sexta-feira, setembro 23, 2011

Filme traz romance inusitado entre lésbica e travesti


Igor Cotrim e Simone Spoladore estrelam subversão do amor em Elvis e Madona


                                                                        Marcello Castilho Avellar - EM Cultura


Moça pouco convencional conhece rapaz que foge igualmente às regras, os dois enfrentam juntos o mundo para viver seu amor. O primeiro acerto de Elvis e Madona, filme de Marcelo Laffitte, é partir dessa situação dramática completamente trivial, que já vimos em uma infinidade de filmes – de obras de artecult (Acossado, de Jean-Luc Godard) a blockbusters (Crepúsculo). Só que Elvis (Simone Spoladore) é lésbica e Madona (Igor Cotrim), travesti. A inclusão dessas personagens, no limite das tensões de gênero de nossa sociedade, naquela situação trivial, questiona nossas convicções, tanto sobre situações triviais quanto sobre gêneros e suas tensões numa sociedade.

A subversão de elementos que já conhecemos não se limita à situação ou àspersonagens. O público mais observador vai perceber que Marcelo Laffitte se apropria de muitas outras estruturas que se tornaram triviais de tanto que foram usadas pelo cinema e a televisão, de certos enquadramentos usados como clichês pela indústria, até sintaxes inteiras, como a do clipe. Conhecemos a forma, e sabemos que Hollywood ou a Globo, quando usam aqueles artifícios, o fazem para produzir imagens certinhas em histórias bem comportadas. Laffitte os transforma em veículos para imagens sujas, borradas, ambientadas no submundo da metrópole. Aquele submundo que as gigantes no núcleo da indústria pintariam de cor-de-rosa e cobririam de açúcar para que parecesse palatável às plateias de classe média.

O resultado é um dos mais poderosos filmes sobre gêneros já realizados no Brasil. Ao inserir suas personagens nas estruturas que já conhecemos, Elvis e Madona  nos lembra que são seres humanos como outros quaisquer, e todos deveriam pensar nelas desta maneira. Ao subverter, com as personagens, aquelas estruturas viciadas pelo nosso preconceito e a pasteurização da indústria, o filme nos fala que qualquer personagem, de qualquer história, terá suas singularidades se examinada a fundo. De perto ninguém é normal. Se as pessoas são boas ou ruins, não é por causa de gênero, submundo, inserção em situações triviais ou excepcionais, mas porque tomam as decisões certas.

mãe careta (Maitê Proença) pode surpreender ao apoiar a filha inconvencional; o cara aparentemente certinho pode ser um chato bobão. Entre drama e humor, Elvis e Madonna nos lembra que nada é necessariamente o que parece – nem a história, nem a maneira como é contada, nem as pessoas que a habitam. E que é exatamente o treinamento do olhar para perceber cada coisa ou pessoa, e não para agrupar coisas e pessoas em categorias, que pode garantir a felicidade.

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