Abominação é: Está escrito! (Lv 18,22)- segunda parte

Sexualidade e pureza cultual

Como foi discutido, anteriormente, o texto de Levíticos, capítulo 18, encontra-se dentro de um código, conhecido, teologicamente, como Código da santidade, e esse fragmento (cap. 18) é uma perícope remota, muito antiga, de uma época nômade das famílias patriarcais dos hebreus. Enfim, esse culto, que é estabelecido no capítulo 18 de Levíticos, faz parte do entendimento da sexualidade e pureza cultual. Entretanto, para se entender o conteúdo finalístico de tal proposição, faz-se mister o aprofundamento da temática.

A sexualidade assume importância especial para os antigos, antepassados, na medida em que se trata de sua relação com a esfera cultual sagrada, à compreensão cosmológica decorrente. Assim, nos tempos imemoriais, aqueles que antecedem, e em muito, a própria história dos hebreus, e do povo israelita, bem como a do Oriente antigo- o que vale dizer, que tais proposituras provêm da
idade da pedra, quando inexistia a tradição escrita- desenvolveram-se, entre os homens, preocupações particulares em torno do comportamento sexual adequado a respeito da área sagrada e do culto às divindades. Assim sendo, não era possível se aproximar de lugares santos (altares, por exemplo) com as "mãos sujas" ou pés calçados: Daí, o texto de Êxodo 3,5: "... tira as sandálias dos pés porque o lugar em que estás é terra santa." Moisés ouviu a orientação, e tal regra básica, determina, em várias tradições, até hoje, como determinou no Sinai, o relacionamento dos fiéis com seu lugar de adoração. A primeira diferença entre o sagrado e o profano- a sujeira e a limpeza. Dentro disso o conceito de pureza física e moral, permitindo a aproximação à divindade, aquela idéia de estar limpo, sexualmente, no encontro com Deus, ocupa lugar central a partir dessas convenções.

Uma outra prova desse pensamento enraizado na cultura hebréia, e depois israelita, sucede com Davi, fugindo do rei Saul, chegou em um templo pedindo alimentos para si e seus companheiros (I Sm 21. 2-7). Os sacerdotes de Nobe, infelizmente, não tinham, à mão, "pão comum", mas só pão consagrado (cf,v.5). Desse pão consagrado só podiam usufruir pessoas que não tivessem tido RELAÇÕES SEXUAIS, pelo menos, alguns dias antes da refeição (vs. 5-6). O que mostra o nítido temor de admitir contato entre as atividades da esfera divina: órgãos, parafernálias vestimentais, palavras, imagens, alimentação, etc. Às atividades de cunho sexual. Uma outra afirmativa disso é que os sacerdotes que ascendiam ao altar para queimar sacrifícios tinham que vestir cuecas especiais para não expor as genitálias à pedra sagrada (Cf. Ex 20.26; 28.42; Ez 44.18).
Do Oriente antigo se conhece inúmeros textos hititas, babilônicos, assírios, egípcios, dentre outros, que dizem respeito a esse modo fundamental de ofender divindades por vários comportamentos ou apresentações na área sexual.

Todo esse mito e tabu acontecem pela ligação do entendimento entre sexualidade e fertilidade à força criadora das próprias divindades. O sêmen mexia com a potência criativa, e fazer, do lado humano, o uso dessa força, com impropriedade, além de impossível, era sacrilégio, uma interferência suicida, e por conta da expressão milenar de tal tradição o assunto não era refletido, ou questionado. A antropóloga Mary Douglas¹ há muitos anos observou tendências semelhantes em quase todas as culturas humanas; o medo de ofender as divindades, por meio de exibições sexuais, permeia a história das religiões. Desta feita, os índios Hopi, no Arizona, abstêm-se de namorar nas plantações de milho, para não irritar a dona divina da roça. O tempo de abstinência sexual antes da atuação cúltica, para os homens que servem no altar, dura, em determinadas religiões, de três dias até a vida inteira. Também, o celibato católico romano tem como fundamento (embora ninguém admita e afirmem disposto contrário), aquele medo arcaico de misturar sexualidade humana com a esfera criativa e poderosa de Deus.

Mais tarde, em Israel surge um problema quanto à radicalidade desses conceitos de pureza e impureza, no que toca, à alimentação sacerdotal. Afinal, o servidor do altar (o sacerdote) recebia como salário partes dos sacrifícios sagrados. Como, então, compartilhar isso com os filhos e filhas e outros membros da família, que não estavam em estado de "pureza"? Alguns, advogavam que o sacerdote tinha que comer da carne sacrificada dentro do recinto santo (Lv 8.31-36). Entretanto, a compreensão se afrouxou e, muitos, entendiam que a família sacerdotal, ou todos aqueles que morassem com ele ,debaixo do mesmo teto, poderiam compartilhar da refeição sagrada (Lv 22.10-13). Todavia, o mito de tocar em coisas sagradas impuramente perdurava, ainda, que não com tal radicalidade (Lv 22.14). O mesmo não ocorreu com o tema da sexualidade, que recebeu atenção destacada dentro da temática geral de pureza e impureza.

O bloco literário de Lv 11-15 é o maior de todo o Antigo Testamento que tematiza os problemas de prevenções contra atos ou comportamentos "poluentes" ou causadores de impurezas face à esfera cultual divina. Nos trechos de Lv 18; 20; 21; Nm 19; Ez 18,44 a preocupação é de modo paradigmático, com quaisquer fenômenos e atos humanos que poderiam perturbar a esfera divina, principalmente a sexualidade. Assim o grande interesse pelos fluxos sexuais corporais que saem dos órgãos genitais (Lv 12 e 15). Seja a ejaculação masculina ou a menstruação feminina, sejam várias doenças venéreas que produzem algum fluído saindo do corpo ou a defluxão pós-parto, tudo fica altamente perigoso para área sagrada, o pessoal ligado ao culto, a comunidade de fé e para os próprios portadores dessas "enfermidades". Todos esses fluídos corporais ligados à sexualidade (outras culturas acrescentam os fluxos salivares, as lágrimas ou o pus de um furúnculo qualquer) constituíam ameaças à esfera divina, e por isso, podiam provocar castigos de Deus. Assim, tornaram-se grandes perigos para a comunidade de fé que suscitava a ocorrência.

Destarte, à medida em que a comunidade acreditava nessas possibilidades de irritar as divindades por comida ou bebida não-autorizadas, contato com coisas ou seres causadores de impurezas, atos ou estados corporais indesejáveis, as prevenções e regras de cautela eram vitalmente importantes. Entretanto, resta saber como a coisa se concretizava fora da esfera sagrada, no contexto da comunidade judaica do exílio e pós- exílio da época, e as ausências de proibições, em face das relações sexuais de determinados grupos societários. Contudo para não ficar cansativo, continua na próxima abordagem.

Renato Hoffmann

¹ Douglas, Mary. Purity and danger, Cambridge, 1966; tradução para o português: Pureza e perigo, São Paulo: Perspectiva, 1976.

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