Abominação é: Está escrito! (Lv 18,22)

Não é de hoje que escuto esse texto de Levíticos ser proferido para afrontar os homossexuais de forma geral. Necessariamente, sempre a afirmação vem possuída pelo velho adágio: Está escrito! E de fato está, o problema não é o que está escrito, mas de que forma está escrito... Para que está escrito, e então, a grande pergunta, por que deixou de estar escrito?

Não sei bem se as pessoas que lêem essas passagens possuem quaisquer tipo de formação mais crítica, entretanto, o que se pode perceber é que, se possuem, não fazem questão de aplicá-la. Obviamente, que quando se está diante de um texto, o primeiro processo, e poderia-se classificar como IMEDIATO, é o processo sincrônico, que liga o leitor com curto espaço histórico- social-filosófico (próximo), que está inserido, ao texto possuído e lido. Assim, tudo que é específico à uma cultura, nela é entendido sem esforço, pois toda a cultura, comungada entre os pares, traz seus próprios símbolos e modelos interpretativos, iluminando o texto e se fazendo claro à compreensão do leitor. Assim um belorizontino entenderá com mais facilidade um jornal, com assuntos políticos, que retrata BH do que SP, um brasileiro entenderá mais da economia de seus país do que a economia da França, e um ente contemporâneo perceberá sua cultura, pós-moderna, muito mais precisa do que a cultura da Idade Média.

Na verdade, enquanto mais se alonga os espaços, mais esforços adaptativos serão necessários à compreensão textual. Assim, tomando o exemplo retro mencionado, um belorizontino, que viva em BH, lendo as notícias da política paulistana, propriamente, terá que se inteirar do quadro político-social da capital paulista, para emitir sua opinião sobre a mesma, o que não aconteceria em BH, pois já tem conhecimento de causa. Da mesma forma, o brasileiro que olha para a economia da França, teria que entender o processo macro e micro econômico, bem como, as relações políticas francesas, para começar a capitar o processo que desencadeou, aos franceses, adotarem essas medidas e não outras para a vida financeira de seu país. O que no Brasil, tal esforço, é mínimo, pois esse processo político é percebido pelo brasileiro diariamente.

Destarte, todo o processo que se usa para chegar no texto, e percebê-lo em seu contexto extensivo, é processo interpretativo MEDIATO, pois perpassa sua estrutura sincrônica e imediata, para abri-la, como que se uma janela em uma paisagem muito mais ampla, que não está descrita no texto, pois é subentendida culturalmente por aqueles que comungam diretamente nesse mesmo contexto. Mas, todavia, não será às gerações que perderem o elo com os mesmos símbolos auferidos, portanto, tendo que recuperá-los para um entendimento mais próximo da mensagem que se quis transmitir.

Eis, então, a diacronia, que é mediada pelo contexto sócio- histórico e filosófico remoto, sendo transversal ao entendimento imediato e o indagando à busca do seu sentido primeiro. Assim surge a passagem bíblica de Levíticos 18,22 :

Com homem não te deitarás, como se fosse mulher, abominação é...

Obviamnete, que há de fato um impeditivo na lei, uma proibição direta, contundente, específica: NÃO TE DEITARÁS COM HOMEM... Isto está escrito! Mas e o que não está escrito? Quais são os motivos desse impedimento, em que contexto esse impedimento é entendido, significantemente, à cultura em que foi proferido?

O livro de Levíticos foi escrito após Israel voltar do cativeiro babilônico, portanto sua redação é fruto da obra designada pela escola Sacerdotal, e não por Moisés, Esses redatores tinham um propósito, uma resposta a dar à sua nação ao seu povo: O momento é de reconstrução, Israel precisa de uma lei e de um culto.

Assim, a escola Sacerdotal juntou os fragmentos das cerimônias, cultos e lei , na tentativa da reconstrução da tradição primeira do povo, portanto, o livro contém elementos bem antigos, como as proibições alimentares (cap. 11); como as regras da pureza (caps 13-15). E, os capítulos que falam da Santidade 17-26, carregam em seus elementares um fragmento que se reporta à época nômade do povo hebreu: O CAPÍTULO 18.

Antes de se prosseguir neste raciocínio é importante à analogia a compreensão de que, os elementos associados à vida do povo no exílio trazem as marcas profundas da lembrança, inclusive do momento da angustia, sendo transformada em esperança.

Assim, o documento Sacerdotal mostra Moisés morrendo sem herdar a terra prometida, pelo pecado da descrença, do murmúrio (Nm 20,12), entretanto, Deus continua fiel à sua promessa, e antes da morte de Moisés se declara dela cumpridor dizendo a ele: "Contempla a terra que destinei aos filhos de Israel!" (Nm 27,12).

Moisés deve contemplar a terra prometida não só com um olhar ansioso, mas também com o ânimo cheio de esperança e firme na confiança, porque sabe que a promessa ainda subsiste. Para compreender essa perícope Sacerdotal é necessário considerar que essa passagem se formou no exílio babilônico, e lá os exilados não viviam só na resignação e desânimo, mas na esperança da eleição, da aliança, Iahweh reconduzisse seu povo à terra dos pais.

Assim, como antes, Moisés lançara seu olhar na direção da terra, sem contudo poder dela desfrutar, também, aqui, por causa da CULPA PROCEDENTE, os exilados estão sem meios para voltar à pátria. Entretanto, do mesmo modo que Moisés pôde confiar na promessa , com seu coração cheio de esperança, também os exilados podem confiar firmemente na palavra de Deus e acreditar nos profetas, segundo os quais Deus retornaria com Israel à sua casa.

O código de santidade

Aqui, depois das considerações feitas, insere-se o que nos interessa de forma objetiva e imediata.
Entre o inumerável material, que no decorrer da ampliação da narração histórica sacerdotal, foi inserido no documento Sacerdotal, cabe um lugar especial ao código da santidade, que tem sua pré-história complicada. Na verdade, este código ao lado do livro da Aliança, e da lei deuteronômica, representa um outro corpo de leis, independentes anteriormente à juntada.

A série de Levíticos 18,7-12. 14-16 pertencem a um decálogo de estilo apodítico, que estabelece a defesa da família patriarcal contra a promiscuidade sexual nos tempos da peregrinação no deserto e da vida nomádica. Assim o capitulo 19 e 20 também se concluem.

Juntados por um núcleo formador de uma teologia em compilação NOS ÚLTIMOS DECÊNIOS ANTES DA DESTRUIÇÃO DE JERUSALÉM EM 587 A.C, se encontra o primitivo texto das partes mais antigas dos capítulos de Levítico 18-22; 25, que agrupam a moral com a liturgia. Significativa e importante constatação que nenhuma das punições que se encontram no código da santidade pertencem à esfera da JURISDIÇÃO PROFANA, todas elas são referidas ao culto.

Nota: para não se tornar cansativo, noutra oportunidade continuaremos a abordagem do tema.

Renato Hoffmann

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