Religião versus ateísmo


Religião não define caráter. Ausência de religião também não

por João Marinho

Que me recorde, a discussão e o embate entre religião e ateísmo não resvala no caráter particular das pessoas.

Exemplos de religiosos que se comportam como pessoas de bem existem aos montes. De ateus intolerantes também - e vice-versa. Eu mesmo faço parte de uma família evangélica, e não a considero a pior do mundo (pelo contrário).

A disputa entre religião e ateísmo é uma disputa essencialmente ideológica e de escolha para o melhor caminho no que tange à defesa dos direitos humanos e da liberdade pessoal e científica.

Tem a ver com a discussão se é necessária a existência da fé religiosa, de uma ou mais entidades invisíveis, para definir o que é moral no ser humano - em vez de delegar à liberdade do espírito humano e a um pacto social a prerrogativa de definir essa moralidade.

Tem a ver com a discussão se é necessária a existência da fé religiosa, de uma ou mais entidades invisíveis, para guiar os preceitos e limites da ciência, em vez de delegar ao humanismo a prerrogativa dessa definição.

Tem a ver com a discussão se é a religião que deve ser usada como parâmetro para decidir sobre os direitos de minorias, grupos outsiders e temas polêmicos, ou se devemos contar com o embate ideológico-político baseado nas leis laicas para fazê-lo.

Finalmente, tem a ver com a discussão se é necessária a existência da fé religiosa, de uma ou mais entidades invisíveis, para ajudar o ser humano a lidar com suas dores e seus desafios, em vez de contar tão-somente com o conforto que a natureza, limitação e solidariedade humana podem oferecer.

É essa a discussão.

Os ateístas essencialmente defendem que a humanidade pode prescindir da religião - na qual não acreditam - e determinar por si própria, sem a anuência de um Deus, seres sobrenaturais ou leis ininteligíveis, o melhor caminho para traçar a moralidade, os direitos, os limites da liberdade pessoal e científica e do conforto frente às adversidades. Para os ateístas, malgrado eventuais contribuições da religião, esta, na maior parte das vezes, age como entrave e o avanço nesses tópicos seria mais rápido e efetivo se a humanidade dela prescindisse.

Já os religiosos defendem que a ideia de Deus ou outros seres é essencial, pois, não apenas por eles existirem, é deles que derivam as leis máximas do universo, a melhor forma de determinar os limites, a moralidade, a liberdade e o conforto - e que prescindir disso significa não apenas virar as costas para uma realidade objetiva, mas também ser punida a humanidade por fazê-lo. Nisso, criticam os ateus, porque sua forma de pensar seria o prelúdio dessa "queda humana", já que, diferente daqueles, não consideram que o ser humano possa ser de todo independente.

É esta a discussão, e, mesmo não sendo ateu, eu considero que a posição ateísta tem mais fundamento, no sentido de que a humanidade é capaz de caminhar por si própria sem a prerrogativa de livros sagrados ou seres a quem consagrar respeito especial. Também não acredito que a religião seja necessária para ensinar ao ser humano o que é bom, justo, moral e de valor - sendo que, quase sempre, ao fazer isso, a religião traz no bojo determinados preconceitos, sobretudo contra outras religiões, além de considerar o argumento do entrave como verdadeiro.

Assim, imagens como a acima, que não têm nada a ver com o embate maior entre as duas ideologias e comparam tipos diferentes de seres humanos com base em sua fé ou em sua ausência de fé (religiosa), são apenas uma tentativa débil de nublar a verdadeira discussão.

Afinal, se a religião não define o caráter, a ausência de religião também não. Fosse o mundo majoritariamente ateu, casos como o de Slobodan seriam condenados pela maioria. Fosse o mundo ateu, casos de religiosos humanitários ainda seriam louvados. A questão era saber se, sem religião, seria possível combater os males do primeiro grupo e promover as benesses do segundo. Os ateus acreditam que sim. Eu também.

Vale a pena não perder o foco e não nos deixarmos levar por essa propaganda teísta, cujo único propósito é jogar uma cortina de fumaça sobre o que realmente está sendo discutido alhures.

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