Corpos: verdade ou mentira?

A sex shop na movimentada avenida guarda segredos que apenas alguns clientes – todos homens – conhecem. Segredos que não estão nas prateleiras lotadas de pênis artificiais, calcinhas de diversos modelos, fantasias para apimentar os momentos a dois ou de DVDs disponíveis para locação ou venda.

É que, lá no fundo, cabines eróticas têm o duplo propósito de entreter o público com alguns minutos de cenas pornôs e – mais frequentemente – servir como pretexto para o sexo anônimo entre homens que moram ou trabalham perto do metrô, do ponto de ônibus, dos bares, empresas, edifícios, bancos e lojas da vizinhança.

Comparado a outros lugares semelhantes, até que o local não é de todo ruim, embora peque um pouco pela conservação e, às vezes, pela higiene, para o que o público flutuante, que nunca se esgota, também não contribui, ao jogar pedaços de papel higiênico usado e embalagens de camisinha pelo chão, que, não raro, fica melecado e exala o inconfundível cheiro de prazer há muito gozado e requer a limpeza com desinfetante barato.

Não era a primeira que eu o frequentava no horário de meu almoço. Uma hora de intervalo no meu expediente, uma refeição rápida de 30 minutos, e o restante, dedicado a outras delícias igualmente animais. O preço é baixo: por R$ 10, compram-se 5 fichas para assistir aos filmes em qualquer das cabines, cada uma valendo 7 minutos de sexo nas tevês trancafiadas, que se ativam quando o metal é engolido pelos vãos denteados. A sexta ficha é gratuita. Promoção da casa.

É exatamente a quantia que peço à atendente. Com avidez e rapidez, dirijo-me às cabines mais disputadas: 1, 2, 3 e 4. Entre elas, há glory holes – que mais poderiam ser apelidados de “body holes”, tão grandes eles são. Por eles, é possível ver tudo que um parceiro de cabines faz ao lado e até interagir com ele, se é que me entendem, com mãos, dedos, bocas e outros orifícios.

No entanto, essa exposição, às vezes, afasta parte do público. Essa outra parcela prefere as cabines de número 5 em diante. Solitárias, elas não têm aberturas, exceto minúsculos buracos que desconfio terem sido feitos por voyeurs, e costumeiramente são ocupadas por duas (até três!) pessoas ao mesmo tempo, embora o aviso diga claramente que apenas um cliente é permitido por cabine.
 
Muitos ficam no “paredão” em frente às entradas das cabines, à espera da presa. Aprendi que os ativos executam manobras com as mãos por cima ou por baixo do tecido da calça, para exibir os dotes e a potência. Os passivos metem as mãos nos bolsos e tão-somente aguardam, os olhos sequiosos para o que os ativos oferecem... No entanto, muitos são inexperientes e procuram ali corpos bem-formados, belezas exuberantes ou virilidade à flor da pele, deixando passar inúmeros candidatos. Que outro motivo teriam para permanecer tanto tempo no “paredão”? Não gosto dali. Mesmo quando não encontro carne disponível, pouco me demoro e prefiro entrar solitário em uma cabine a me encostar indefinidamente sem saber o que esperar.

Naquela tarde, as cabines de 1 a 4 estavam surpreendentemente vazias. Eu tinha pressa, e não fazia sentido aguardar que alguém me visse pelo “hole”. O paredão, no entanto, estava cheio. Vislumbro um negro, magro, de terno e gravata, logo na porta de acesso ao corredor, fazendo as tais manobras por cima da calça. Ativo. Não sei se eram para mim ou para qualquer um. Faço uma leve insinuação, mas concluo que ele está escolhendo demais.

Nas cabines, fora do paredão, apenas uma está ocupada. Um rapaz muito alto e magro, branco, de cabelos ondulados e fartos, um tanto despenteado, óculos de aro escuro e calça e camisa sociais está dentro da número 5, a porta escancarada, esperando que alguém entre com ele, como um convite sem palavras. O aspecto “nerd” do moço parece afastar alguns, que passam em frente sem lhe dar importância. Juro que pelo menos dois mais femininos parecem olhá-lo com certo desdém.

Eu não.

Algo me chama a atenção nos que são “desprezados” por uma maioria de bichas. Sempre penso que, na busca por corpos perfeitos e anabolizados, elas deixam passar diamantes brutos, que escondem gratas e deliciosas surpresas. Então, eu me aproximo da cabine 5. Espero um pouco ao lado. Na segunda passagem, ele faz a “manobra ativa” por cima da calça. Entro sem titubear e insiro uma ficha.

Grata e deliciosa surpresa...

Dentro da cabine, a sós, iluminados apenas pela luz da tevê, o nerd é todo bocas e dedos. Ele esfrega o corpo em mim, levanta minha camisa, me beija com uma língua longa e doce, o aparelho roçando de leve os meus lábios. Hábil, sabe o que fazer com as mãos grandes, que descem pelo meu peito e barriga e encontram minha bunda, que se abre para elas. Sua magreza não é um problema porque, em poucos segundos, ele me ocupa todos os espaços, e nossos corpos reagem com rígida ereção. Sorrimos um para o outro, sem nada dizer, até que ele me mostra o que quer. Indo para o outro canto da cabine, abre sua calça. Era enorme!

Grata e deliciosa surpresa...

O que eu tinha de pudores, se é que algum me restava, abandono, e minha língua encontra a mucosa agigantada e quente. Guloso, eu tento pôr tudo na boca e sou correspondido por gemidos grossos e abafados, enquanto uma barriga lisa, jovem e branca balança sôfrega e magra acima de meus olhos. Ouço sua voz pela primeira vez.

- Quer dar?

- Não sei se aguento.

Ao que parece, meu “não sei” é um “sim” na linguagem das cabines. Uma camisinha pula da mochila cor de terra e veste o monstro em segundos, enquanto sou virado de costas para ele. Fecho os olhos e me preparo para a dor, à medida que o monstro roça minha entrada mais guarnecida.

- Você não tem lubrificante, não é?

- Não.

Então, a surpresa. Exímio nas artes do amor, ele não é bruto de saída. Seu quadril remexe atrás de mim, ele me abraça e me beija o pescoço. A virilidade transparece quando puxa meus cabelos e morde de leve minha orelha, obrigando-me a beijá-lo novamente em seguida. A guarda baixa. Vou relaxando, e eis que, quando menos espero, acontece o que eu não acreditei ser possível. Aos poucos, o monstro se aloja dentro do meu corpo. Inteiro. Duro. Grosso. Quente. Pulsante.

Agora, sim, ao perceber que se deu a conquista e a invasão é fato, as estocadas começam. Frenéticas. Ininterruptas. Fortes. Eu quase levanto do chão, guiado pela altura do meu parceiro, e agora... Agora, sou eu que gemo. Sem controle. Enquanto ele me abraça o tronco, puxa mais meus cabelos e volta a me beijar para abafar meus quase-gritos.

Passam-se minutos nessa deliciosa tortura, quando ele faz um anúncio.

- Vou gozar.

- Goza.

Um gemido mais forte e grosso sai da boca do nerd. Juro sentir a inundação, apenas barrada pelo preservativo. Quando o monstro, cansado, sai de dentro de mim, percebo que é circundado por uma aura branca e farta. Ele o descarta.

- Qual seu nome? Pergunto.

- Fernando.

E, no momento em que mais uma ficha esgota seu tempo, saímos. Ambos sorrindo – e eu, feliz, por mais uma vez ter encontrado o diamante que as bichas deixaram passar.

Acaba o horário de almoço.


>>> Em vista do texto acima, pergunto: você considera verdade que muitos gays, na busca do corpo perfeito em um homem, deixam passar gratas oportunidades sexuais ou afetivas? E quanto aos héteros, o que ocorre?

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