Pró-Conceito de Gays e Lésbicas: um capítulo esquecido

  • Por João Marinho

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Estamos no dia 8 de agosto de 2010, pouco mais de um ano depois que a imprensa gay nacional noticiou a vitória das lésbicas Valéria Melki Busin e Renata Junqueira de Almeida, na Justiça, contra a RedeTV!, que veicula o programa Superpop, de Luciana Gimenez. A sentença foi proferida no dia 8 de julho de 2009, segundo informações d'A Capa (http://acapa.virgula.uol.com.br/site/noticia.asp?codigo=8852), ou seja, estamos exatamente 13 meses depois dessa vitória histórica de militantes contra desmandos de nossa tevê aberta.

Os fatos, de maneira resumida: em março de 2002, Valéria e Renata foram convidadas pelo programa Superpop para darem uma entrevista sobre direitos, preconceitos e problemas enfrentados por casais lésbicos no Brasil após aparecerem em uma reportagem da revista Elle, assinada pelo jornalista Mário Viana. Concordaram de bom grado e, ao chegarem aos estúdios, descobriram que não era uma entrevista, mas um "debate" sensacionalista, um "barraco" armado, no qual teriam de enfrentar, sem direito à defesa ou preparo, um advogado fundamentalista e homofóbico sobre um tema a respeito do qual não tinham sido previamente informadas. Os detalhes estão em um artigo escrito pela própria Valéria para o Observatório da Imprensa (http://www.observatoriodaimprensa.com.br/cadernos/cid200320022.htm), e ensejaram a ação judicial contra a RedeTV! vencida, em primeira instância, em 2009, por meio da assessoria do advogado Eduardo Piza Gomes de Mello, do Instituto Edson Néris.

O que muitos não sabem, porém, é que essa ação judicial não foi a única consequência do desrespeito de que foram vítimas Valéria e Renata no Superpop – e, aqui, passo a narrar em primeira pessoa, em termos de estilo e também no que diz respeito à interpretação dos eventos, um capítulo algo desconhecido ou pouco lembrado da militância gay nacional do qual acabei por tomar parte.

Na sequência da famigerada participação do então casal no Superpop, a militância LGBT paulista ficou furiosa. Não sei dizer se o Fórum Paulisa LGBT existia naquela época – mas soube que foi uma reunião similar, da qual participaram diversos militantes do Estado, que resolveram dar um "basta" aos desmandos e ao descaso com que a mídia vinha tratando assuntos LGBTs e "contra-atacar".

A resposta: realizar um trabalho focado que interferisse para que os assuntos LGBTs pudessem ser abordados com mais respeito e informação. O trabalho começaria com uma proposta ousada: realizar um monitoramento da mídia, a fim de tabelar e verificar quais os programas mais problemáticos e ter um dado objetivo sobre a questão que embasasse futuras estratégias de intervenção. Para o estudo de monitoramento, foi, então, lançado um convite para voluntários, publicado no site Mix Brasil, convidando para uma reunião na livraria Futuro Infinito – uma livraria, que infelizmente não existe mais hoje, no bairro dos Jardins, em São Paulo/SP, especializada em livros GLS.

Nesse ponto, começo a tomar parte da história.

Em 2002, eu estava entrando no meu segundo ano de namoro/casamento que durou sete anos e também no segundo ano de minha faculdade de jornalismo. O tema "mídia" evidentemente me atraía, e conforme ia me inteirando mais de coisas sobre as quais nunca havia pensado e que tive de enfrentar com o casamento – notadamente, na área de direitos gays (que não existiam, digamos assim), fui me interessando em contribuir com alguma coisa para ajudar a situação de gays e afins a melhorar.

Quando vi a convocação do Mix Brasil, não tive dúvidas: uma forma de ajudar na área profissional que eu tinha escolhido: mídia, comunicação. Compareci, então, à reunião na Futuro Infinito.

No entanto, logo veio uma decepção que critico até hoje quando menciono o assunto. Não sei se por falta de articulação, de interesse ou mesmo porque a indignação dos militantes durou apenas o período daquela reunião que resultou na convocação. O fato é que, no dia da reunião na Futuro Infinito, nem mesmo um único militante que tinha dado a ideia do monitoramento ou se indignado com o respeito sofrido por Valéria e Renata apareceu. Ninguém.

O único que sabia algo mais era Sergio Miguez. Que, no entanto, não era militante – mas então proprietário da Futuro Infinito, que gentilmente fornecera o espaço para a reunião. Além dele, meia dúzia de pessoas bem-intencionadas que nunca haviam militado e estavam ali para dar sua contribuição a um estudo que consideravam relevante – e que descobriram, algo surpresas, de que o tal estudo, que foram levadas a crer que já estava planejado, simplesmente não existia. Não passava de uma ideia que alguém deu numa reunião.

Contra o indicado, a meia dúzia de pessoas, todas virgens de militância, resolveu, porém, seguir adiante com a ideia, e as reuniões continuaram.

Não me lembro de todos que passaram por elas, pois alguns sumiram e foram sendo substituídos, mas houve quem, anos depois, veio a ter um envolvimento mais intenso com a militância ou áreas correlatas.

Além de Sergio Miguez, que chegou depois a trabalhar como editor na G Magazine, havia, por exemplo, Fabrício Viana, hoje autor do livro O armário e que, em 2003, criaria, com a ajuda de amigos, o site Armário X (www.armariox.com.br), que permanece no ar até hoje.

Eu, que, por sinal, conheci Fabrício por conta da Pró-Conceito, tomei parte do projeto Armário X, que aqui merece um parênteses devido aos créditos e às pessoas que passaram por ele.

Dele, por exemplo, participaram Washington Calegari, jornalista que hoje é responsável pelo SPTV, da Rede Globo, e que chegou a ser coordenador num período em que Fabrício precisou deixar o projeto por problemas pessoais.

Valmir Júnior também esteve no Armário X. O nome talvez não seja conhecido de todos, mas ele simplesmente foi editor da revista DOM – na verdade, a própria revista surgiu a partir de um projeto seu. Erik Galdino, que trabalhou no Mix Brasil como webmaster e repórter, hoje é webmaster do Disponivel.com e também esteve no Armário X. Outro nome que merece citação – e vou pedindo perdão a outros que não citei, pois não foram poucos os que contribuíram e podem ser conferidos no próprio site – é o psicólogo João Pedrosa, que lançará um livro sobre homossexualidade mês que vem e hoje é mais conhecido por responder dúvidas no site A Capa

Marco Antonio García também esteve no Armário X. Ele, que foi entrevistado pelo site Mix Brasil e se apresentou como gay e evangélico, fundou a lista de discussão GospelGay. Precisou afastar-se, e eu e o teólogo Renato Hoffmann, assumimos a lista que existe até hoje e que originou um blog de sucesso: o Gospel LGBT (o nome foi atualizado): http://gospelgay.blogspot.com/

Cristiane, Alessandra, Renato, Marcus... Foram muitos os nomes que participaram como coordenadores do Armário X. E outros tantos como colaboradores especiais, como o psicólogo Klecius Borges.

Voltando à nossa história inicial, foi Fabrício Viana que batizou o que viria a ser uma nascente ONG: Pró-Conceito de Gays e Lésbicas, que também revelou muita gente boa. Nina Lopes, que, este ano (2010), esteve como DJ na abertura da Parada Gay de São Paulo, também apareceu por lá e esteve conosco e foi responsável por apresentar o projeto de um site. Tínhamos Alessandra, uma hétero que simpatizava com a causa. Alessandro, com quem hoje não tenho mais contato; e Felipe Berlim, que, comigo, escreveu o Guia para Jornalistas e Redatores, a única ação efetiva surgida da Pró-Conceito, que até hoje se encontra no ar (http://virtualbooks.terra.com.br/freebook/didaticos/Guia_para_Jornalistas_e_Redatores.htm), além de outros de que não me recordo.

Sergio Miguez foi eleito o primeiro presidente da então ONG, mas teve de se retirar pouco tempo depois por problemas pessoais que, inclusive, resultaram no fechamento da Futuro Infinito. O estímulo que eu dava para os outros participantes continuarem me jogaram "na fogueira": acabei sendo escolhido para substitui-lo. Na minha cabeça e na cabeça dos membros, havia uma ONG nos moldes da famosa GLAAD - Gay & Lesbian Alliance Against Defamation, dos EUA, que faz um trabalho primoroso e reconhecido de intervenção na mídia.

Infelizmente, porém, as chances estavam contra nós – e, aqui vai uma outra crítica à militância, nos faltou apoio. Éramos todos bem-intencionados, mas inexperientes, e simplesmente não tínhamos ninguém com envergadura acadêmica suficiente para levar o estudo adiante: um sociólogo, por exemplo. Enquanto isso, víamos a expectativa em torno do estudo aumentar. A Pró-Conceito e o estudo de monitoramento foram noticiados em veículos de grande circulação. Acumulamos um clipping exemplar, recebemos contato do exterior, dos EUA, do Equador... E tudo aquilo começou a tomar um tamanho tão grande que pessoas inexperientes não tinham como lidar.

Enquanto isso, a militância paulista, que lançou a ideia e acabou deixando conosco a batata-quente, jamais nos foi dar uma mão. Nós tampouco tínhamos onde pedir ajuda: éramos virgens, como disse, e simplesmente não sabíamos o caminho das pedras ou onde encontrá-la.

Uma tentativa aconteceu por meio da listaGLS. Foi-me indicada essa lista para encontrar militantes experientes, que poderiam nos ajudar, e foi quando eu me filiei a ela. Alguns meses depois, já tinha travado contatos amistosos com gente como Luiz Mott, Beto de Jesus e o proprietário, Roberto Warken. Cheguei, posteriormente, a até mesmo ser um dos moderadores da mesma, posição de que já não desfruto há alguns anos.

O problema é que, apesar desses contatos, já era tarde demais. O estudo não saía (o que era complicado frente às expectativas), começou a ser difícil acionar colaboradores que tinham se oferecido para nós, a equipe se desmotivou. No começo de 2003, quando Fabrício Viana inaugurou o Armário X, a Pró-Conceito de Gays e Lésbicas já tinha se desintegrado, sem ao menos ter obtido um CNPJ :( .

Nosso trabalho, porém, rendeu frutos a longo prazo. Além de ter revelado boas pessoas que ainda hoje trabalham com a questão LGBT, em diferentes áreas, rendeu um Guia que se tornou embrião de outros trabalhos posteriores. Escrito por mim e por Felipe Berlim e revisado pela equipe da Pró-Conceito, o Guia para Jornalistas e Redatores foi traduzido e adaptado para o espanhol pela organização QuitoGay, que também lhe adicionou dados e texto. No Brasil, foi usado como base para um trabalho de graduação de uma militante do grupo Estruturação, de Brasília/DF, do Welton Trindade, que o atualizou e fez um excelente trabalho. Seu último filhote foi ter sido uma das bases para o Manual para a Mídia da ABGLT, lançado ano passado (2009). Nada mal para uma ONG que não deu certo ;).

O trabalho das pessoas que citei, muitos conhecem hoje em dia – mas ele começou lá em 2002, quando éramos virgens e ilustres desconhecidos de uma ONG que não vingou. E eu, que até já fui acusado de jamais ter sido um "militante orgânico", vejam só... Até presidi uma ONG! rs.

De minha parte, a experiência com a Pró-Conceito rendeu frutos pessoais importantes. Conheci pessoas maravilhosas, e, como jornalista, acumulei fontes que se revelariam importantíssimas para minha função atual, como editor da revista Sex Boys. Verdade que nunca mais participei de nenhuma ONG como membro, mas tenho cá algumas ações que contaram com minha colaboração, especialmente ligadas à ABGLT.

A pedido de Toni Reis, escrevi de comunicados a ofícios. Participei da revisão do citado Manual da ABGLT, cuja revisão final ficou a cargo de Ferdinando Martins e o trabalho de edição de Liandro Lindner. E, assessorando o excelente advogado Carlos Alexandre, do Rio de Janeiro, tomei parte das ações que resultaram no processo da ABGLT contra a psicóloga fundamentalista Rozangela Justino. Uma de minhas ações foi realizar o abaixo-assinado com psicólogos de todos os Conselhos de Psicologia do Brasil. Isso, claro, além de não deixar de exercer uma função ativista como jornalista, além do trabalho que desempenhei no Armário X, o único site que conheço no Brasil a estimular a "saída do armário" (sem deixar de contemplar pais e amigos).

Resolvo contar essa história primeiro para fazer jus a muita gente boa que hoje ajuda a militância, milita de forma individual e/ou tem ações que se tornaram relevantes para muitos LGBTs (o número de pessoas que a lista GospelGay já ajudou é inestimável), alguns dos quais participam de listas de discussão sem que ninguém saiba sua origem.

Segundo, para mostrar, num período em que a renovação da militância está novamente em pauta, que, SIM, é possível atrair gente nova. Eu fui um dos atraídos, afinal. Basta apenas que, uma vez atraída essa gente nova, se dê apoio, que se compartilhe experiência e se dê espaço para que ela possa crescer e frutificar: coisas, que, infelizmente, faltaram quando da existência da Pró-Conceito.

É isso.

João Marinho

Comentários

  1. Nao concordo com a lei da homossexualidade, visto que so se casam pessoas de sexo diferentes e nao do mesmo sexo.Vicente Andrade

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  2. Nao concordo com a lei da homossexualidade, visto que so se casam pessoas de sexo diferentes e nao do mesmo sexo.Vicente Andrade

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  3. Não sei de onde vc tirou isso. Basta que a lei mude, e quem quiser se casa. Aliás, casar, casamento, casal vem de casa - de morar junto. O que já fazem.

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