Gays "saem do armário" cada vez mais jovens

Realidade.Pesquisa mostra que maioria dos jovens revela orientação sexual antes de chegar aos 15 anos

 

Publicado no Jornal OTEMPO em 02/05/2011

FOTO: CRISTIANO TRAD

Exemplo. Aos 21 anos, Pedro é uma exceção; contou aos pais sobre sua orientação sexual quando tinha 16 anos

Os jovens gays estão assumindo a homossexualidade antes dos 15 anos e, na maioria das vezes, contam primeiro para a mãe. A tendência foi comprovada em um estudo da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, que entrevistou mais de 800 pessoas com idades entre 10 e 24 anos. O levantamento mostrou também que um em cada três indivíduos com sexualidade diferente da hetero assumiu ser gay entre 10 e 14 anos. Pelo menos 70% escolheram a mãe como apoio.

Mas o fenômeno ainda está longe de encontrar um cenário pacífico. Na última semana, um vídeo no site YouTube que mostrava um estudante recebendo uma declaração de amor de um outro rapaz na porta de uma escola na capital ganhou apoio de grande parte dos colegas de colégio, mas também foi alvo de centenas de críticas homofóbicas.

Uma universitária de 22 anos que se assumiu lésbica para os pais aos 14 anos disse à reportagem que, embora seja "aberta" para a família e amigos, não iria gostar de se expor como o estudante. "Meus pais iriam odiar. E eu também não teria coragem de beijar na frente de todo mundo", afirmou.

Poucos são aqueles que aceitam se expor e falar abertamente do assunto. O estudante de enfermagem Pedro Henrique Gomes, 21, é exceção. Ele contou para a família que é gay aos 16 anos, quando começou a namorar. No entanto, diz que teve que encarar a homofobia dos pais. "Inicialmente, ficaram assustados, mas depois disseram que estava tudo bem. Mas enfrentei uma série de problemas e tive que ‘sair do armário’ mais de uma vez".

Para Daniel Arruda, coordenador do projeto Educação sem Homofobia, do Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT da UFMG, a mídia está se abrindo a um tratamento mais sério e respeitoso sobre o assunto, e as obras de ficção têm abordado experiências da homossexualidade, desmistificando o assunto. "Jovens e adolescentes de diferentes contextos e classes sociais têm encontrado espaços e recursos que contribuem para a afirmação de uma identidade homossexual e, ainda, formas de expressar sua sexualidade", analisa Arruda.

Pais. Enquanto a faixa etária de gays assumidos diminui, aumenta o número de mães e pais que se isolam. Há casos em que eles se revoltam com a realidade dos filhos. A especialista em diversidade sexual e questões de gênero, Edith Modesto, escreveu sobre o tema no livro "Mãe sempre sabe?", após se dar conta de que o caçula de sete filhos era gay. "Foi há 22 anos. Eu era uma professora universitária, me achava moderna e, de repente, me vi com essa bomba. Passei por todas as fases do sofrimento. Eu sabia que se eu conversasse com outra mãe iria ser melhor. Mas cadê essa mãe?", contou.

Mais de 200 mães no país fazem parte do Grupo de Pais Homossexuais (GPH), fundado por Edith em 1997. "É difícil os pais terem uma aceitação como a do Toninho Cerezo em relação à filha transexual. Eles precisam de apoio", disse.

FOTO: E-JOVEM/DIVULGAÇÃO

Grupo de apoio. Integrantes do grupo E-Jovem, de Uberlândia, em encontro de lazer pela diversidade sexual

Encontros ajudam no debate

Jovens mineiros podem encontrar no site do grupo E-Jovem apoio em diversas regiões do Estado para enfrentar problemas de aceitação, discriminação ou compartilhar atividades comuns com temáticas homossexuais. Em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, o coordenador do grupo, Bruno Miranda, 24, atende 60 pessoas entre 15 e 35 anos que têm interesses comuns e que participam de atividades desde piqueniques em parques a sessões de cinema.

"O E-jovem tem como característica promover encontros fora dos estereótipos LGBT, de festas, boates e sexo. A gente conversa sobre os problemas que muitos trazem com os pais, medos, bullying na escola. A gente tenta ajudar através das experiências que outros também tiveram", afirmou. (FMM)

FOTO: RODRIGO CLEMENTE - 2.12.2010

Maturidade

"As coisas se ajeitam quando existe o amor"

Ex-jogador de futebol afirma que família teve dificuldades para enfrentar tabu

Flávia Martins y Miguel

De ex-jogador de futebol com fama mundial, Toninho Cerezo, 56, hoje também é conhecido como o pai da modelo transexual Lea T., 29.

Requisitada nas passarelas internacionais, Lea já desfilou para marcas de moda importantes como a francesa Givenchy, participou do São Paulo Fashion Week com status de celebridade e se prepara para uma cirurgia de mudança de sexo.

Há dois anos, ela começou a tomar hormônios para iniciar o processo de transição de gênero. O assunto foi o tema central de uma entrevista que Lea concedeu à Oprah Winfrey, a apresentadora de TV mais popular dos Estados Unidos, em fevereiro último.

O ex-atleta e treinador de futebol é pai de quatro filhos. Lea nasceu em 1981 com o nome de Leandro Cerezo. A coragem da filha em assumir sua identidade transexual há pouco mais de três anos foi difícil para a família na época, como revela o pai em entrevista a O TEMPO. No entanto, segundo ele, "as coisas se ajeitam". Orgulhoso do sucesso da modelo, Cerezo enxerga a coragem da filha como uma "bandeira grande" que ela está levantando para o mundo. E afirma com convicção que ela tem marcado uma época.

Cerezo diz ter consciência da dificuldade enfrentada por pessoas como sua filha, que não têm alternativa a não ser enfrentar a discriminação a todo momento. Ele mesmo confessa que também é alvo de críticas e comentários preconceituosos por onde passa. No entanto, prefere valorizar mais as pessoas que o param na rua para apoiá-lo. "Muitos fãs dizem que me admiram ainda mais por conta da minha postura".

A filha do técnico de futebol mora na Itália, onde foi criada desde criança por causa do trabalho do pai. Ela é estilista e foi descoberta pelo diretor de criação da Givenchy, Ricardo Tisci, para ser o rosto da campanha da marca no inverno de 2010/2011. Desde então, a modelo se tornou a sensação fashion mundial. Ao lado de tops famosas, como Kate Moss, Lea, de 1,80m e 48 kg, disputa as principais passarelas da Europa nos desfiles da alta costura.

Machismo. O ambiente "machista" do futebol, como o próprio ex-jogador definiu, não o preparou para lidar com a sexualidade da filha. Durante a carreira, Cerezo sempre demonstrou competência para enfrentar a marcação dos adversários e receber os aplausos de torcedores do Atlético Mineiro, São Paulo Roma e Sampdoria. No entanto, após a aposentadoria, ele teve mais uma vez que driblar uma realidade ainda difícil para muitos pais: um filho transexual.

Em uma carta enviada para a revista feminina "Lola", Cerezo faz uma declaração de amor e respeito à filha Lea T. Em um texto emocionado, ele conta como foi observando que o Leandro de anos atrás era diferente dos outros meninos. Mesmo assim, ele declarou: "Leandro ou Lea, não importa mais, sempre serei seu pai e você, orgulhosamente, um pedaço de mim". Confira abaixo a entrevista que o ex-jogador concedeu à reportagem.

FOTO: CARLOS ZAMBROTTI /AGNEWS - 29.1.2011

Mensagem de um pai

Trecho da carta de Toninho Cerezo enviada à revista "LOLA":

"Pode ser que eu tenha sido negligente como pai, mas não há motivos para frustrações. Não podemos ser bons em tudo. E você, Lea T. Cerezo, sabe muito mais que embaixadinhas. Teve coragem de, elegantemente, tentar quebrar paradigmas e mostrar ao mundo que devemos aceitar, sim, as diferenças, ser tolerantes com a diversidade, entender e não julgar aquilo
que não conhecemos. O caminho pode ser longo, mas com certeza não será o mesmo depois de você. A paternidade é livre de qualquer padrão, de qualquer critério imposto pela sociedade.

Filho deve ser aceito na sua totalidade, na sua integral condição de vida, independentemente de sua sexualidade. Sendo assim, aqui ou lá, torço por você, Lea. menino ou menina, Leandro ou Lea, não importa mais, sempre serei seu pai e você, orgulhosamente, um pedaço de mim".

Minientrevista

Entrevista com Toninho Cerezo

Ex-jogador de futebol

Como foi para você lidar com a transexualidade da sua filha?
No primeiro momento é um impacto muito grande. E o tempo ajuda demais as coisas a se adequarem, se acalmarem. Você sempre vai olhar o seu filho com os olhos de pai. E depois, quando eles crescem, você não tem mais como ter controle da vida deles. Acho que o que eles precisam mais é de apoio.


O que você diria para os pais que hoje passam por uma experiência semelhante, no que diz respeito à aceitação da sexualidade dos filhos?
As coisas se ajeitam quando existe o amor. Isso é fundamental! Não tome medidas imediatas, deixe as coisas acontecerem naturalmente. Não tenho ou tive experiência para encarar esse assunto. Venho de um ambiente machista do futebol. Mas quando as coisas se tornam família, pai e filho, é outra coisa. E Deus é tão bom que ele mostra que o tempo se encarrega das coisas. Quando há carinho das duas partes, existe um maior comprometimento também.


E qual é a visão que você tem da sua filha hoje?
Ela sempre batalhou sozinha. Só se abriu depois de um determinado tempo. Foi um sofrimento muito grande, muita solidão. Vejo como ela luta em um ambiente competitivo e carregado. As coisas estão mudando, mas existe uma discriminação muito grande ainda. Eu acho que ela levantou uma bandeira grande, e foi muito importante. E acho que ela vai marcar uma época.


Você tem quantos filhos?
Agora? Eu tenho três meninas e um menino. (FMM)

Fonte: O tempo

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