Juntos, somos mais fortes


... E, então, eu ajudei uma trans

por João Marinho

 Aconteceu há alguns dias. Dezoito, para ser mais exato.

Eu estava postando um de meus artigos na comunidade LGBT Brasil, no Facebook, quando li um pedido de socorro. J., uma mulher bi do litoral paulista, procurou a comunidade para ajudar C., uma trans que sofria agressão severa por parte de sua "família" no interior de São Paulo. O motivo? Unicamente, ser trans. Coloco, inclusive, família entre aspas porque não acredito que a expressão se coadune com quem tem o mesmo sangue e faz esse tipo de coisa.

A situação era tão séria que C., segundo J., corria até mesmo risco de morte. Muitos se mobilizaram na comunidade, a maior parte com informações indicando o que C. podia fazer do ponto de vista legal, a começar com o registro de Boletim de Ocorrência.

No entanto, sabemos que as coisas não são tão simples assim. Evidentemente, buscar o poder público é importante e necessário, mas, quando a vítima se encontra em situação de vulnerabilidade, dependente e morando na mesma casa que o agressor, a situação se complica. Entendo eu, particularmente, que, antes de tudo, é preciso tirá-la daquela situação para que possa, então, exercer seus direitos e buscar a Justiça, se o desejar.

Foi o que fiz. Entrei em contato particular com J., que me passou todas as informações, e ajudei com uma determinada quantia em dinheiro, via transferência bancária, para pagar as passagens de C. do interior paulista para o litoral. Na ocasião, C. estava passando os dias na biblioteca e voltava para casa apenas à noite, a fim de evitar situações em que pudesse ser agredida.

Deu tudo certo. Hoje, recebi uma foto de J. mostrando ela, C. e um amigo bem, no litoral. Ela conseguiu acessar a transferência, pagar as duas passagens de que precisava – uma para Sorocaba e, de lá, outra para o litoral – e sair de sua cidade. Agora, Jully a está ajudando em sua nova casa, que já tinha conseguido para ela, e também deverá dar apoio na (re-)inserção profissional.

Não sei dizer se outras pessoas ajudaram, além de J. e de mim. Penso que sim e quero acreditar que sim (quem sabe mesmo a pessoa que forneceu o local onde C. agora mora?) – mas, de minha parte, fico feliz por ter contribuído e, quem sabe, mesmo ter ajudado a salvar a vida de uma trans.


Claro que foi uma coisa de alto risco. Deu certo porque J. é uma pessoa de bem, idônea... Mas uma situação muito similar poderia ser um golpe. No entanto, valeu a pena – uma demonstração de que juntos, nós, LGBTs, somos mais fortes.

Publico a história porque agora finalmente se inaugura um novo capítulo na vida de C. e também para estimular todos nós a que pensemos que somos uma tribo e devemos nos ajudar contra a homofobia. 


Mais importante: para deixar uma sugestão. Não seria demais se houvesse como instituir um fundo de caridade para ajudar lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais em situação de vulnerabilidade físico-psicológica, vítimas de violência? Poderia ser uma tremenda ferramenta para o movimento LGBT fazer – ainda mais – a diferença.

PS: preservo os nomes e as localidades por questões óbvias de segurança.

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