Um teste de tolerância



Embora muitas vezes esteja disfarçado pelo discurso do politicamente correto, o desconforto diante de uma demonstração de carinho entre homossexuais não só existe como é facilmente percebido na região. Inspirada em cenas de preconceito exibidas em “Insensato coração”, novela da Rede Globo que terminou na última sexta-feira, a equipe de reportagem do GLOBO-Zona Sul foi às ruas para fazer uma espécie de teste de tolerância — será que a vida imita a arte? Acompanhando dois casais gays — um formado por homens e o outro, por mulheres —, repórteres e fotógrafos registraram as reações provocadas por beijos, abraços, toques e outras manifestações de afeto.

Numa bonita tarde de sábado, o passeio de dois homens pela Praia de Copacabana causou um pequeno alvoroço. Ao caminharem de mãos dadas, trocando carinhos, o ativista social Felipe Gomes, de 30 anos, e o arquiteto José Maurício Lima, de 40, provocaram reações que variaram de olhares arregalados a comentários maldosos. Houve, é claro, quem encarasse o casal com naturalidade, mas não foi o caso da maioria.

Na altura do Posto 5, um grupo de pessoas, na faixa dos 60 anos, trocou cutucões e cochichos ao avistar o casal. Um homem balançou a cabeça em sinal de reprovação. No entanto, ao ser abordado pela equipe de reportagem, negou ter preconceito em relação a homossexuais:

— Não estávamos falando deles, não. Por acaso, conversávamos sobre a novela. Todos nós torcemos para que os gays tivessem um final feliz. Só acho que a praia não é lugar disso, afinal, passam muitas crianças por aqui.


Mais à frente, perto do Posto 6, uma mulher de aproximadamente 30 anos também não disfarçou o incômodo ao ver Gomes e Lima de mãos dadas. Chegou a virar o pescoço quando o casal passou por ela e o acompanhou com olhos até onde pôde. Depois, reconheceu que não faria o mesmo se a situação envolvesse um homem e uma mulher.


— Mas não tenho preconceito, fiquei olhando por curiosidade. Cada um tem seu gosto — afirmou.


Anoiteceu, e decidimos continuar o teste em dois bares: Boteco do Manolo, em Botafogo, e Garota do Flamengo. No primeiro, um homem de meia-idade não escondeu a irritação quando o casal escolheu uma mesa ao lado.


— Agora é assim? — perguntou a um garçom, que não esboçou reação.


O desconforto, nesse caso, foi tão grande que o homem pediu a conta e foi embora do bar deixando metade de um copo de chope para trás.


No Garota do Flamengo, onde vários clientes assistiam a uma partida de futebol pela TV, a presença do casal gay também não foi muito bem aceita. Um grupo de torcedores fez piadas e gestos de reprovação a cada beijo ou abraço de Gomes e Lima. Um homem que aparentava ter 50 anos se levantou e passou perto do casal dando um riso debochado. Já do lado de fora, não parou de encarar os dois, como se quisesse intimidá-los.O convite para um passeio pela Zona Sul foi feito em cima da hora, mas a publicitária Cristiane Carvalho, de 40 anos, e a secretária Silvia Guimarães, de 32, aceitaram a proposta de imediato. As duas, casadas com reconhecimento legal de união homoafetiva, estão juntas desde 2006, e são mães adotivas de uma menina de 8 anos.


Levamos Cristiane e Silvia a Botafogo. Era uma terça-feira, e o horário não poderia ser mais conveniente para testar a reação das pessoas: passava pouco das 13h, as ruas estavam cheias de gente que ia almoçar ou voltava de algum restaurante.Leia a reportagem na íntegra no caderno Zona Sul desta quinta-feira ou no GLOBO-Digital (Somente para assinantes)

Comentários

  1. Eu sempre quis fazer isso, de sair nas ruas e gravar a reação das pessoas perante a homossexualidade, acho que nos daria uma ideia bem mais próxima da homofobia que esse monte de pesquisas e tcc's que vivem fazendo e que só acadêmicos entendem. Aqui em Sampa eu queria ir com uma travesti na rua Santa Efigênia, desde o início mas, com certeza, ela não estaria viva no final. Neste país, que se chama Brasil; trágico e festivo, adoram muito gays, para se divertirem com eles e matarem depois, já que assassinar também é uma diversão imposta pela impunidade, vidas de LGBT's nada valem, riem muito com a gente e depois nos matam. Ando sentindo muita vergonha de ser brasileiro, vergonha dessas pessoas retratadas na reportagem acima, vergonha da falta de informação delas e da suas arrogâncias dentro da ignorância, dos seus fascismos disfarçados, da negação de Direitos. Não podem dar direitos iguais pois aí perderiam um bode expiatório, um "Judas" importante para malharem. Então, precisam nos manter na condição de sub-cidadãos e sub-cidadãs, covardes que são por que convivem em silêncio pela manutenção de uma sociedade injusta. Esse é o mundo em que vivemos.
    Ricardo Rocha Aguieiras
    aguieiras2002@yahoo.com.br

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