Terça Insana, o vídeo do Nation for Marriage e uma velha propaganda alemã

Lendo matéria do site A Capa, sobre o Terça Insana[1], não pude deixar de refletir sobre os estereótipos sociais. E mais, não apenas por ter lido à disposição sobre o grupo humorístico, mas, também, o fato de relacionar isso ao vídeo lançado nos EUA, por uma associação evangélica, que vem reforçando os estigmas e o preconceito social contra os gays (clique aqui para assistir ao vídeo e ler a matéria).

Bem, todos os meus amigos adoram o Terça Insana, e eu também me junto ao coro, e sempre é bom saber das novidades do repertório, que traz entre o humor, à crítica social, do quotidiano satirizado, da reflexão dos valores da contemporaneidade . E desta vez, a temática é gay!

A assunção do comportamento heterossexual, como única forma capaz de satisfazer o ideal das classes sociais, é a fonte do preconceito estabelecido àqueles que dela não comungam, ou vislumbram outra possibilidade. E o grupo humorístico, compreendendo a sacada, inverteu os papéis dominantes, elegendo o comportamento gay como o único aceitável, e o heterossexual como o desvio de valores. Com muito humor, e as caricaturas que fazem parte do processo, fica à reflexão, de como, às vezes, somos ridículos por achar que somente o que queremos é o que tem que se sobressair, ou se impor como verdade contumaz.

Assim, sou levado à outra reflexão: a do vídeo lançado na América do Norte que, também, trabalhando a inversão deste modelo dito “normal”, levanta a acusação de que os gays são os que impõem na sociedade a sua forma de ser. Ou em outras palavras; que quem dita um modelo tirano de sexualidade, como a ÚNICA FORMA POSSÍVEL DE SE SER, SÃO OS GAYS, obviamente, esse grupo se vitima como perseguidos, e sem chão, por viverem em um mundo que não os deixou escolha, ou não os completou, por rejeitarem sua heterossexualidade como anormal, e impor isso, inclusive, aos seus filhos!

Sei que muita gente vai cair nessa, inclusive aqui no Brasil. Como o Norte Americano é pragmático, tenho a impressão que a coisa lá funciona mais pelo poder da persuasão, do marketing, ou do resultado prático e imediato, do apelo às emoções, do que um plano arquitetado para resultados a longuíssimos prazos. Contudo, não sou ingênuo! Numa data atrás, quando escrevi uma matéria para esse blog, intitulada: A Inquisição Protestante, vinha de uma ala luterana, sombria do sínodo sul, a alegação, no Orkut, de uma “ditadura gay” no Brasil. Onde nós, militantes da causa LGBT, estaríamos sufocando a sociedade com nosso estilo de vida, e impondo a todos o comportamento homossexual.

Bem, reagi à alegação, mas como se tratava de alemães e seus descendentes, não poupei esforços na contestação, e parti para história, como prova evidente da má fé que estava disseminada, como algo ingênuo, ou apenas um debate, ou ainda, uma expressão contrária no campo idealístico.

Acontece que há um paralelo, com relações de causalidade, um nexo causal, entre o que está sendo feito, agora, com os gays, com o que foi feito, na Alemanha, com os judeus! Entre 1919- 1923, surge o Nazismo, com o contorno que hoje conhecemos (não vou aprofundar nisso, mas basta saber que o contorno se estabeleceu nesta data). A Alemanha estava falida, vencida numa guerra, e como sanção, via suas reservas irem embora, no Tratado de Versalhes, pelas indenizações devidas. Hitler acabara de se afiliar ao Partido Trabalhista Alemão, e foi por iniciativa dele a mudança do nome do partido (para Partido Nacional- Socialista dos Trabalhadores alemães- NAZI- abreviatura de: Nationalsozialistische) e a organização da pauta programática do mesmo. Ou seja, neste meio surge a cruz gamada como símbolo, o partido como organização paramilitar, a criação das AS (Seções de assalto) e SS (Brigada de Segurança).

A proposta do partido é o poder, aliás, de qualquer partido, mas o nazismo está um passo à frente, ele está formando um exército para a hegemonia de um único partido- o programa fala do totalitarismo. Para manter tudo isso na prática é necessário capital. A Alemanha está falida, e as linhas de crédito, no país, pertencem aos Judeus. Hitler, de olho nas reservas financeiras judaicas, começa a pregar um ódio pelo comportamento judeu. Condena, de forma propagandística, o caos alemão à submissão do capital judeu. Ou seja, a nação não estava falida por ter se enfiado numa guerra, onde mal planejada, não sustentou suas pretensões últimas. A nação não estava falida por sanções impostas internacionalmente, mas, tudo acontecia porque os judeus ocupavam os melhores cargos, os melhores postos, eles controlavam as finanças, enquanto os donos da terra passavam fome e tinham os piores empregos!

Os judeus impunham na Alemanha seu modo de ser, seu comportamento, sua cultura, e mantinham os alemães submissos a eles. Isso Hitler queria incutir na mente alemã, para se apropriar ilicitamente do dinheiro dos judeus, e financiar seu programa partidário. Obviamente, que a coisa não é assim, de imediato, entre 1923- 1932 as idéias nazistas percorreram a Alemanha até Hitler se transformar no Führer, e guiar a nação sem ter que dar satisfações de seus atos (1934). Entretanto, em 1932, Hitler consegue impor sanção financeira aos judeus! O resto da história vocês conhecem...

Caríssimos, basta dizer que no Orkut, depois da minha constatação, o tópico foi apagado, sob a alegação que eu havia causado uma dor profunda em muitos membros da comunidade (devo ter causado mesmo, como diz o ditado: A VERDADE DÓI). Não fui expulso da comunidade, meu nome é Hoffmann, e tenho sitz im leben para poder dizer o que disse. Mas, essa alegação, de uma imposição de comportamento gay na sociedade, é uma propaganda de MODELO NAZISTA, não me restam dúvidas, agora, os resultados finais disso, deixam-me inquieto. Quem está pensando nisso, e divulgando nessa aferição, não está apenas argumentando ingenuamente, mas tem calculado um resultado final, e o desejo é propagar ódio contra a militância LGBT e o comportamento gay. E disso eu tenho medo!


[1] A Terça Insana é uma projeto humorístico que é apresentado, como sugere o nome, toda terça-feira por diferentes atores interpretando variados personagens. O grupo, criado pela atriz Grace Gianoukas em novembro de 2001 na cidade de São Paulo, é composto por um elenco que se modifica em cada temporada.

Com poucas exceções, a maioria dos quadros é monólogo com cerca de dez minutos de duração e o discurso freqüentemente inclui palavrões. Em geral, as apresentações humorísticas também levam à reflexão ao fazer sátira a estereótipos humanos ou a assuntos controversos tais como drogas, pobreza, preconceito, alcoolismo e apatia social, entre outros conflitos do cotidiano.

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