segunda-feira, março 07, 2011

Carnaval: a superação do medo do corpo

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Um rito pagão? Talvez, mas com certeza um rito cristão! O carnaval, como uma festa que integra a simbologia religiosa cristã ocidental, surge no século XI, quando a Igreja Católica institui oficialmente uma data para a Quaresma. Desta feita, a festa passou a significar uma euforia, despedida de todo o prazer corpóreo para um período de penitências e sacrifícios, aonde cada cristão seria chamado à conversão interior, preparando-se para a passagem, ou páscoa.

Óbvio que a festa não nasce no século XI da era cristã, e estudos a colocam no Egito antigo, como um festejo para a deusa Isis ou o deus Osíris. Contudo, o fato majestoso é a capacidade que o carnaval tem de fazer soberanos e plebeus se assentarem no mesmo banco e comungarem da mesma alegria. Não há teatro, não há palco não há hipocrisia.

Um filósofo russo, que estudou o carnaval na idade média afirmou:

 










Mikhail Bakhtin

Na verdade, o carnaval ignora toda distinção entre atores e espectadores. Também ignora o palco, mesmo na sua forma embrionária. Pois o palco teria destruído o carnaval ( e inversamente, a destruição do palco teria destruído o espetáculo teatral).

Os espectadores não assistem ao carnaval, eles o vivem, uma vez que o carnaval pela sua própria natureza existe para todo o povo. Enquanto dura o carnaval, não se conhece outra vida senão o carnaval. Impossível escapar a ela, pois o carnaval não tem nenhuma fronteira espacial. Durante a realização da festa só se pode viver de acordo com as suas leis, isto é, as leis da liberdade. O carnaval possui um caráter universal é um estado peculiar do mundo: o seu renascimento e a sua renovação, dos quais participa cada indivíduo. Essa é a própria essência do carnaval, e os que participam dos festejos sentem-no profundamente.

Nietzsche também contribuiu com pensamento semelhante ao dizer à festa, para ele, sendo um rito coletivo, no qual, o folião fantasiado se transforma num outro, numa espécie de efeito purificador e regulador do equilíbrio social. Seriam três dias de trégua, de superação da hipocrisia social e do medo do próprio corpo.

E por falar em medo do corpo, quem, na cultura ocidental, tem mais medo do corpo do que os cristãos? Naquela junção entre a fé e o estoicismo exacerbado, o corpo é mau, a carne é objeto impuro, fonte do pecado e de toda a contaminação da alma. Um dualismo platônico colocado na boca do Cristo, que nunca se referiu ao corpo como algo sujo ou desvalorizado, nos Evangelhos.

A moral cristã tem medo do corpo, pois tem medo do ridículo. Um cristão não sabe rir de si mesmo, apenas se condenar, e se condenar num processo infinito de culpa e autopunições; não é a Graça que se liga à fé para o cristão, mas o medo de ser condenado, a trsiteza da vida, o medo do inferno, o medo do corpo.

Levei meus sobrinhos para eles pularem o carnaval, todos eles pequeninos, o maiorzinho não queria ir para o salão, eu insistia, e ele me disse: “tenho vergonha tio, não sei dançar, as pessoas vão debochar de mim”. E ele não via as pessoas fantasiadas, ou os passos sem ritmo de muitos que ali estavam. Ele apenas tinha aquele conceito cristão de que se eu não fizer algo certo serei punido. Ele não entendeu o que é o carnaval.

Perguntei a ele: “você confia no titio?” ele disse “confio” então pedi para que ele imitasse o que eu estava fazendo e ele imitou, peguei na mãozinha dele o levei ao meio do salão, onde se encontrava seu irmãozinho. Ele percebeu que ninguém o reprovava, e que somente tudo era válido, qualquer passo, qualquer brincadeira, o importante era rir de si mesmo, e rir com todos.

O carnaval é uma festa cristã em contradição, um paradoxo, um rito, não por que seu fim dá início à Quaresma. Mas pelo fato dele trazer em si mesmo um sentimento universal de fraternidade, igualdade e alegria. No carnaval, sem hipocrisia, celebra-se a vida, os encontros, a humanidade. Não há um palco, não há teatro, ninguém representa nada, embora você possa estar fantasiado de qualquer coisa, você é você mesmo, e sua alegria de poder brincar a humanidade e sorrir. Veja, há uma mensagem de Jesus aí: “... ao próximo como a ti mesmo!”.

O carnaval é um rito cristão, mas que não foi inventado pelo cristianismo, e por isso muitos cristãos o satanizam, os mais fundamentalistas têm horror à alegria e à liberdade e não conseguem enxergar Deus fora de seu domínio e fora de suas próprias regras, que dizem ser a Bíblia, mas de interpretação própria e pessoal! E talvez, você que lê esse texto me diga: “Mas Renato, o carnaval tem muito sexo e as pessoas transam sem pudor!”. Então, deixe-me lhe dizer uma coisa:

Eu tinha uma empregada diarista aqui em casa, e que também trabalhava como contratada da Igreja Metodista, diga-se de passagem, era uma moça linda, de corpo perfeito e rostinho de boneca, e uma vez ela me chamou e disse que queria conversar comigo, pelo fato de eu ser luterano, ela queria um alento para sua alma que estava muito perturbada. Sentei com ela à mesa, enquanto tomava meu café, aliás, nesse dia ela tomou café comigo. Foi quando ela me disse que havia transado com o pastor, e que eles fizeram sexo em cima do altar da igreja.

Eu fiquei surpreso, mas queria entender a preocupação dela, ela não tinha problemas com o pastor ser casado, e penso eu que nem o pastor tinha problemas com isso! Ela só estava com medo de acontecer alguma maldição, pois ela havia transado em cima de uma mesa (altar) que ficava em um palco, chamado de presbitério, onde tem um púlpito! Disse a ela: “não, você não foi amaldiçoada por isso não, pode ficar tranquila, é só um palco, que eles representam um tanto de coisas”! Pois é, caro leitor, o pastor fez isso e ele não pula carnaval, aliás, ele condena quem pula!

Muitos padres católicos contratam garotos e garotas de programa para transarem com eles dentro das casas paroquiais, que ficam, geralmente, nos fundos das igrejas locais! E eles também costumam não recomendar os festejos. O que eu quero dizer é que ninguém precisa de carnaval para poder transar, e que se no carnaval há uma exposição do nu, isso é natural, pois o homem e a mulher nascem sem roupas, mas a hipocrisia social colocou panos nos sexos e chamou isso de pudor! A bíblia fala que foi Deus quem colocou, por conta do pecado, mas pecado não é estar vestido ou despido. Pecado é aquilo que passa no seu coração e afeta sua mente, para enganar, trapacear, fraudar e ferir a integridade do outro, que você deveria amar, como a si mesmo! E o carnaval, continua sendo uma celebração do homem que a despeito de qualquer coisa impera a alegria. Portanto, pule o carnaval como um bom cristão! E não tenha medo de seu corpo, nós podemos rir de nós mesmos, e nos alegrar com isso.

Aproveito para deixar o desfile da Mangueira, emocionou à avenida!

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