Empatia


A importância da empatia



por João Marinho


Quem me conhece sabe que não sou muito dado a posts do tipo “minutos de sabedoria”. Mesmo assim, achei que talvez fosse legal abordar algo que tem sido muito frequente nos meus textos ultimamente: a empatia.

Lembro que uma das primeiras vezes em que vi e me apaixonei pela palavra foi anos atrás, na extinta série Charmed, que passava no Canal 21 sob o título de Jovens Bruxas.

A série continuou depois passando na tevê a cabo, e uma das personagens, Phoebe (Alyssa Milano), que tinha o dom da premonição, desenvolveu um poder ativo: por meio da empatia, ela era capaz de descobrir como outros bruxos e bruxas usavam seus poderes e usá-los contra eles próprios.

Claro que o poder da empatia me chamou a atenção. Dicionários me forneceram uma definição, e cito aqui uma das do Houaiss: “capacidade de se identificar com outra pessoa, de sentir o que ela sente, de querer o que ela quer, de apreender do modo como ela apreende, etc.”.

A empatia é, portanto, uma capacidade eminentemente emocional e afetiva. Trata-se de assimilar a alteridade, em vez de rejeitá-la, e “colocar-se no lugar do outro”. Em Charmed, não por acaso, os poderes bruxos eram ativados por emoções.

Gosto de pensar que minha inteligência é eminentemente do tipo empática, se é que existe essa classificação. Não sou bom com mapas, deixei os cálculos matemáticos faz muito tempo, sou bom em linguagem só porque aprendi e minha noção espacial é pobre e ridícula. Mal sei determinar o leste e o oeste. Definitivamente, sou também descoordenado, razão pela qual estou ralando horrores para aprender o nado peito.

Felizmente, ser empático me ajuda na minha profissão, jornalista. Consigo estabelecer vínculos com as pessoas e olhar as coisas de outros pontos de vista, vendo como elas veem. Não por acaso, dentro do jornalismo, a editoria de Comportamento é uma de minhas praias.

No entanto, não é preciso ser jornalista para praticar empatia. Em maior ou menor grau, todos nós, com exceção dos psico/sociopatas, a possuímos, e considero importante praticá-la sempre que dá. Acho mesmo que falta muita empatia no mundo. Se houvesse um pouco mais, as coisas seriam mais fáceis.

Já usei de empatia para conversar com um garoto de programa português e me solidarizar com sua situação. Ilegal no Brasil, sem poder arranjar trabalho normal pela falta de documentos, tirava seu sustento como garçom irregular e vendendo o corpo. Mesmo esperava, esperançoso, pela deportação.

Já usei de empatia para conversar com algumas “não pessoas”, os moradores de rua. Descobri que há os que são bem-informados, trabalham, votam e têm famílias, mas as abandonaram ou foram abandonados por elas. Desentendimentos e drogas são alguns dos motivos.

Outros simplesmente perderam tudo – e há o caso de uma mãe que largou casa para tentar ver o filho, preso por furto. Três deles, anos atrás, foram gentis ao me protegerem de uma chuva torrencial, me oferecerem agasalho e até quiseram fazer sexo comigo, mas isso é assunto para outro momento e só para amigos próximos...

Falo de empatia, porém, para mencionar uma experiência que está completando aí uns cinco meses e que me fez reconhecer, mais uma vez, seu valor.

Ali pelo fim do mês de fevereiro, ao sair do trabalho, fui abordado por um homem no centro de São Paulo. Minha primeira reação ao espanhol com forte sotaque dele foi dizer “no hablo español” e seguir, com um amigo de trabalho, meu caminho. Como boa parte dos paulistanos, assumi que ele só queria pedir dinheiro – mas a empatia me impediu.

Algo me fez voltar atrás e escutar a história do tal homem. Senti que ele tinha algo a dizer que merecia ser ouvido. Treinando meu espanhol um tanto rude, intercalado com expressões em inglês, descobri que ele era chileno, gay como eu, e havia sido assaltado ao chegar a São Paulo. Levaram dinheiro, cartão de crédito, o que puderam.

A mochila grande e pesada dava sustento à história, e ele foi bem exato na quantia de dinheiro que precisava: a soma correta para pegar um metrô e um ônibus para ir ao Aeroporto de Guarulhos pegar o avião e utilizar a passagem transferida que tinha conseguido com a ajuda do Consulado Chileno.

Dino, ou Dthai (como ele assinava no Facebook), foi comigo pegar meu terno novo, já que eu ia ser padrinho de casamento de uma amiga. Jantou comigo, embora tenha recusado a oferta que lhe fiz de lhe pagar um prato, e eu acabei pagando para ele a passagem do ônibus especial da Praça da República para o Aeroporto, 5 vezes mais cara, para ele não correr o risco de perder o voo. Coloquei-me no lugar de um estrangeiro que perde todo o dinheiro em outro país e nem mesmo fala o idioma do lugar.

Enquanto eu comprava a passagem, ele escreveu uma carta de agradecimento, me deixou seu e-mail e seu Facebook e mantivemos contato por um tempo. Dthai gostava do Brasil e já havia conhecido diferentes cidades: Rio, Foz, São Paulo, Salvador. Eu me senti envergonhado de a violência estar tão grande por esses lados.

No Facebook, todas as histórias que ele me contou conferiram com as fotos, os locais, mesmo sua residência na Holanda, e começamos uma amizade. Nossa última mensagem foi em abril, quando comecei a gripar e disse para ele que precisava me recolher, e ele me desejou melhoras.

Depois, não tive mais notícias – e, ao procurá-las, descobri que Dthai havia falecido, assassinado em Foz do Iguaçu. Fiquei triste, é claro... Mas me confortei sabendo que, ao menos em nosso encontro, fui uma das pessoas que o ajudou e o tratou com mansidão e humanidade.

Embora existam muitos aproveitadores por aí, nunca sabemos o dia de amanhã... E nem quanto tempo temos para fazer o bem a alguém. Então, a pergunta que fica é: você já praticou sua empatia hoje?

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