Pentecostalismo, Umbanda e Candomblé


Possessão na umbanda e no pentecostalismo: estudos de hermenêutica negra sobre a religiosidade cristã do afro-descendente

Fernando Antonio da Silva Alves

Introdução

Investir em um estudo do tema da possessão pode revelar a superação de resistências cientificistas ou, ao menos, pode vir ao encontro da elucidação de armadilhas conceituais, que levam alguns a confundir possessão com superstição, adivinhação ou tão e simplesmente mediunidade.

A forma como o povo negro particularmente vivenciou fatos tidos como possessão no âmbito da prática de sua religiosidade mereceu destaque entre diversos estudos teológicos e sociológicos. No Brasil, atualmente, sabe-se de uma proliferação de comunidades religiosas e de uma multiplicação de crenças. O pensamento protestante brasileiro, assim como outras vertentes da religiosidade cristã, além da Igreja Católica, tem debatido sobre o surgimento de novas igrejas, crescimento do número de fiéis, assim como vem observando os movimentos de aproximação ou distanciamento de cristãos com membros de outras religiões ou seitas.

Interessa, especialmente neste estudo, observar como é possível fazer uma análise crítica da entronização de determinadas práticas, ritos ou conceitos de uma dada religião específica com a fé cristã, procurando estabelecer um diálogo inter-religioso, e, sobretudo, uma definição do fenômeno da possessão sem o véu do preconceito, causado pelo senso comum daqueles que consideram tais temas assuntos relacionados às práticas ou crendices de marginalizados ou socialmente excluídos.

A presença da influência da raça, particularmente da negritude no Brasil, é emblemática no sentido de promover socialmente a integração histórica do negro nas comunidades religiosas, a partir de seu referencial situado nos cultos da ancestralidade africana dos escravos na época da colonização portuguesa, até chegar aos novos movimentos de avivamento da fé cristã no século passado, capitaneados pelas igrejas cristãs pentecostais, no âmbito das grandes cidades brasileiras, e nas comunidades pobres de periferia, mais carentes de políticas públicas.

A inserção da religiosidade negra na cultura nacional: os cultos de origem africana

A religiosidade das tribos da África Negra foi constatada pelo colonizador português nas primeiras levas de escravos tirados pela força de suas terras e levadas ao Brasil para o trabalho na agricultura. Na África, em um povo agricultor, o culto às divindades estava voltado para a fecundidade dos rebanhos e colheitas. Assim como na agricultura, nas relações sociais, a fertilidade das mulheres estava associada ao culto das divindades. Portanto, o povo africano relacionava o sagrado com sua vida diária, e, na condição de escravizados pelo colonizador branco, passou também a exercer sua religiosidade como forma de enfrentar a escravidão.

Desta forma, destacam-se nas tribos africanas, como dos Yorubas, divindades como Ogum, Xangô ou Exu. Estas figuras, no imaginário tribal do negro africano, representam diversas facetas da sociedade em suas disputas ou conflitos sociais. Pede-se aos deuses proteção e ânimo, no intuito de garantir vitória nas empreitadas, justiça nas decisões, vingança contra os agressores, prosperidade nos negócios, etc. Porém, com a chegada dos escravos negros ao Brasil, os deuses serão cultuados em um contexto de exploração racial. Assim, o culto às divindades passa a ser utilizado como forma de combate ao explorador branco.

Preces e mandingas passam a ser realizadas no sentido de que os deuses gerem fraqueza ao senhor branco, como o fim de suas colheitas pela ausência de chuvas, infertilidade nas mulheres negras a fim de não serem violentadas pelos brancos, poções a serem tomadas pelos brancos, a fim de que caiam doentes, permitindo a fuga dos escravizados em direção aos quilombos, lugares foco de resistência à exploração da classe dominante escravagista.

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    Com o fim da escravidão no Brasil somente nas proximidades do fim do século XIX, permaneceram, porém, crenças e ritos remanescentes da senzala, que passaram a ser um dos traços identificadores da herança do negro africano na cultura brasileira.

    O candomblé e a umbanda, com suas figuras míticas simbolizadas pelos orixás, passaram a se manifestar em terreiros espalhados pelo país, geralmente em lugares em que jaziam comunidades de periferia, excluídos ou socialmente desamparados. Porém, não demorou muitas décadas para que, no século XX, diferentes extratos de classes sociais distintas passassem a frequentar esses lugares em busca de uma orientação das divindades, de um contato com o sobrenatural não fornecido com êxito pelo acesso a outras religiões.

    Pais e mães de santo passaram a adquirir certo status social dentro de uma nova sociedade capitalista, industrializada e urbanizada que vinha surgindo no país, nos moldes de uma modernidade tardia, face o atraso das mudanças sociopolíticas e a demora do avanço tecnológico, em fatos já ocorridos na Europa no século anterior.
    Desta forma, assim como a religiosidade cristã de igrejas pentecostais nascentes no começo do século passado, como a Assembléia de Deus, que passou a ter vulto e a arrebanhar fiéis nas comunidades pobres e proletarizadas dos centros urbanos nascentes, também os cultos de origem africana tiveram seu destaque principalmente entre a população negra e pobre da periferia.

    Rituais de possessão, em que espíritos ou figuras sobrenaturais ingressavam no corpo de indivíduos, passaram a ser registrados como rotina, em terreiros de umbanda ou templos de igrejas, no cotidiano dessas comunidades, em que se encontravam presentes tanto igrejas de cristãos pentescostais como adeptos de crenças umbandistas.

    Por uma hermenêutica negra

    Ao se falar de uma hermenêutica do texto bíblico acerca da participação do povo da raça negra na construção da igreja, apontam-se marcas ou características distintas dessa hermenêutica, baseada em uma interpretação da presença da negritude na Bíblia, em que se constata o compromisso da comunidade negra com o evangelho de Cristo, sua predisposição de dialogar com outra comunidades negras de religiões distintas, com uma defesa da libertação dos povos contra o preconceito racial e em uma sabedoria resultante do equilíbrio entre um respeito às tradições do povo negro e o saber teológico acerca da palavra divina.

    Desta forma, ao se interpretar fenômenos religiosos, quer sejam eles associados ao exercício da fé cristã ou materializados nas práticas associadas a cultos africanos, deve-se perceber em todo esse enfoque hermenêutico não apenas como se dá a presença do negro, mas também como a religiosidade oriunda do povo negro pôde, efetivamente, influenciar no crescimento da igreja evangélica em solo nacional. Deparar-se com a presença do negro é encarar o horizonte de suas tradições, enraizadas em suas origens africanas e em 400 anos de exploração do negro pelo colonizador branco no país.

    Tanto nos países africanos com predominância da religião islâmica, quanto nos países de maioria católica como o Brasil, em que se vê uma imensa quantidade de negros e afro-descendentes (principalmente em estados como Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco e Maranhão), é indubitável que no exercício de sua fé, os negros não se encontram desvencilhados de sua origem étnica e da tradição inerente aos povos cuja raça tais indivíduos passam a demonstrar.

    Esta tradição deixou marcas não apenas na musicalidade, na culinária, no vestuário ou no vocabulário da sociedade brasileira, mas também na religiosidade que no Brasil se expressa a partir de cultos como o candomblé e a umbanda, mesmo com o advento do modelo ideal de cristianismo, branco, nacionalista, conservador e elitizado, como foi o modelo transmitido pelo português católico aos negros escravizados nos tempos do Brasil Colônia ou no período do Império, com a vinda das primeiras missões protestantes, especialmente a luterana.

    Hermenêutica da possessão

    O fenômeno da possessão é vistosob dois aspectos distintos: primeiro, em uma perspectiva individual, na relação do indivíduo com o sobrenatural; e, segundo, em uma dimensão social, em que os cultos da possessão passam a ser vislumbrados no âmbito das relações sociais.

    A interpretação é distinta conforme o fenômeno se dá dentro dos rituais da umbanda ou dentro de uma igreja pentecostal. Para a umbanda, a possessão materializa-se com a experiência do transe. Geralmente as pessoas que procuram um terreiro de umbanda encontram-se acometidas por dores, angústias ou alguma doença. Ao se submeter ao pai ou uma mãe de santo, o enfermo descobre que sua enfermidade na verdade é a presença de um espírito que, de acordo com a crença umbandista, quer que aquele indivíduo se torne seu “cavalo”, ou seja, o indivíduo convocado ao transe é montado pelo espírito, passa a ser morada daquele espírito que utiliza o enfermo como médium ou filho de santo, como correia de transmissão do espírito possuidor com o mundo físico do possuído.

    Dependendo do terreiro em que o indivíduo se encontra, ele pode ter sido possuído por espíritos de almas desencarnadas de crianças e velhos ou por orixás (como no caso do candomblé). O curioso é que tanto nas religiões africanas quanto na religião cristã, especialmente no catolicismo, o transe do possuído está associado a alguma enfermidade em sua origem, necessitando da ação sobrenatural coordenada por um sacerdote (um padre no exorcismo ou um pai de santo no terreiro) para invocar o espírito que possuiu o médium, e, se for o caso, expulsá-lo, erradicando o mal.
    A diferença que se pode notar quanto à importância da possessão na umbanda é de que nessa religião a experiência do transe deve ser repetida várias vezes, para confirmar a vocação do indivíduo de seu estreito vínculo com o sobrenatural, dando-lhe características distintas, especiais, de uma espiritualidade definida por tal acontecimento.

    Já no pentecostalismo, o episódio é retratado de forma totalmente negativa, devendo ser eliminado já em sua primeira aparição graças à intervenção do sacerdote, expulsando os espíritos tidos como malignos. Substitui-se na igreja pentecostal o fenômeno da possessão por outro fenômeno espiritual, este sim de características positivas e bem vindas: o falar em línguas (glossolalia), tido como experiência de conversão, pela ação sagrada do Espírito Santo.

    De qualquer forma, percebe-se que em ambas as religiões existe um traço em comum ao privilegiar a presença de espíritos como elemento definidor da vivência do sagrado no âmbito da prática religiosa.

    Seres sagrados como orixás ou exus nas religiões africanas, ou santas, anjos ou o Espírito Santo para as religiões católicas e protestantes, somente são sagrados se pensados como espíritos, enquanto representações daquilo que é pensado pela crença.
    A possessão tem, portanto, um locus especial no exercício da fé, seja entre os umbandistas ou no ambiente dos pentecostais. A presença do negro no pentecostalismo e o lugar da possessão Viu-se que o fenômeno chamado de possessão é rotineiro e faz parte do conjunto de crenças das religiões de matriz africana.

    Vê-se nela a ação possível de orixás ou de figuras míticas como o caboclo, o índio, o preto-velho e a criança, caros aos ritos umbandistas. Tais crenças e tais figuras foram trazidas pelo negro africano ao Brasil no período da escravidão e aqui permaneceram mesmo com o predomínio da Igreja Católica e o advento das comunidades protestantes. Soma-se a isso o fato de que as igrejas cristãs, notadamente as pentecostais, sempre demonstraram um acentuado crescimento nas comunidades mais pobres com maioria negra, despontando não apenas como opção para os mais pobres, mas também como opção para os negros.

    A forte presença de negros nas igrejas pentecostais não se deu por mero acidente histórico. Ao voltar-se para uma abordagem da hermenêutica negra já tratada neste artigo e também considerada a já estudada religiosidade do povo africano escravizado, que foi trazido até o país pelo branco explorador, não se pode esquecer que tal religiosidade não soçobrou diante da realidade da escravidão, e, ao contrário, fortaleceu-se, originando os traços hereditários da presença negra no meio social, do que viria a se tornar parte da cultura nacional.

    Vale salientar que a liturgia da igreja pentecostal, de forte cunho emocional, a participação ativa do grupo em celebração e a presença manifesta de um misticismo corporificado mediante rituais que levavam em conta a possessão, serviu como vetor de atração do negro brasileiro afro descendente. As demais igrejas evangélicas tidas como históricas, apresentaram traços marcantes da cultura europeia na catequização ou na realização do culto que pareceram, em um primeiro momento, um tanto quanto estranhas a vários negros pobres, marginalizados e de baixa instrução.

    Não restam dúvidas de que a pregação pentecostal da palavra de Deus, enfatizada na salvação pela negação das coisas do mundo, pela abertura à entrada do Espírito Santo e pela experiência catárquica do falar em línguas exóticas, age de maneira arrebatadora em muitos dos negros favelizados ou desempregados, desrespeitados em seus direitos, humilhados por sua condição social e de raça, desesperançados por causa de uma sociedade excludente, em que uma maioria branca ainda dita as regras do poder econômico e conduz a maior parte dos processos políticos.

    Porém, não é menos notável que tanto o pentecostalismo quanto a umbanda são manifestações de religiosidade que contam com uma presença significativa da comunidade da cor negra, senão com a maioria de negros em seu interior. Tanto uma quanto outra se apegam a modelos de religiosidade em que a presença de espíritos é fortemente associada ao culto. E não é de menos importância que existe no meio social um âmbito de competitividade entre ambas as instituições religiosas.

    Ora, as sessões de descarrego ou de exorcismo em muitas das igrejas tidas hoje como neopentecostais deve muito seu formato aos rituais da umbanda. Também nessas igrejas percebem-se fiéis vivenciando a experiência do transe que ocorre de forma semelhante nos terreiros de umbanda, assim como em igrejas como a Assembléia de Deus, a glossolalia é obtida também mediante um transe, em que o crente passa então a falar em línguas estranhas.

    Será que poderíamos falar de uma “umbandização” da religiosidade cristã nas igrejas pentecostais com a presença do negro? Observa-se que o lugar especial que é dado à possessão, como já foi visto, é interpretado de maneira diferente pela umbanda ou pelo pentecostalismo.

    De qualquer maneira, o que importa ressaltar nesse estudo é que no que tange à possessão, observa-se que nos terreiros e nos templos os traços da cultura negra encontram-se visivelmente presentes. É ideia forte nos estudos da religiosidade feitos pela antropologia de que as igrejas cristãs têm, por característica, a blindagem de suas fronteiras institucionais e simbólicas à influência externa de outras manifestações religiosas, que propiciariam o sincretismo, notadamente as igrejas protestantes.

    Ora, ao menos na interpretação que se pode ter do fenômeno da possessão, o importante a ser observado é de que a possessão não nasce na religião africana, e, na verdade, tem, inclusive, previsão bíblica. Nas passagens do evangelho retratadas nos Sinóticos, particularmente em Marcos 5 e em Lucas 9.37-43, vê-se que Jesus se deparou com pessoas atormentadas por espíritos malignos que as possuíram.

    Nas duas passagens, Jesus interveio expulsando os espíritos, curando aqueles que se achavam enfermos. Ora, se for entendida a exegese do texto bíblico na ênfase aos poderes miraculosos da ação divina, Jesus manifestou um dos maiores dons de Deus que é o dom da cura, mostrando assim que era sua palavra a cura para todos os malefícios, inclusive os males do espírito.

    Dependendo de que forma for interpretado o texto, poder-se-á ter um entendimento de que toda manifestação espiritual associada a uma enfermidade resulta da ação maléfica do diabo, devendo o possuído ser submetido a um exorcismo, inclusive de todas as divindades associadas à umbanda, identificadas agora como demônios, como bem entende a crença pentecostal.

    Entretanto, se a umbanda for vista sociologicamente como uma reação pela religiosidade do negro oprimido à opressão do branco escravista, e se a mitologia dos orixás, assim como é apreendida na Igreja Católica (que transformou São Jorge em Ogum e São Jerônimo em Xangô), também é assimilada por via oblíqua pelas igrejas evangélicas, nos rituais de exorcismo ou na glossolalia dos cultos pentecostais, pode ser possível estabelecer vínculos de contato ou mesmo construir canais de diálogo que transpõem o mero preconceito ou que não se identificam com o racismo.

    Ora, sabe-se o quão delicada é a fronteira entre o universo da crença pentecostal e o que pregam os umbandistas. Porém, conscientes de que além de cristãos os integrantes da igreja também são membros de uma sociedade, uma hermenêutica negra nesse momento é válida no sentido de chamar a atenção do intérprete do texto bíblico para a necessidade de entender o crente que a palavra de Deus é dirigida a todos os povos, mas tais povos aceitam a palavra trazendo consigo suas influências de raça e cultura.

    Será que o eunuco etíope encontrado por Filipe na estrada de Jerusalém a Gaza, narrada biblicamente em Atos 8.26-40, renunciou a sua condição de negro, etíope e incircunciso ao ser batizado, aderindo à crença em Cristo, ou, ao contrário, foi a palavra de Deus pela crença em Jesus que chegou àquele homem, independente de sua nacionalidade, etnia ou status cultural? Será que não seriam todos (incluindo- se pentecostais e umbandistas) filhos de Deus?

    Conclusão

    Conclui-se que um dos mecanismos de ingresso do povo negro na cultura nacional deu-se por meio das comunidades religiosas, culminando com a existência de cultos afro-descendentes como a umbanda. Porém, a dimensão do sagrado visualizada na possessão, típica da umbanda, estendeu- se ao âmbito de outras manifestações religiosas, culminando com sua presença na religiosidade cristã, mormente na igreja pentecostal, que passou por um processo de forte inclusão de negros em seu interior. Logo, não obstante o caráter estrangeiro e particularista da missão religiosa cristã vinda com o colonizador português de origem católica ou com o missionário europeu protestante, em contraste com a universalidade da palavra de Deus exortada na Bíblica, tal presença do cristianismo em solo brasileiro não esteve imune à influência da herança cultural negra, assim como outros segmentos e instituições que fazem parte da cultura nacional, conforme estudos pautados em uma hermenêutica da influência da presença negra na religiosidade cristã.


Texto originalmente publicado na Revista Identidade- da Escola Superior de Teologia de São Leopoldo- da Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil

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