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Deus ama ao que dá com alegria (II Co 9,7)

terça-feira, julho 02, 2013

Ganhamos uma batalha


Cura gay: ganhamos uma batalha, mas não vencemos a guerra




 por João Marinho

Meses atrás, em uma das edições da Sex Boys, uma das revistas das quais sou editor-chefe, o jornalista Erik Galdino escreveu um artigo que, não faz muito tempo, fiz questão de republicar. O tema: fazendo militância sem ser ativista.

Sem abrir mão da importância das ONGs e instituições – como os partidos, fundamentais para o jogo democrático e para a defesa de interesses e pautas sociais –, Galdino argumentava que, porém, nem sempre é necessário estar filiado a uma para militar: a militância pode, e deve, ser exercitada no dia a dia.

Ao assumir-se gay e assumir-se cidadão para sua família, amigos ou colegas de trabalho. No ônibus, ao não engolir aquele comentário homofóbico que fizeram a você sem saber de sua sexualidade. Ao defender as travestis de quem fala mal das “de pista”. Ao ajudar a pressionar o vereador, deputado ou senador em que você votou por conta de leis preconceituosas. Ao participar das passeatas. Ou mesmo, como conta o próprio Galdino em seu artigo, recusando-se a seguir viagem com um taxista que reclamou, de forma ofensiva, da passeata dos “veados”.

Tudo isso é militância, e fazendo isso, você ajuda, mesmo que seja apenas um pouco, a mudar o País e a mentalidade de muita gente.

João Silvério Trevisan, nos tempos áureos da G Magazine, já comentava que sair do armário é, nas palavras minhas, um ato político. É uma verdade. Quando você se assume, as coisas que você faz, o que você diz, como você se porta e como você defende seus semelhantes viram parâmetro para as pessoas que o cercam e que, muitas vezes, estão conhecendo o primeiro LGBT assumido da vida delas. Tenho absoluta certeza de que influenciei a muitos assim.

Comecei a me envolver com militância LGBT em 2002, após um casal de lésbicas ser massacrado no programa “Superpop”, de Luciana Gimenez – que muitos acham ser uma musa gay. Só que não. A reação àquele evento resultou numa ONG que não vingou, a Pró-Conceito de Gays e Lésbicas, cuja história completa você pode ler aqui.

Não vingou, mas produziu um guia para a mídia traduzido até no Equador, base para o guia muitos anos depois editado pela ABGLT e que iniciou algumas pessoas, eu incluído, na militância. Foi apenas uma das vitórias de que posso me orgulhar ao me envolver na defesa de direitos que, afinal, são também meus.

A verdade, porém, é que nenhum movimento social é perfeito. O movimento LGBT também não, e há, no Brasil, profundos problemas que, com o tempo, me afastaram da militância organizada, orgânica. Ainda assim, sempre estive por perto, para apoiar quando necessário, para criticar quando achava que devia, para influenciar e informar no meu papel de jornalista e para me juntar a eles, sempre que as necessidades assim o demandassem.

Outra verdade é que, considerando isso, há também grandes vitórias da militância LGBT nacional. Sabe a união homoafetiva, aprovada no STF? Muita gente pensa que ela surgiu “do nada”, porque Sérgio Cabral (PMDB), do Rio, foi iluminado por algum espírito, e Deborah Duprat idem. Ambos propuseram a ADIN e a ADPF que resultaram na decisão do Supremo.

Cabral e Duprat realmente foram nossos aliados e fomos agraciados com uma janela de 15 dias que permitiu à última assumir a Procuradoria da República e propor uma ação a favor da união homoafetiva no Supremo.

No entanto, essa ideia não surgiu do além. A proposta de entrar no Supremo havia sido costurada anos antes pelo movimento LGBT e já se encontrava razoavelmente consolidada. Precisávamos de apoiadores que dessem sequência a ela. Foi onde entraram ambos. Em suma, se você pode casar hoje, claro leitor LGBT, você deve, sim, ao movimento LGBT – e adivinha quem estava numa das primeiras reuniões no Centro de São Paulo sobre o assunto e acompanhou as discussões online? Euzinho. Mais um motivo de orgulho.

Também me orgulho de ter ajudado a fazer Kassab vetar o Dia do Orgulho Hétero. Sem ser orgânico, ao produzir uma pauta para a “Sex Boys”, notei que Kassab havia prometido vetar, mas não tinha vetado: nada saíra no Diário Oficial.

Notei que o prazo estava no fim. Liguei para a Ouvidoria da Câmara, para a Prefeitura, e, ao saber que nada tinha sido enviado à primeira vetando o projeto do evangélico Carlos Apolinário (PMDB), fiz barulho junto à militância orgânica, especialmente a ligada aos partidos. Os militantes cobraram seus vereadores, houve pressão e, na “bacia das almas”, Kassab vetou.

Ricardo Rocha Aguieiras, meu amigo, sempre me disse que, não fosse eu ter percebido aquilo, o prazo teria terminado e a Câmara teria promulgado a lei, como diz o processo da coisa. Talvez seja exagero, mas a verdade é que, mesmo como cidadão comum (e jornalista), fui uma das formiguinhas que ajudou aquilo a não passar.

Agora, tenho mais um motivo de orgulho. Há meses, questionei o Diversidade Tucana sobre o papel do pastor João Campos como líder da bancada evangélica e articulador antigay. João Campos é do PSDB e autor do projeto de “cura gay”. Sei que o Diversidade agiu dentro do partido para tentar anular Campos, sem muito sucesso.

Insatisfeito, publiquei como jornalista, um artigo dizendo que, enquanto nos mirávamos em Feliciano (PSC) e Bolsonaro (PP), incompetentes, João Campos seguia incólume nos bastidores, a inteligência por trás dos peões.

Quando o militante Leo Mendes escreveu sobre a mesma coisa, apontando que o projeto de “cura gay” era de Campos, prontamente entrei numa campanha para pressionar o PSDB.

Mais um artigo escrito, elogiado por Luiz Mott. Outros aderiram comigo, e a pressão, aliada às imprescindíveis manifestações de rua, fez surgir uma nota oficial, próxima das manobras no Congresso para levar o projeto a plenário e “enterrá-lo”, nas palavras de Henrique Alves (PMDB)

Suficiente? Não. O mandato é do partido, então, continuamos pressionando. Agora, sem apoio dentro do próprio PSDB, João Campos pede a retirada da “cura gay” de pauta: http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,autor-pede-retirada-de-tramitacao-do-projeto-da-cura-gay-na-camara,1049449,0.htm e http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2013/07/02/camara-dos-deputados-arquiva-cura-gay.htm. O que ainda precisa ser votado.

Vitória nossa? Sem dúvida. Mesmo com Marisa Lobo dizendo que não, que “ela” pediu a retirada, foi, sim, uma vitória da pressão LGBT e de nossos aliados. Orgânicos e militantes não filiados. Gays e héteros. Negros e brancos. Psicólogos e pacientes. Tucanos e não tucanos. Estamos em todos os lugares, e juntos somos mais fortes.

Vencemos, porém, uma batalha – mas não a guerra. Se aprovada a retirada, o projeto, em vez de ser definitivamente derrubado, poderá voltar na próxima legislatura, em 2015. Foi uma vitória, mas também uma manobra evangélica, uma retirada estratégica.

Feliciano já ameaçou, dizendo que “haverá mais políticos evangélicos”, como se evangélicos – os verdadeiros – não tivessem coisas mais importantes para pensar sem ser nos ânus das pessoas e na sua vida sexual e afetiva.

É, porém, um risco verdadeiro. Cabe a nós não esquecermos, não deixar que aconteça e ajudar a diminuir, no pleito, a existência de políticos fundamentalistas. Não votar neles. Fazer campanha contra eles – e vigiar sempre, para que, em 2015, o Congresso não entre em tentação e tente, novamente, aprovar essa excrescência.

Eu não vou esquecer. Você vai?

... E parabéns ao PSDB. Não sou tucano, mas antes tarde do que nunca.

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