou compromisso. O que pensar sobre isso? Só podemos refletir o universo gay, e refletindo sobre ele veremos que: ele não é diferente em nada do universo "conservador"; onde um rapaz namora três meninas ao mesmo tempo; onde pais de famílias mantêm relações extraconjugais; onde um homem possuir várias mulheres sem compromisso é algo natural à masculinidade. Entretanto, as acusações de promiscuidade recaem sobre nós, pois não podemos casar! Daí, nossa teologia começa a buscar esse modelo de casamento, de familia gay feliz, de santidade relacional, etc.

Enfim, penso que o caminho não seja esse, até mesmo, pelo fato deu gostar do carnaval, deu sentir falta da night, deu não querer aderir ao projeto de casamento feliz e santificado. E, penso também que, como eu, muitos vivem assim! O nosso universo precisa desassociar essa idéia de santidade e bênção ao casamento, precisa banir de nossa teologia esse conceito de promiscuidade e maldição, demoníaca, do "mundano", pelo desejo da proteção e o medo da punição. Precisamos ver o que nos é próprio e santificarmos, posteriormente, como nossa expressão. Portanto o que fiz no outro texto foi apontar uma idéia, como nesse também faço. Mas apontar o axioma, isso não posso fazer, pois temos que construí-lo juntos. E a hora é essa, é o nosso momento. Não queremos casar, no modelo bíblico, mas queremos casar no modelo civil , e isso é um direito que temos, não porque é santo, ou o projeto feliz de vida santificada, mas porque é humano, então nossa teologia deve santificar o que é humano e se fazer respeitada por isso, e não por copiar o projeto de bênção de alguma instituição religiosa, que criaram uma teologia para justificarem as suas neuroses coletivas!

Um outro elemento muito difundido, e defendido na lista, está relacionado com o conceito escrituristico de Palavra de Deus. talvez, o que eu venha escrever, aqui, possa desagradar uma grande parte dos leitores, penso eu que vá. Entretanto, não quero maquiar a realidade, e o fato é: existe nas Escrituras um preconceito gritante contra a mulher, e contra os homens que se comportam dentro da perspectiva de gênero, que enquadram o feminino. Obviamente, muito da teologia antigay que se tem produzido na sociedade é recente, de uma interpretação vitoriana, de um olhar extremamente machista. O trabalho que fazemos vem de contra essa interpretação, e mostra que por um apelo cultural a mulher, e os que se assemelham a um comportamento de gênero feminino, não conseguem espaço na sociedade e, tentamos mostrar também, que tal perspectiva é ultrapassada, que a sociedade evoluiu, enquanto o modelo bíblico se encontra para uma cultura de data específica, e de uma época específica, sendo tais interpretações desatualizadas, e portanto, tem-se a necessidade de uma contextualização, de uma reinterpretação, e, até mesmo, de uma desautorização.

Não sei se é de seu conhecimento, mas, nesse momento, estou em um debate no Orkut, na comunidade Jovens Luteranos, exatamente sobre esse tema- homossexualidade e escrituras- o pessoal da IELB (Igreja Evangélica Luterana do Brasil) tem jogado em nosso debate, justamente, tal conceito de Bíblia: a Palavra de Deus. Claro que quem é da IECLB (Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil) não aceita, e questiona. Entretanto, isso sempre me faz refletir um aspecto muito particular meu, e que agora passo a compartilhar com você:

Sempre quando vejo um homossexual partir para uma afirmativa dogmática em respeito a esse tema, lamento! Quem defende esse posicionamento, no fundo, no fundo, ainda se acha "doente". No fundo, no fundo, ainda quer ser "curado", "libertado". Precisa da Bíblia como um instrumento de punição para seu "mal" e, defendendo-a nesse conceito, defende a sua própria salvação, ou desencargo de consciência. Mesmo que afirme, que não considera a homossexualidade como pecado, quando traz as Escrituras nesse conceito, específico, de Palavra de Deus- atualiza para sua consciência o que é escondido, o que se faz no intimo como desejo último- proteção e punição. Nós precisamos de nos livrar disso, quem quer uma Palavra de Deus, quer um instrumento de lei e castração para o seu "mal". Ou damos um novo sentido à revelação, um sentido não literalista e santificado no modelo repressivo da vontade, ou não caminharemos muito longe na perspectiva de uma teologia Gospel Gay.

Bem, penso que seja por aí, refletindo o universo gay e o universo particular de cada um de nós, como realidade descrita, nua e crua, sem o processo ideológico, apenas o que nos é de direito!

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